ALMANAQUE MINEIRO

“Só e no mais: sem ti, jamais nunca.” João Guimarães Rosa

Sábado, Setembro 06, 2008

 

FAMÍLIAS GOVERNAMENTAIS


O surto industrialista e o conseqüente crescimento das concentrações urbanas, intensificadas particularmente no último quarto do século, são, naturalmente, apontados como os elementos básicos que alteraram a estrutura política brasileira a partir de 1930. Ali onde, como em São Paulo, o industrialismo concentrou a sua maior força de expansão, foram criados novos segmentos sociais que, com o seu comportamento político, passaram a perturbar inteiramente o panorama tradicional. Nos Estados em que, como Minas Gerais, a estrutura agrária, ao revés, mantém o seu domínio, apesar de todos os fatores de desagregação ocorrentes, ainda é possível observar-se o jogo político em suas grandes linhas antigas. Não será por outro motivo que, enquanto os partidos novos, pela substância social de eleitorado, têm, em conjunto, os seus maiores núcleos em São Paulo, os partidos tradicionais, de velha substância social que vem do Império e da Colônia, têm em Minas o seu quartel general.


A expansão industrial dos Estados vizinhos, pelos seus efeitos indiretos, o surto industrial que cresce de intensidade no próprio Estado, a decadência da economia agrária, depauperada pelo êxodo de seus elementos ativos em busca das grandes cidades e das áreas novas de colonização no Goiás e Paraná, são elementos poderosos a operarem em Minas Gerais a desagregação da estrutura sócio-econômica tradicional.


No entanto, apesar de tudo, a estrutura antiga prevalece, e é aqui, por isso mesmo, que podemos ver o processo de formação de nossas elites políticas em sua feição tradicional, da mesma forma em que é aqui ainda que encontramos as elites tradicionais em plena atividade de controle e chefia política.


Os principais hoje em Minas são, via de regra, descendentes dos “homens bons” da Colônia. A persistência de uma mesma classe dominante, apenas acrescida no tempo pela contribuição de parcela reduzida de elementos novos que nela se absorveram pelos laços de parentesco, decorre da continuidade da estrutura econômica, toda ela ligada ao senhorio da terra, seja no tempo da mineração, seja no ciclo de nossa economia rural.


A essa persistência da estrutura econômica deve acrescentar-se o sistema eleitoral e político que vigorou desde a Independência, todo ele feito para garantir a concentração do poder local nas mãos do senhorio rural.



Cid Rebelo Horta

Famílias Governamentais de Minas Gerais

em Análise & Conjuntura

v. 1, n. 2, maio/agosto – 1986.

Fundação João Pinheiro. Belo Horizonte.






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