ALMANAQUE MINEIRO

“Só e no mais: sem ti, jamais nunca.” João Guimarães Rosa

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

 

UM CURRAL DEL REI DE BELOS HORIZONTES


Naquele período do despertar das forças vivas de nossa terra, quando esta parte das Minas se tornava o celeiro provido de cereais e de gado que deveriam abastecer outras zonas auríferas também descobertas — Itaverava, Ribeirão do Carmo e Ouro Preto — logo depois de Borba Gato vieram muitos outros aventureiros paulistas e portugueses em demanda do Sabarabuçu, atraídos pela fama de riquezas inesgotáveis.

Entre eles subiu o célebre bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva — (mais tarde o Anhanguera II), que logo senhoreou imensa faixa de terras que ia do Rio das Velhas ao Pará, onde montou fazenda.

Em 1701, quando a gente de Borba Gato, de D. Rodrigo e outros aventureiros recentemente arribados às nossas plagas, começavam a povoar as circunjacências de Sabará e as margens do Rio das Velhas, — seduzidos pelas mesmas perspectivas de abundância do rico minério e atraídos por Bartolomeu Bueno, pouco depois vieram reunir-se a ele os seus primos e mais tarde genros João Leite da Silva Ortiz e Domingos Rodrigues do Prado.

Apenas chegados, ao passo que Domingos do Prado foi estabelecer-se para os lados de Pitangui, João Leite, bem impressionado pelos aspectos atraentes da Serra das Congonhas (mais tarde do Curral) e suas encostas, prevendo, talvez, encontrar boas faisqueiras de ouro, perlongou-as e, a certa altura, descobrindo um belo sítio com ótimas terras de cultura e magníficos pastos para criação, deles se apossou, fixando-se definitivamente com numerosa escravatura nesse lugar, a que denominou Cercado, parte do mesmo solo em que está assentada a cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais.

É isto o que nos demonstra quanto sabemos da vida desse notável bandeirante, bem como a seguinte carta de sesmaria a ele concedida pelo governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, passado no arraial do Caeté, aos 19 de janeiro de 1711, a qual se pode ler na Revista do Arquivo Público Mineiro, ano X, fascículos III e IV, de 1905:

“Ant. de Albuquerq. Coelho de Carv. etc. — Faço saber aos q’. esta minha Carta de Sesmaria virem q’, havendo respto. ao q’. por sua petição me enviou a dizer João Leyte da Silva, q’. ele Supp.te , em o ano passado de 1701 fabricou fazenda em as minas no districto do Rio das Velhas em a paragem aonde chamão o Sercado, e na ditta fazda. teve plantas e criações, de que sempre pagou dízimos e situou gado vacum, tudo em utelidade da fazenda real e conveniência dos min.ros e porqu’ se acha com a mesma feituria e escravos no dº lugar, pa. tratarem da sobredita fazenda, plantas e criações para o effeito de melhor augmentar quer haver por Sesmaria toda a terra da dita fazenda COMESSANDO A SUA DATTA DO PÉ DO SERRO DAS CONGONHAS, ATÉ A ALAGOINHA, ESTRADA A QUE VAY PARA OS CORRAES DA BAHIA Q’. SERÁ HÚA LEGOA, E DA DITTA ESTRADA CORRENDO PARA O RIO DAS VELHAS TRES LEGOAS, POR ENCHEYO, entrando todos os pastos, assim de campos, capoeyras, maninhos e tudo mais que ficar incluso da dita datta, preferindo elle Supplicante a outro qualquer Sesmeiro pelo direito que tem de PRIMR.º POVOADOR; Pedindo-me lhe fizesse mce. mandar passar a ditta Sesmaria e Carta de dattas na forma q.’ deu o Prov.or e juiz das Sesmarias, Hey por bem de fazer mce. ao d.º João Leyte da Sylva em nome de s. Mag. q.’ Deos guarde, de se lhe dar de Sesmaria, das terras q’. comprehende o SÍTIO JÁ POVOADO HUA LEGOA DO SERRO DAS CONGONHAS ATÉ A LAGOINHA, E CORRENDO PARA O RIO DAS VELHAS OUTRA LEGOA E MEYA sem prejuízo de terceiro, assim e do mesmo modo q’. são com as suas referidas confrontações, com declaração que achandosse dentro dellas algú morador com tt.º de prim.º povoador, ou de haver comprado, não será expulço, e menos obrigado a aforar-se, porém não roçará de novo; e as dittas terras se cultivarão, e povoarão dentro em dous annos, e não o fazendo nelles se lhe denegará mais tempo, e se julgarão por devolutas na forma da ordem de sua Mag.de de 22 de Outrº de 1698. E outro sy será obrigado o d.º João Leyte da Sylva a mandar confirmar esta Carta de datta por s. Mag.de q’. Deos guarde dentro em três annos plo. Seu Conse.º Ultrº. Pelo q’. mando ao Provedor, e juiz das dattas e Sesmarias destes destrictos lhe mande dar posse das dittas terras na forma do estylo. E a todos os officiaes de justiça a q’. o conhecimento desta pertencer a fação cumprir e guardar tão inteiramente como nella se conthem; a qual por firmeza de tudo lhe mandey passar por my assinada, e sellada com o Sinete de minhas Armas, q’. se registrará na Secretaria deste Governo e aonde mais tocar. Dada neste Arrayal do Caeté aos 19 dias do mez de Janr.º de 1711. — O Secret.ro. M. el Pegado a fez. — Ant. de Albuq. de Carv.”

Esse documento preciosíssimo prova-nos clara e perfeitamente que João Leite da Silva Ortiz foi o primeiro homem civilizado que habitou e possuiu o belo local onde, 196 anos depois, se instalava a Capital, — naquele longínquo tempo em que, segundo o admirável e fidelíssimo Antonil “houve anos em que de todas estas minas ou ribeiros se tiravam mais de cem arrobas de ouro, fora o que se tirava escondidamente d’outros ribeiros, que os descobridores não manifestavam”.

De fato, vê-se por esse documento que as terras concedidas a Ortiz abrangiam quase toda a área da atual Capital de Minas, pois ali está escrito:

“Começando a sua data do pé do Serro das Congonhas até a Lagoinha, estrada que vay para os corraes da Bahia, que será hua legoa, e da ditta estrada correndo para o rio das Velhas tres legoas por encheyo.”

Ora, o local da velha casa que foi sede da fazenda do Cercado ahi está conservando o mesmo nome, distante mais ou menos uma légua de Belo Horizonte, próximo do Cercadinho, de onde nos vem parte da água com que nos abastecemos. Fica pouco além e abaixo da estrada de automóveis que vai para o Cercadinho, no ponto em que desta parte se dirige para Bom Sucesso.

Nesse local ainda se encontram restos dos troncos de árvores que foram decepadas e de cujas madeiras se construíram as dependências da fazenda. Aí ainda existem vestígios do antigo engenho, paiol e senzala, no meio do matagal, além dos velhos coqueiros que se aprumam, talvez plantados por Ortiz.

Aí está a serra das Congonhas, que a princípio tirou o seu nome de Congonhas de Sabará (hoje Nova Lima) e que se denominou depois Serra do Curral, quando nasceu o arraial do Curral d’El Rey.

Aí está, conservando a sua primitiva denominação, a Lagoinha, um dos mais florescentes bairros da Capital e que assim se chamou pela existência de uma lagoa que foi mais tarde drenada e extinta pela comissão Construtora da nova Capital, entre 1894-97. Para além daquele bairro ainda existe a velha estrada que ia em demanda dos currais da Bahia e do São Francisco, e pela qual se fazia o grande comércio dos mascates e boiadeiros.

Nestas condições, que mais precisamos ainda para ter absoluta certeza sobre caber a João Leite da Silva Ortiz a glória de ter sido o primeiro homem civilizado que possuiu e habitou o solo de Belo Horizonte? Nada. A ele, pois, devemos grande preito de veneração, por ter sido o fundador de um dos mais antigos arraiais de Minas e aquele que havia de ser o centro irradiador da civilização e do progresso para todo o estado, quando transformado em sua nova capital maravilhosa.

Mas, se quisermos que seja completa a indenização de nossa dívida para com a memória imperecível de Ortiz, não basta essa veneração espiritual: é preciso que se lhe erga em uma de nossas mais lindas praças, (no alto do Cruzeiro, por exemplo), um monumento duradouro, onde fiquem gravados no bronze ou no granito o seu nome, o ano de 1701 e uma expressiva legenda de gratidão.


Abílio Barreto
Belo Horizonte
memória histórica e descritiva
história antiga
Livraria Rex. Belo Horizonte
2ª edição. 1936.

Comments:
Saudações, me chamo Roberto Dias, escrevo do |Rio de janeiro e trabalho com questões de mobilidade por bicilceta, e coloco minhas idéias no blog rotasdobrasil.wordpress.com ; como pedalo pelas terras de minas pois alem de minha familia morar em BH eu adoro as histórias e memória presente nessas terras. Estava escrevendo um texto e deparei com esta sua obra que achei bem interessante. Estou fazendo um link em meu blog para este texto. Venho por meio deste lhe comunicar e se houver algum problema por favor avise.
Um grande abraço
Roberto Dias
rotasdobrasil@gmail.com
 
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