O vento seco vinha da noite inteiramente preta. Na sala de jantar grupos sentados em bancos, contra as paredes, conversavam em voz baixa. No lampião belga que pendia do teto de esteira, a chama crescia no vidro a cada lufada. O casarão parado no meio da sombra. Carmo Peres, abancado na varanda ao lado do amigo, olhava a noite.
— Puxa, que escuridão. “No princípio, era o nada...”
Fernandes se estendera num banco, de olhos cerrados, as mãos sobre o peito de onde brotava um suspiro de vez em quando. Atitude mortuária. O vento vinha dos campos que ninguém via, rascava nos canaviais e milharais apenas pressentidos, dobrava os arbustos diluídos num só uivo que se repetia, sacudia árvores que tinham deixado de existir.
— Por que esta fazenda se chama Grota?
— Nunca procurei saber por quê. Talvez por causa da construção da casa na base da montanha, com um porão aberto na pedra pela escravaria, lá onde estão os tanques de garapa, os alambiques, as tachas de rapadura, uma sujeira antiga conservada até hoje pelo relaxamento. Como tudo aqui.
— Mas você poderia ter dado um jeito nisso. Aconselhado seu pai a respeito de melhoramentos. Mais conforto, maquinismos, aparelhos sanitários.
— Ora, eu quero lá saber de fazenda, Peres... Ah, o ribeirão que passa a um quarto de légua daqui, aquele do pontilhão de concreto da estrada, é o ribeirão da Grota. Uma coisa ou outra explica o nome.
Misturados com o vento, iniciaram-se atrás da casa uivos de cachorros. Verdadeiros gritos de dor, ganidos que foram aumentando, ganhando força de desespero. Cresciam, se extinguiam, voltavam, diminuíam, permaneciam.
— Devem ser os cães de caça de meu pai. Uma cachorrada impossível. Devido à doença, ou à presença de você, estão presos; senão, estavam pelos cômodos, trançando entre as pernas da gente.
— Mas vi alguns cachorros por aí.
— São os menos imprudentes, cães caseiros. Os de caça geralmente são mal educados, exigentes.
— Ahn... Mas que noite, Fernando. Nunca me senti tão isolado no mundo. Isolado do mundo. Isso é mil vezes pior do que a noite num pequeno navio no alto mar. Lá tem pelo menos a trepidação barulhenta das máquinas, atividade humana. Aqui, talvez pelo marasmo, não sei que espécie de desânimo, sentimento de inutilidade... A solidão, o isolamento completo. Imagino toda uma existência aqui! Numa noite assim eu colocaria possantes holofotes nesta varanda, passaria o jato de luz em redor até longe. Pra me certificar constantemente de que a casa não se tinha desgarrado para o infinito... Isto assim impressiona a gente, fora de brincadeira.
O coronel chegou subitamente ao peitoril da varanda, espiando a sombra na direção do terreiro:
— Felisbino, Felisbino diabo!
— Senhor!
— Você esqueceu de dar comida aos cachorros, negro à-toa!
Na escada de pedra os passos descalços quase correndo e Felisbino se revelou à luz do lampião: preto de olhos vivos, pelos vinte anos, sujo e fedorento. O mesmo que, sem camisa, abrira a porteira à chegada. Sem camisa ainda, mas vestindo um velho paletó de casimira, esmolambado, amplíssimo para ele.
— Seu velho enxergou o negro no terreiro. O negro no preto, ou vice-versa. Pra ele não há escuridão absoluta nestas paragens.
— É o treino dos homens envelhecidos longe da luz elétrica: enxergam no escuro, mas não enxergam longe.
— Pretensões, bacharel... Em todo o caso, pros que não têm tal treino, devia existir nesta varanda o holofote.
— Seria interessante... Mas a verdade é que vim encontrá-la morta, como falei. Esse estertor horrível já não é vida. Vida seria conhecimento: se ela me pudesse ver a seu lado, saber que vim logo...
— Mas há verdadeiros milagres, às vezes, contra os dogmas da ciência.
— Não me console com miragens. Estou perdido. Tanta ingratidão com minha mãe... Que é que vai ser de mim?
Os olhos estavam rasos d’água. O médico olhou com espanto aquela teatralidade. Veio um silêncio.
— O uso do cachimbo faz a boca torta.
— Quê?
— Nada, Fernando? Uma coisa em que eu estava pensando. Console-se, meu amigo.
— Que é que hei-de fazer senão me consolar... Estou me lembrando agora é de Orminda e do guri.
O lampião se apagou a uma lufada mais forte. Já nem mesmo a casa existia. Carmo Peres teve um arrepio que o tomou sem tempo para um controle psíquico. Aliás, a escuridão trouxe um silêncio tal que era iminente... Sem atingir o fim de seu pensamento, definir sua impressão, o médico somente se perguntou absurdamente por que não reagiam, apesar da rapidez do instante, ameaça, perigo, sombra... Esticou o braço para tocar no amigo, desencruzou as pernas para tocar com as plantas de ambos os pés as tábuas que sabia grossas e seculares. Seria mesmo? Seria o quê? Ia dizer alto: Fernando, você está aí? Mas o instante foi curto, bem menos de um minuto, e a voz do fazendeiro reboou lá dentro:
— Felisbino, Felisbino diabo!
— Jesus! — exclamou outra voz, de mulher, num esforço dentro da sombra, quase num gemido.
Reaceso o lampião pelo preto, Peres, humilhado, se ergueu para fechar a porta que ficava em frente da chama; a varanda continuaria iluminada pelas janelas. O coronel o deteve com um gesto imperativo:
— Deixe a porta, doutor. Faz favor de vir cá. A alma...
— Que besteira, meu pai.
— Meu filho, você bem sabe que não é besteira. Que tem mais de cem anos que é assim... Mas, se o doutor não acredita, venha ver: a alma do meu bisavô Francisco.
Quem conheci naquele março foi um bando de militantes barbudos e charmosos, como Fernando Grossi, Murilo Valadares, Ricardo Ribeiro, Reinaldo Maia Muniz, Jânio Bragança, Lúcio Vaz Sampaio. Murilo eu havia conhecido primeiro de vista, quando ele preparava o show da calourada que eles, do DCE, estavam organizando para nós. Seria com o Gonzaguinha, então fui com a comissão de comunicação entrevistar o artista para sair em boletim ou jornal do qual não tenho qualquer registro. O Gonzaguinha nos recebeu nas arquibancadas do ginásio do Minas Tênis Clube, onde seria o show, e nos deu uma entrevista mal humorada, como era de seu feitio. Naquele dia, vi de longe o Murilo dando ordens, pegando no pesado, organizando tudo, e tive a impressão de que ali estava um verdadeiro Fidel Castro — com tudo de positivo que isto significava em termos de liderança. Eu não estava errada.
Meu primeiro contato com entidade estudantil propriamente foi com o Centro de Estudos do Básico, mas no mesmo ano entrei para a chapa da Liberdade para o DA Fafich, legendária entidade estudantil que vinha da tradição dos anos 60 e que sempre resistiu, mesmo nos momentos mais negros da vida nacional. A entidade nunca foi desativada, embora tenha sido proibida, junto com todos os DAs e DCEs desde 64. Fiz parte de sua diretoria duas gestões seguidas. A história de luta do DA Fafich remontava ao terreno histórico dos militantes da esquerda católica, a antiga Ação Popular oriunda dos movimentos JEC, JOC, JUC (Juventudes Estudantil, Operária e Universitária Católica). AP se transformou em APML (Ação Popular Marxista-Leninista) e tinha como fachada não legal, mas visível, em Minas, a tendência estudantil Liberdade. Em São Paulo nos chamávamos Refazendo, e em cada lugar tínhamos outros nomes. Quando conheci a face clandestina da organização — ou “O”, como a chamávamos —, ela atuava em conjunto com o MR-8, que ainda não tinha descambado para um caminho que o aproximou de uma postura meio fascista nos anos seguintes.
Em 78, AP e MR-8 (Ana Paula e Maria Rita, como as chamávamos), sob a fachada de Liberdade, estava à frente do DCE-UFMG havia dois mandatos. Em 78 e 79 ganhamos o DA Fafich e perdemos o DCE-UFMG. Em 79, em compensação, ganhamos a UEE (União Estadual dos Estudantes), numa aliança com o PC do B e outros, e a UNE (União Nacional dos Estudantes), na primeira diretoria eleita depois da reconstrução, no memorável congresso de Salvador, no qual tive a sorte de estar presente. Só que, numa piada de muito mau gosto, ganhamos a UNE mas os nossos representantes na diretoria debandaram para o MR-8 na hora da separação das duas “Os”, de modo que ganhamos mas não levamos.
Clara Arreguy em Fafich col. BH. A Cidade de Cada Um. Conceito. Belo Horizonte. 2008.
Vejam como o nosso professor Abdias reagiu ao uísque da adega do dr. Azevedo. Volta para casa tarde e, encontrando a mulher a dormir, desliza, sorrateiro, para o escritório, onde já nem percebe o frio, e se põe a escrever de irreais amadas... Por pouco nos sai com uma teoria platonizante acerca do amor!
Se mestre Kant, o mais austero dos filósofos, tomasse, de vez em quando, o seu pileque... Bem, não digamos tolices. Vamos ao relato do que houve em casa de Gabriela e que foi omitido, com a digressão de ontem.
Tudo se passou sem maiores complicações. Os Ataídes de Azevedo são, na verdade, encantadores e cedo venceram as reservas com que entrei na casa. Gabriela havia-me enganado, fazendo crer que se tratava de um chá na intimidade, para que seus pais me conhecessem. Houve, com efeito, o chá, mas o programa foi além.
Fazia anos ontem (dezessete, contou-me o Dr. Azevedo) e quis associar-me à sua pequena festa.
Supôs que a reunião da noite, que seria mais ruidosa, pudesse não me agradar — explicou — e por isso lembrou-se do chá. Também teria sido difícil apanhar o Dr. Azevedo em casa, àquela hora, noutro dia que não fosse o do aniversário dela. Durante a semana, está sempre na sua Clínica, pela tarde, e os domingos passa-os no Country Club ou num sítio que possui na Pampulha, nas proximidades da represa que a Prefeitura está construindo.
Mas, com a ajuda da bebida e a sem-cerimônia com que às vezes me conduzo, vencida a desconfiança inicial, fiquei não só para o chá, como também para o jantar e até para a reunião da noite. É verdade que, fazendo-o, apenas cedi a instâncias do Dr. Azevedo, que verifiquei ser excelente companheiro, e de Glória, que teve prazer em recordar os tempos passados em Várzea dos Buritis.
Desde que cheguei, feitas as apresentações, a conversa orientou-se, animada, para esses velhos tempos.
Daí a pouco, tratavam-me como antigo amigo da casa, e o Dr. Azevedo — com protestos de Glória, que será, como todas as mulheres, um tanto formalista, mas com aplausos de Gabriela, que acha graça no pai — falou-me que esse negócio de chá era mais adequado às damas e o melhor era passarmos ao seu gabinete de música, onde nos aguardavam alguns discos e uma garrafa de velho uísque.
De madrugada, todo o mundo acordou cedo demais, a Maria Pretinha tinha fugido. A Rosa relatava e xingava: — “Foi o vaqueiro Jé que seduziu, corjo desgramado! Sempre eu disse que ela era do rabo quente... Levou a negrinha a cavalo, decerto devem de estar longe, ninguém não pega mais!” O cavalo do vaqueiro Jé se chamava Assombra-Vaca. O vaqueiro Jé era branco, sardal, branquelo. Como é que foi namorar completo com a Maria Pretinha? A Rosa também era branca, mas era gorda e meia-velha, não namorava com ninguém. Quando a Rosa brabeava, desse jeito assim, Papaco-o-Paco também desatinava. Aquilo ele gritava só numa fúria: — “Eu não bebo mais cachaça, não gosto de promotor! Filho-da-mãe é você! É você, ouviu!? É você!...”
O Dito não devia de ter ido de manhãzinha, no nascer do sol, espiar a coruja em casa dela, na subida para a Laje da Ventação. Miguilim não quis ir. Era uma coruja pequena, coruja-batuqueira, que não faz ninhos, botava os ovos num cupim velho, e gosta de ficar na porta — no buraco do cupim — quando a gente vinha ela dava um grito feio — um barulho de chiata: “Cuíc-cc’-kikikik!...” e entrava no buraco; por perto, só se viam as cascas dos besouros comidos, ossos de cobra, porcaria. E ninguém não gostava de passar ali, que é perigoso: por ter espinho de cobra, com os venenos.
O Dito contou que a coruja eram duas, que estavam carregando bosta de vaca para dentro do buraco, e que rodavam as cabeças p’ra espiar pra ele, diziam: “Dito! Dito!” Miguilim se assustava: — “Dito, você não devia de ter ido! Não vai mais lá não, Dito.” Mas o Dito falou que não tinha ido para ver a coruja, mas porque sabia do lugar onde o vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha sempre em escondido se encontravam. — “Que é que tinha lá, então, Dito?” — “Nada não. Só tinha a sombra da árvore grande e o capim do campo por debaixo.”
Mas no meio do dia, o mico-estrela fugiu, correu arrepulando pelas moitas de carqueja, trepou no cajueiro, pois antes de trepar ainda caçou maldade de correr atrás da perua, queria puxar o rabo dela. Todo o mundo perseguiu ligeiro pra pegar, a cachorrada latindo, Vovó Izidra gritava que os meninos estavam severgonhados, Mãe gritava que a gente esperasse, que a Rosa sozinha pegava, Drelina gritava que deixassem o bichinho sonhim ganhar a liberdade do mato que era dele, o Papaco-o-Paco gritava: “Mãe, olha a Chica me beliscando! Ai, ai, ai, Pai, a Chica puxou meu cabelo!...” — era copiadinho o choro de Tomezinho. A gente tinha de fazer diligência, se não já estava em tempo d’os cachorros espatifarem o pobre do mico. Não se pegou: ele mesmo, sozinho por si, quis voltar para a cabacinha. Mas foi aí que o Dito pisou sem ver num caco de pote, cortou o pé: na cova-do-pé, um talho enorme, descia de um lado, cortava por baixo, subia da outra banda.
— “Meu-deus-do-céu, Dito!” Miguilim ficava tonta de ver tanto sangue. “— Chama Mãe! Chama Mãe!” — o Dito pedia. A Rosa carregou o Dito, lavaram o pé dele na bacia, a água ficava vermelha só sangue, Vovó Izidra espremia no corte talo de bálsamo da horta, depois puderam amarrar um pano em cima de outro, muitos panos, apertados; ainda a gente sossegou, todo o mundo bebeu um gole d’água, que a Rosa trouxe, beberam num copo. O Dito pediu para não ficar na cama, armaram a rede para ele no alpendre.
Dessa época, guardo duas lembranças. A primeira, de JK na varanda da casa onde residia sua mãe, respondendo, com um leve aceno de mão, aos cumprimentos das pessoas que passavam na calçada da Avenida Getúlio Vargas, em direção à praça. E o seu rosto se abrindo em um grande sorriso quando a criançada gritava: “— Boa noite, governador; — boa noite, Dona Júlia”. A segunda, uma atitude dramática que tomei para não perder minha diversão predileta. Na minha casa, a ida ao Cine Grátis deveria ser sempre acompanhada de uma pessoa adulta. Por isso, nas manhãs de segunda-feira, minha irmã Goia e eu já começávamos a procurar quem nos levaria. Um dia, deu “zebra”. Ninguém disponível, nem meus pais, nem as empregadas. Depois do jantar, um pedido choroso para ir com duas amigas e o irmão mais velho de uma delas caiu no vazio. Decidida a ganhar essa batalha de qualquer jeito, fui para a cozinha e, de posse de uma faca, ameacei suicidar-me. Moral da história: não fui ao Cine Grátis, ganhei bons beliscões de minha mãe e forneci mais um caso sobre os atos impensados de uma menina, ora com seis anos, cada vez mais fascinada pelo que descobria através do cinema. Uma fábrica de sonhos e aventuras, de conhecimentos e emoções.
Para viver intensamente os filmes, o melhor mesmo era assistir a eles em uma sala de cinema de verdade, no centro da cidade ou nos bairros. Todas tinham o mesmo ritual: a sala escurecendo ao som de uma envolvente melodia, e uma pesada cortina se abrindo para que a tela branca no centro do palco recebesse o feixe de luz que dominava o olhar do espectador durante duas horas. Mas cada cinema tinha sua música. A do Pathé era A Lenda da Montanha de Cristal; a do Metrópole, Folhas Mortas; e a do Acaiaca, O Despertar da Montanha.
Eu não me lembro do dia em que entrei pela primeira vez no Cine Pathé. Devo ter começado a freqüentá-lo em 1950, na superlotada matinê Mickey de domingo — que exibia desenhos animados de Walt Disney e Hanna & Barbera, comédias do Gordo e o Magro, dos Três Patetas, de Abbot & Costello, entre outros.
Mas ao procurar na minha memória, nos livros e jornais, datas e fatos importantes que aconteceram no Pathé, posso afirmar que eu estava lá, na matinê do dia 2 de julho, assistindo a O Jardim Encantado, com Margaret O’Brien, que tentava ser a Shirley Temple da minha geração. O filme, em preto-e-branco, conta a tradicional história de uma orfãzinha que foi viver em um castelo na Inglaterra, com um tio rico e mal-humorado. Com a ajuda do filho do caseiro ela descobre um primo doente e um jardim secreto. Por causa da cena final, nunca me esqueci desse filme. Margaret O’Brien abre o portão e o jardim é colorido. Um momento mágico.
Dos primeiros filmes “sérios” a que assisti, o mais impactante foi O Menino dos Cabelos Verdes. Dean Stockwell é Peter Fry, um órfão de guerra que mora com o tio bonachão em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Um dia, misteriosamente, seus cabelos ficam verdes e isso provoca uma reviravolta em sua vida. Uma história sobre a reação preconceituosa das pessoas diante de algo diferente. Uma fábula contra a intolerância que levou seu diretor, Joseph Losey, a ser perseguido pelo macarthismo. A cena de Peter na cadeira do barbeiro olhando através do espelho a máquina tosar seus belos cabelos verdes ficou gravada para sempre na minha memória.
Quatro Destinos foi outro filme marcante da minha infância. Baseado no famoso romance de Louisa May Alcott, “As Mulherzinhas”, conta a história das irmãs March — a romântica Meg (Janet Leigh), a corajosa Jô (June Allyson), a fútil Amy (Elizabeth Taylor) e a generosa Beth (Margareth O’Brien) — na Nova Inglaterra, durante a Guerra Civil. Um filme que mexe com as emoções do público ao mostrar de forma sensível e delicada como essas jovens lidam com as mudanças que vão acontecendo em suas vidas, com o amor, com a morte. Das quatro irmãs, minha predileta sempre foi a Jô, a mais independente. Mas foi por causa da Amy que andei colocando pregador de roupa no nariz para torná-lo mais fino. Sonhava com o perfil da Elizabeth Taylor.
Uma menina e seu cachorro, um leão, um espantalho e um homem de lata são os personagens de O Mágico de Oz, um filme a que assisti dois dias seguidos. Eu queria ser Dorothy (Judy Garland) com seus sapatos vermelhinhos, com seus sonhos cantados, suas aventuras com amigos bem diferentes em busca da terra encantada onde não existiam problemas, onde as crianças eram ouvidas. Uma fábula que nos mostra o bem e o mal, que nos ensina lições de amor, de bravura e de lealdade. A entrada de Dorothy no reino de Oz é um dos momentos memoráveis do cinema, quando a cena em preto-e-branco- desaparece sob o brilhante colorido do arco-íris.
Celina Albano em Cine Pathé col. BH. A Cidade de Cada Um. Conceito. Belo Horizonte. 2008.
A freguezia do Santissimo Sacramento de Taquarussú foi creada pelo § 9º do art. 1º da lei provincial n. 209 de 1841. Dista da sede do termo 5 ½ legoas, da capital da provincia pela estrada de Matto Dentro16, e pelo alto do Pires 11. Tem de norte a sul 9 legoas e de leste a oeste 4, e confina com as freguezias de Roças-Novas pelo Rio Preto e Morro, entre as fazendas do Mello e finado Antonio José da Costa Guimarães; com a da Lapa pelo campo de S. Antonio; com a de Santa Luzia pelo Rio Vermelho; com a da Lagoa-Santa pelo Rio das Velhas e estrada antiga do Serro; com a de Jaboticatubas pela estrada que dividia antigamente os dous districtos do Rapozo e Taquarussú e com as da cidade da Conceição e freguezia do Morro do Pillar pelo Rio Sapé. Está situada na margem do Rio das Velhas. Sua população orça por 5,100, dá 425 votantes e 9 eleitores.
Esse local, a Lagoa do Sumidouro, deveria ter um tratamento especial. Ela foi palco de uma descoberta de grande importância histórica e científica. O estado atual da lagoa, do paredão em cuja base escoa a água e do entorno é lamentável. A lâmina de água foi cortada por um aterro, para se fazer uma estrada, o entorno recebe detritos em grande quantidade e o paredão é alvo constante de pichações que conseguiram estragar uma série de pinturas que testemunham o homem primitivo. A Lagoa do Sumidouro é um monumento ao descaso e ao abandono de um patrimônio cultural. Ainda bem que está protegida pela lei...
Pelo escrito anteriormente, deduz-se que o Rio das Velhas foi a causa principal da existência de fósseis nas grutas da região de Lagoa Santa. Sem a ação das águas haveria nas grutas, no máximo, pequenos mamíferos troglófilos (que podem refugiar-se ou habitar em grutas como os morcegos e roedores), os depositados por corujas e os raros que penetrassem acidentalmente nelas. Mas nunca na quantidade que Lund encontrou.
Após dez anos de pesquisas, o notável sábio abandonou seu trabalho de paleontólogo. Dificuldades econômicas, revoluções do período colonial, que tornaram perigoso o trabalho de campo, os achados repetitivos que pouca novidade lhe traziam, o medo do erro, uma vez que era difícil receber publicações novas na solidão de Lagoa Santa, as novas tendências da Biologia e as descobertas que fizera na Lagoa do Sumidouro, que esvaziaram seu paradigma científico, fizeram com que optasse por uma aposentadoria paleontológica. Preparou sua coleção e enviou-a para sua distante pátria onde está depositada no Museu de Zoologia da Universidade de Copenhague.
Por meio do material fóssil, coletado por ele, ou por outros pesquisadores, foram determinadas cerca de cento e trinta espécies que ainda sobrevivem e trinta extintas no vale do Rio das Velhas, o qual, por séculos, foi depositando no interior de numerosas grutas excepcional amostragem da vida do passado que Lund recolheu. Ele foi, na verdade, o cientista que resgatou o que as águas arquivaram. Mais uma que devemos ao Rio das Velhas e a seus afluentes.
Cástor Cartelle
Lund, o coletor do passado
em Navegando o Rio das Velhas das Minas aos Gerais
volume 2: Estudos sobre a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas
org. por Eugênio Marcos Andrade Goulart
Projeto Manuelzão – Faculdade de Medicina da UFMG.
A política colonial portuguesa amparava-se numa delicada obra de engenharia social em que a mestiçagem cultural lastreava a estabilidade do sistema, inserindo no caso brasileiro elementos da sociabilidade asiática que não passaram despercebidos a Burton. Ele não deixaria de encantar-se com a cálida acolhida que lhe prodigalizou uma senhora mineira que habitava nas margens do Velhas, a qual orientalmente (...) sentou-se sobre as pernas enrodilhadas à beira da cama à moda da Índia, mas sua extrema capacidade de comunicação e o gosto pelo que chamamos palração, substitui a graça da postura. E logo em seguida, malgrado a evidente indianidade do modo de sentar de sua anfitriã, Burton, surpreso pela oportunidade que teve de um contato social com mulher de família, justificou essa exceção dizendo que a (...) reserva semi-oriental e portuguesa começa a desfazer-se à medida que penetramos no interior. E se assim se comportavam as pessoas do sexo feminino em sua vida íntima, também os machos brasileiros da beira do Velhas, toscos proprietários de terras das barrancas do rio, iniciavam o seu dia de trabalho com um ritual observável em toda a região do Oriente Médio Islâmico pois, segundo Burton, (...) a vida do fazendeiro é fácil de contar-se. Levanta-se de madrugada. O seu escravo-aio lhe traz o café e um jarro de sólida prata. Esse costume é ainda conservado na Turquia, Egito e Pérsia. No Rio das Velhas o metal é preferível a qualquer outro material, pois os negros quebram tudo que pegam.
E se a vida dos brasileiros da elite era assim dominada por uma liturgia social de matiz asiático, também a classe popular não estaria infensa aos orientalismos que impregnavam o dia-a-dia da América Portuguesa. Referindo-se à tripulação do barco em que navegava no Rio das Velhas, Burton, observando o gosto que seus marujos tinham pela música e instrumentos musicais, disse que (...) gostam também da bandurra, ou pequena viola, espécie de guitarra de cordas metálicas e do marimbau, harpa judia (“jew’s harp”) ou antes “jaw’s harp”. O nome é visivelmente português de Angola. Tenha-se em vista, entrementes, que se o berimbau é angolano e portanto africano, o explorador britânico acuradamente empresta àquele instrumento uma filiação judia e, assim, semita como os árabes. Está pago aí, desta forma, o tributo prestado pelo berimbau ao asiatismo da vida brasileira.
A vida econômica brasileira, na região do Rio das Velhas, também foi surpreendida por Burton como estando permeada por variegados traços do Oriente. Enquanto navegava de Santa Luzia à Jaguara, o inglês avistou a fazenda da Carreira Comprida, da família Fonseca, a qual produzia provisões e “restilo”, como era chamada uma aguardente de alto teor alcoólico. O nosso aventureiro, fixando o seu olhar na maquinaria em movimento, observou que (...) o engenho fica numa elevação junto ao rio, com a face para o sudeste. Estava funcionando quando por lá passamos, e a música do maquinismo trouxe-me à lembrança agradáveis recordações de certas rodas-d’água no Sindh, Egito e Arábia. Nessas terras do futuro qualquer lembrança do passado é um dom inesperado.
Paulo Roberto Azevedo Varejão e Alice Conceição Christófaro A Expedição de Richard Burton Em Navegando o Rio das Velhas das minas aos gerais vol. 2: Estudos sobre a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas organizado por Eugênio Marcos Andrade Goulart Instituto Guaicuy-SOS Rio das Velhas / Projeto Manuelzão / Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte. 2005.
A palavra campo — campus — traduz bem a nossa expressão prairie. Não significa, porém, uma planura elevada, de formação semelhante à dos mares de grama do Orenoco, mas enfadonhas estepes da Tartária ou das grandes planuras russas e polonesas — fundos secos de lagos ou pântanos; nem tampouco apresenta paralelo com os planaltos ondulados do Kansas ou dos territórios transmississipianos. No Brasil oriental é uma superfície com colinas arredondadas, entre 300 e 600 pés de altura, geralmente d enível desigual e dispostas sem regularidade, e não em linha ou em ondas gigantescas, como as vastass elevações dos mares da África do Sul. Cada elevação é separada da vizinha por uma grota ou vale, profundo ou raso, que, muitas vezes, pode ter sido um lago. Esses vales são em geral cobertos de florestas e, durante as chuvas, ficam cheios de lama ou de correntes de água. Na província de são Paulo, o alto dos mosntículos tem um perfil mais baixo e às vezes assemelha-se a uma planície, enquanto que em Minas, exceto nas fronteiras, raramente esses cimos possuem extensão suficiente para localização de uma cidade. os declives dos montes e dos pouco profundos vales alternam-se progressiva e ininterruptamente através da província do Paraná e atingem seus máximos nos pampas e llanos, as despidas e pobres landes do sul.
Os campos formam a terceira região desta parte do Brasil, seguindo-se na direção ocidental, à Serra Marítima e à beira-mar, ou região costeira. É constituída por um plateau sedimentar e estratificado de 2.000 a 2.500 pés de altura, atingindo a leste, ou na direção do mar, a grande cadeia plutônica e não estratificada que tem cerca de 3.000 e 4.000 pés. Gardner encontrou em um ponto da Serra dos Órgãos 7.800 pés de altura. Assim, nessa região do Brasil, como em Zanzibar, na África, a linha das cumeeiras não fica no inteior, mas próxima à costa. Além disso, as montanhas não atingem grandes altitudes, como na Grécia (8.250 pés). Entramos agora nas vastas formações de itacolomitos e itabiritos que caracterizam as cadeias de montanhas do interior e que se estendem, com intervalos, até os Andes. O solo é composto de rochas hipogêneas cristalinas, granitos e sienitos que, em raros lugares se arqueiam e se revelam, em geral, onde os leitos dos grande srios cortaram os depósitos superiores. Assim, para não citar outros exemplos, no vale do Nilo, com 400 milhas de comprimento por doze de largura, o granito abre caminho até as cataratas através do calcário e da areia; no Uniamwesi encontrei enormes afloramentos de rochas plutônicas rompendo através das netunianas. O Sr. Chaillu (2ª expedição, cap. XV, p. 292) descreve fenômeno semelhante em Mokenga, na ilha Ishogo, a cerca de 150 milhas em linha reta da costa africana ocidental.
Colocadas ora em plena conformação, ora em desconformidade sobre esta base ondulante, as rochas cristalinas e estratificadas, quer no interior,quer na costa, ficam, como as fendas naturais e os cortes artificiais o provam, sobre o leito de seixos, principalmente de quartzo, ora rolado pela água, ora agudo ou anguloso, dispostas em nível ou em camadas onduladas, como que depositadas por águas serenas, ou por força do gelo. Superjacente, de novo, está a profunda e rica camada de barro, que faz do Brasil, como a África, uma terra de Ofir — terra vermelha, cor de ocre, altamente ferruginosa, homogênea e quase não estratificada, outrora uma massa de areia e argila, com seixos e rochedos espalhados indiscriminadamente sobre o depósito. A superfície é silicosa e argilosa, pobre e amarela, parca de húmus e com pouco quartzo espalhado e pedras de areia, geralmente contendo ferro.
Esta formação felizmente a livra das terríveis tempestades de areia da Ásia e da África.
A primeira vista desses campos trouxe-me fortemente à lembrança Ugogo, na África oriental, região árida e plana, privada de chuva pela interposição das úmidas montanhas de Usagara. A analogia com a formação elevada da África interior apresentou-se-me naturalmente. A principal diferença está em que, segundo se percebe por uma rápida vista de olhos em qualquer mapa, a vasta região lacustre do continente africano está mal representada no americano. O declive drenador da América do Sul é mais regular e suas “bacias continentais” não encontram nenhuma frincha na rocha como o leito do Tanganica, nem vastas concavidades como as do vitória-Nianza. Assim, as principais artérias encontram, nesta época do mundo, caminho franco para o oceano. A América do Sul, pois, cujas montanhas e rios igualam, ou mesmo excedem todos os demais continentes, não tem lagos, enquanto que a América do Norte e a África, com os seus mares interiores e Nianzas têm, comparativamente, pequenas cordilheiras.O lago, nesta terra, torna-se pantanal freqüentemente, como xaraies e uberaas, meros alargamentos de grandes rios, lençóis tranqüilos e pouco profundos em que bosques submersos e florestas afogadas formam festões de verdura; em que pequenas extensões secas, como os pequenos prados, nos escuros mares da selva africana, mostram encantadores campos, semeados de flores, ostentando a palmeira e a magnólia; em que ilhas flutuantes estão ligadas por liames intransponíveis de plantas aquáticas e semi-aquáticas, pontidérias e poligônias, malváceas, convolvuláceas, portulárias, sacchara altas e o arroz conhecido como arroz-do-pantanal (Oriza paraguayensis).” Esses pântanos sustentam considerável população de canoeiros e têm sido cantados pelos poetas do Brasil. Constituem um traço característico das regiões centrais da América do Sul.
Cedinho, madrugada escura ainda, quando João Soares acordou o deputado. Noite maldormida: chegara tarde do rio — meia-noite e tanto — e a venda não se esvaziara de todo. A pobre da Ambrosina continuava na cozinha a coar e servir café, e ainda teve de retalhar e temperar o peixe que o Gerôncio inventara de trazer. No tabuado da balsa, o balseiro sangrara-o e limpara-lhe o fato — um mundo de sangueira e porcariada — mas, mesmo assim, o Gerôncio chegou arcado à venda, com o bicho às costas. E Paulo teve de contar a história toda, a luta com o surubim, o upa até dar com ele na canoa, o isto de piranha que ajuntou... Dois metros de comprido e bem de três arrobas, o animalão!
Moído embora de canseira e sono, o deputado levantou-se. Gerôncio já esperava com a balsa pronta para a travessia:
— Desça com cuidado, doutor. A rampa virou quiabo.
Paulo dirigia a camioneta com cuidado, pé nos freios. Mas para baixo os santos ajudavam. E embarcou sem dificuldades.
— Anda um chuvão brabo pelos lados da Brejaúva. Olhe o rio, Gerôncio: pura terra massapé, da roxa... — disse o João Soares.
Gerôncio não deixou passar a deixa:
— É mesmo, o barro vem de lá. E mandou a marca na frente, que já rodou imundícia de folha de bacuri...
Retirados os pranchões de embarque e soltas as correntes, Gerôncio regulava o cabresto. Os varejões, agora, ajudando o desatracar; e a carretilha começou a cantiga no cabo de aço.
— Nada burro, não, o sujeito que inventou a balsa — proseava o Aurélio. — Dois canoões, tabuado por cima, cabo de aço e boa carretilha...
— Engraçado — começou Paulo — até hoje não entendi direito como é que isto funciona. Sei que é só pela força da água. Mas o resto...
— Pois é uma simplicidade, Paulo — aproveitou o tio. — Tudo por causa deste jeito meio torto das canoas: a correnteza vem, esbarra nelas, e força a balsa a andar de lado que nem caranguejo... O cabo de aço e a carretilha fazem o resto...
— E para voltar?
— A mesma coisa: vira-se a posição das canoas, o cabresto agora do outro lado. A correnteza, em vez de bater do lado de cá, passa a fazer força do outro. O empuxo da água é o mesmo; só o entortado da balsa é que muda...
— Parece até invenção do Toteiro... Já lhe contei essa, tio Aurélio?
— Qual? A da roda-d’água emendada com pilão de monjolo?
— Não, a das capivaras... O Toteiro, João Soares, é um amigão nosso, morador na beira do Paranaíba, nas divisas com Goiás. Já pesquei muito no Canal de São Simão, e o Toteiro ia sempre comigo — bom pescador e melhor caçador ainda. Faz tempo, encontrei-me com ele em Amburana e ficamos horas conversando, relembrando as nossas pescarias. E me contou a tal história das capivaras: que tinha comprado umas terras do outro lado do rio... que resolvera tocar lavoura... etc., etc. — “Já andava cansado, Dr. Paulo, de atravessar o rio de canoa, no puro remo. O senhor sabe, o Paranaíba, lá onde eu moro, é espraiado, com quase meio quilômetro de barranco a barranco. Gente para levar e trazer todo o dia, um tal de carrega-e-traz que eu não agüentava. Aí foi que eu imaginei: eu tinha no chiqueiro uma capivara nova, das goianas, apanhada no mundéu; era só arranjar uma das mineiras... Não demorou nem dois dias e eu já estava com a bicha caída no laço. As duas ainda estão lá, no serviço, para quem duvidar. Quando eu vou para Goiás, encabresto a capivara goiana na proa do canoão e boto a mineira dentro: é um nadado só, de ponta a ponta, melhor que muita besta marchadeira... Para voltar, destroco: boto a mineira no cambão e embarco a goiana.” E o Toteiro explicou: — “Querência de capivara, doutor, é querência braba, mais forte que querência de boi pantaneiro...”
Mário Palmério em Vila dos Confins José Olympio. Rio de Janeiro. 2ª edição. 1957.
É preciso falar de Mariana, a mais antiga cidade mineira. Foi lá que nasceu, em 1916, o herói desta história. Um herói discreto e alegre, que fez de sua vida um permanente exercício de sobriedade, gentileza, caráter e coragem para arrostar dificuldades, que foram muitas. O herói desta história, Amadeu Rossi Cocco, livreiro e grande cidadão, tem dado à nossa cidade, por longos anos, permanentes provas de sua generosa dedicação.
Sede de bispado, e por isto cidade, Mariana mereceu das autoridades tratamento especial no referente a seu traçado, à sua estrutura urbanística. Se o que prevaleceu sempre em Minas Geais fora a dinâmica espontânea, que caracterizava a tradição colonial portuguesa, Mariana foi objeto de plano, de intenção ordenadora, seja no referente à praça principal, seja no que diz respeito ao arruamento, que se organizou a partir dessa praça. Mariana, nesse sentido, em sua forma urbanística, assemelhou-se ao que era típico da tradição espanhola, que buscou fazer de suas cidades na América um permanente espelhamento das lições de Vitrúvio e o rigor de uma geometria exata. Disse Sérgio Buarque de Holanda — “Já à primeira vista, o próprio traçado dos centros urbanos na América Espanhola denuncia o esforço determinado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato definido da vontade humana. As ruas não se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo, impõem-lhe antes o acento voluntário da linha reta” — como “triunfo da aspiração de ordenar e dominar o mundo conquistado” (Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 6ª ed., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1977, p. 62).
Em 1745 criou-se o bispado de Mariana. Esse fato, a dignidade episcopal, exigiu que a vila fosse ascendida à condição de cidade. Em 1748, chegou a Mariana o seu primeiro bispo, Dom Frei Manoel da Cruz, transferido de São Luís do Maranhão. Sua chegada foi motivo de um extraordinário espetáculo com comemorações e festejos públicos, religiosos e profanos. Diz Affonso Ávila — “A partir de 28 de novembro de 1748, iniciam-se festas que se estenderão até o decorrer do mês de dezembro, entre procissões, desfiles alegóricos, jogos de iluminação, missas solenes, encenações teatrais e oralizações poéticas, num misto espetaculoso de ritual católico, comprazimento intelectual e divertimento público” (Affonso Ávila, Resíduos Seiscentistas em Minas, vol. 1, Belo Horizonte, Centro de Estudos Mineiros, Universidade Federal de Minas Gerais, 1967, p. 29). É o Triunfo Eucarístico, uma das mais extraordinárias manifestações culturais da capitania de Minas Gerais, que na multiplicidade de suas vozes, de suas cores, de suas motivações deu mostras de uma sociedade enérgica e vibrante, em que a “civilização do ouro”, em seus inícios, pareceu confirmar os sonhos de restauração da grandeza do império português.
Esta população, assim variável, heterogênea e irrequieta, teria que determinar uma sociedade também pouco estável, e “bem se pode considerar o estado em que se achavam as Minas por todo este tempo, em que só o despotismo e a liberdade dos facinorosos, punham e renovavam as leis a seu arbítrio. O interesse regia as ações, e só se cuidava em avultar em riquezas, sem se consultarem os meios proporcionados a uma aquisição inocente: a soberba, a lascívia, a ambição, o orgulho e o atrevimento tinham chegado ao último ponto”.
É tamanha a desordem, que fere o senso moral do jesuíta Antonil, a ponto de anatematizar que “nem há pessoa prudente que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas Minas tanto ouro para castigar com ele ao Brasil”.
De 1710 a 1720, por exemplo, as sedições são quase contínuas na região, a começar pela dos paulistas e emboabas, a que se sucedem a de 1712 em Vila do Carmo, com a expulsão do Desembargador Antônio da Cunha Soto Maior; a de 1715, na mesma Vila, com a fuga do Ouvidor, quase assassinado, D. Manuel da Costa Amorim; a de 1716, do Morro Vermelho; a de 1719, felizmente frustrada, dos escravos, e finalmente, a de 1720, com Filipe dos Santos, que também repercute em Pitangui.
Não é sem custo que os governadores, mesmo dispondo de tropa armada, conseguem firmar sua autoridade, por vezes vendo-a ofendida e só resguardada a custo de negaças e circunlóquios, como na revolta de 1720, e de enérgicos castigos, como em 1789.
Prendem-se as autoridades, menoscabam-se as leis, só se acalmando o povo com promessas de perdão e de anulação das ordens a que não se desejava sujeitar. Mesmo no Império os ânimos se mantêm exaltados e, em 1833, por exemplo, Bernardo de Vasconcelos, na vice-presidência da Província, é expulso da comarca, só pela força armada conseguindo restabelecer a ordem legal que pouco depois, em 1842, novamente se perturbaria com as lutas entre os conservadores e liberais.
“Das Minas e seus moradores bastava dizer o que dos do Ponto Euxino, e da mesma região afirma Tertuliano: que é habitada de gente intratável, sem domicílio, e ainda que está em contínuo movimento, é menos inconstante, que os seus costumes: os dias nunca amanhecem serenos: o ar é um nublado perpétuo: tudo é frio naquele país, menos o vício, que está ardendo sempre. Eu, contudo, reparando com mais atenção na antiga e continuada sucessão de perturbações, que nela se vêem, acrescentando que a terra parece que evapora tumultos: a água exala motins: o ouro toca desaforos: distilam liberdades os ares: vomitam insolências as nuvens: influem desordens os astros: o clima é tumba da paz e berço da rebelião: a natureza anda inquieta consigo, e amotinada lá por dentro, é como no inferno.” (Conde de Assumar, Discurso Histórico e Político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720.)
Com esta barbaria tão cruamente evidenciada, procuram os governantes justificar as violentas repressões, sem exemplo na história pátria, a que, por vezes, se animam, como o esquartejamento dos réus e subseqüente exposição de seus membros pelos caminhos (Contribuindo para o sossego público, acordam os vereadores em 1720 “mandar tomar por lista todas as pessoas desta Vila para elegerem 12 homens em cada bairro a saber: Ouro Preto, Antônio Dias e Padre Faria, para andarem de ronda todas as noites por estas ditas Vilas a sossegar qualquer inquietação que suceder”, rondas que seriam comandadas por cabos também escolhidos dentre os moradores pela Câmara).
A escravatura intensíssima com todas as características das raças de que se compõe, também influiria na formação da sociedade local, aumentando suas tendências desordeiras ou supersticiosas e contribuindo, em grande parte, para a sua singular constituição.
Habitando vales profundos, entre abrutas montanhas, dominado pela natureza, teria o mineiro que tornar-se melancólico, triste e introvertido, ao contrário do homem das planícies ou do litoral, senhor de largos e submissos horizontes (João Camilo de Oliveira Torres, O Homem e a Montanha). Explicam-se assim as várias lendas de que se pontilha a história local e as contraditórias reações emocionais, apaixonadas ou submissas, prontas ou retardadas da gente mineira. Das festas a que concorria, aliás mais como espectador que participante, citam-se as comemorativas de datas jubilares, organizadas pela administração, quase impostas ao povo (casamento de príncipes; nascimento deles), e as religiosas, sem dúvida, mais freqüentes e assistidas mais espontaneamente. Saint-Hilaire e Caldecleugh comparecem a bailes em Palácio, escandalizando-se, o primeiro, com as demonstrações coreográficas de dançarinas populares (referindo-se ao “fandango”), saraus que, vez por outra, se repetiam nas residências particulares.
Sylvio de Vasconcellos Vila Rica formação e desenvolvimento – residências Biblioteca de Divulgação Cultural VI. Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro. 1956.
Tenho visto muita coisa na vida, mas padre mexeriqueiro foi hoje a primeira vez.
Eu estava na porta, quando vi Padre Augusto vir descendo do Palácio e caminhando para a Chácara. Como sei do gosto que vovó tem por padre, fui correndo recebê-lo e beijar-lhe a mão. Levei-o para a sala, contente com a satisfação que vovó ia ter, sem pensar, nem de longe, no que ele tinha ido fazer.
Chamo vovó, ela toda inchada com a visita, pega na bengala, segura no meu braço e vamos para a sala. Mamãe, Dindinha, Iaiá e tia Agostinha foram também para a sala conversar com o padre.
Deixei todas ali e voltei para dentro. Nós sempre aproveitamos toda a ocasião para irmos para a ribanceira. Chamei o pessoal todo: Nico, Renato, Nhonhô, Luisinha e Rita, e voamos para o fundo da horta. Tínhamos escorregado só uma vez e quando demos fé estava a velharia toda no alto, olhando o que estávamos fazendo.
Adivinhamos logo o que ia acontecer. Iaiá gritou Quintiliano: como ele é velho e não podia descer a ribanceira, Nico e Renato é que tiveram de subir com o couro. Para escorregar é um instante, mas para subir cansa; se não fosse isso ninguém entrava mais em casa. Mas em tudo há de haver uma gente ruim para atrapalhar.
Quintiliano enrolou o couro e levou, e Dindinha mandou guardar no quarto dos arreios e fechou com a chave.
Vovó ralhou muito e disse que ficou com pena de ver Padre Augusto, tão bom, tão caridoso, largar suas obrigações para vir avisá-la que, se ela não tomasse uma providência, um de nós era capaz de morrer afogado no córrego que passa no fundo da Chácara.
Nós explicamos como a coisa estava arranjada, mas não valeu de nada; elas não quiseram acreditar. Eu disse a vovó: “Padre Augusto não veio por caridade, não, vovó, veio foi mexericar. A língua dele coçou e ele veio, isso é que foi.”
E assim perdemos o melhor brinquedo que já descobrimos.
Com algum tempo, mais não agüentava: ia porque ia, procurar o Dito! Mas o Dito já vinha vindo. — “Miguilim, a gente vai trepar no pé-de-fruta...” O Dito nem queria falar na briga. Ele subia mais primeiro — o brinquedo ele tinha inventado. Antes de subir botava a camisinha para dentro da calça, resumia o pelo-sinal, o Dito era um irmão tão bonzinho e sério, todas as coisas certas ele fazia. Lá em cima, bem em cima, cada um numa forquilha de galhos, estavam no meio das folhagens, um quase defronte do outro, só sozinhos. Estavam ali como escondidos, mas podiam ver o que em volta de casa se passava. O gato Sossõe que rastreava sorrateiro, capaz de caçar alguma lagartixa; com um zapetrape ele desquebrava a lagartixa, homem de fazer assim até com calango — o calango pequeno verde que é de toda parte, que entra em mato e vem em beira de morada, mas que vive o diário é no cerrado. Maria Pretinha lavando as vasilhas no rego, Papaco-o-Paco cochilando no poleiro, Mãitina batendo roupa na laje do lavadouro. — “Dito, você não guarda raiva de mim, que eu fiz?” “— Você fez sem por querer, só por causa da dor que estava doendo...” O Dito fungava no nariz, ele estava sempre endefluxado. Falava: — “Mais, se você tornar a fazer, eu dou em você, de ponta-pé, eu jogo pedrada!...” Miguilim não queria dizer que agora estava pensando no Rio-Negro: que por que era que um bicho ou uma pessoa não pagavam sempre amor-com-amor, de amizade de outro? Ele tinha botado a mão no touro para agradar, e o touro tinha repontado com aquela brutalidade. — “Dito, a gente vai ser sempre amigos, os mais de todos, você quer?” “— Demais, Miguilim. Eu já falei.” Com um tempo, Miguilim tornava: — “Você acha que o Rio-Negro tem demônio dentro dele, feito o Patori, se disse?” “— Acho não.” O que o Dito achava era custoso, ele mesmo não sabia bem. Miguilim perguntava demais da conta. Então o Dito disse que Pai ia mandar castrar o Rio-Negro de qualquer jeito, porque careciam de comprar outro garrote, ele não servia mais para a criação, capava e vendia para ser boi-de-lote, boi-boiadeiro, iam levar nas cidades e comer a carne do Rio-Negro. Vaqueiro Saluz falava que era bom: castravam no curral e lá mesmo faziam fogo, assavam os grãos dele, punham sal, os vaqueiros comiam, com farinha.
Mas, de noite, no canto da cama, o Dito formava a resposta: — “O ruim tem raiva do bom e do ruim. O bom tem pena do ruim e do bom... Assim está certo.” “— E os outros, Dito, a gente mesmo?” O Dito não sabia. — “Só se quem é bronco carece de ter raiva de quem não é bronco; eles acham que é moleza, não gostam... Eles têm medo que aquilo pegue e amoleça neles mesmos — com bondades...” “— E a gente, Dito? A gente?” “— A gente cresce, uai. O mole judiado vai ficando forte, mas muito mais forte! Trastempo, o bruto vai ficando mole, mole...” Miguilim tinha trazido a mula de cristal, que acertava no machucado da mão, debaixo das cobertas. “— Dito, você gosta de Pai, de verdade?” “— Eu gosto de todos. Por isso é que eu quero não morrer e crescer, tomar conta do Mutum, criar um gadão enorme.”
João Guimarães Rosa Campo Geral em Corpo de Baile 1º volume José Olympio. Rio de Janeiro. 1ª edição. 1956.
Mas essa é uma reflexão a posteriori.Durante o período Goulart não havia nem tempo, nem disposição e nem vontade para se duvidar da eficácia dessa “doideira conscientizadora” colocada como resposta a um momento de efervescência político-cultural. Assim, o compromisso de todas as forças sociais que se propunham a transformar o país era com o “povo”: “O povo não é uma entidade homogênea em sua composição uma vez que dele faz parte não apenas a classe revolucionária mas também outras classes e estratos sociais os mais diversos... O importante no entanto é que ao ir aos mais diversos setores do povo, ao formular artisticamente os problemas específicos que aí encontra, o artista deve ir munido do ponto de vista da classe revolucionária, e a sua luz examinar aqueles problemas dando a eles as soluções consentâneas com os interesses da classe revolucionária, os quais, em última análise, correspondem aos interesses gerais de toda a sociedade”. No entanto, esse “povo” era encarado muitas vezes como a mitificação do “bem” revolucionário e transformador; também celebrava-se e ritualizava-se o “povo” em termos absolutos:
“Nosso amor é mais gostoso
Nossa saudade dura mais
Nosso abraço mais apertado
Nós não usa as ‘bleque-tais’
Minhas juras são mais juras
Meus carinhos mais carinhoso
Tuas mãos são mãos mais puras
Teu jeito é mais jeitoso
Nós se gosta muito mais
Nós não usa as ‘bleque-tais’ “ (Gianfrancesco Guarnieri, Eles não Usam Black-Tie).
Um compromisso com o “povo”; uma missão e um dever para com a revolução popular; uma ingênua e inabalável crença no Brasil:
“De pé a jovem guarda
A classe estudantil
Junto à vanguarda
A trabalhar pelo Brasil
A nossa mensagem
De coração é que traz
Um canto de esperança
Num Brasil em paz...
A UNE, a UNE, a UNE SOMOS NÓS
a UNE é nossa voz.” (Vinicius de Moraes & Carlos Lyra, Hino da União Nacional dos Estudantes).
Todavia, do ponto de vista das classes dominantes o apelo à mobilização popular, como força inequívoca e definitiva na construção do “novo” Brasil, estava colorido por tons perigosamente radicais. Mesmo que não fosse diretamente composto pelos trabalhadores, o coro reivindicatório começava a causar um certo desconforto —
“Pro patrão pedi aumento
Só levei um pontapé
Sem comida e sem vintém
E agora seu José?
Se ser livre é passar fome
Não basta ser livre não” — (Augusto Boal & Geni Marcondes. Zé da Silva é um Homem Livre)
que aumentava com rapidez:
“Oi grileiro vem
Pedra vai
De cima deste morro
Ninguém sai
Ao grileiro nós vamos resistir
Todo povo daqui vai descer
E uma ordem geral vai partir
Que é botar o grileiro pra correr” (Raphael de Carvalho. Grileiro Vem, Pedra Vai. O Povo Canta. (CPC da UNE).
Se nas cidades a visão de uma multidão descendo dos morros era, no mínimo, preocupante para aqueles que por diferentes razões possuíam motivos para se imaginar na pele de algum “grileiro”, razões de sobra havia para quem quisesse se alarmar com o coro entoado na área rural. De fato, a idéia de que no campo, sobretudo no Nordeste, os trabalhadores organizados estavam prestes a deflagrar uma “guerra camponesa”, com vistas à repartição da grande propriedade agrária, deixava de ser um fantasma a assombrar os serões da casa-grande para se estender como ameaça latente ao conjunto das classes dominantes no Brasil. O crescente posicionamento popular em defesa de seus interesses fustigava os privilégios e o próprio eixo de poder das elites dominantes, fortemente impressionadas com os acontecimentos como o de Pernambuco, onde aos usineiros e latifundiários opôs-se o nome popular de Miguel Arraes, vitorioso nas eleições de 1962:
“Passe fome, frio e sede
Vá a pé pra Juazeiro
Falte sal dentro de casa
Falte gás no candeeiro
Arengue com a esposa
Vá dormir no galinheiro
Depois de ensaboado
Falte água no banheiro
Com medo de um boi brabo
Se suba até um facheiro
Passe seis noites de insônia
No bolso nenhum dinheiro
Faça tudo neste mundo
Mas não vote em usineiro” (Citado por Paulo Cavalcanti, O Caso eu Conto como o Caso foi. Da coluna Prestes à Queda de Arraes.).
As atividades econômicas desenvolvidas em São João del Rei foram a mineração, a agricultura, a pecuária e o comércio, vindo, inclusive, a ser conhecida como o “celeiro das Gerais”. Antonil já se referia, em 1711, à paragem do Rio das Mortes como local de pouso dos que se dirigiam às “minas gerais”, onde se proviam “do necessário, por terem [...] os que aí assistem roças e criação de vender”.
O peso da mineração na economia da região é difícil de ser dimensionado pelos relatos da época. Afonso Graça Filho afirmou que tal atividade, ali, parece ter sido contingente, uma vez que o objetivo inicial do povoamento da área seria a produção de gêneros de abastecimento. De qualquer forma, não se pode esquecer a ligação intrínseca desta atividade com a mineração, uma vez que sua produção visava abastecer, primeiramente, os transeuntes em direção às áreas mineradoras e, posteriormente, às próprias regiões. Por outro lado, a descoberta do ouro não pode ser desconsiderada como fato impulsionador dos deslocamentos populacionais em direção a São João del Rei. Ao menos nos momentos iniciais da exploração, parece clara a importância da mineração. No entanto, alguns relatos indicam que o surto aurífero não teria sido muito duradouro. Na memória, redigida entre 1750 e 1751 pelo Sargento-Mor José Álvares de Oliveira, sob o título de “História do Distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descobrimento das suas minas, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação de suas vilas”, encontra-se a seguinte referência às condições em que se achava a atividade mineradora:
E o ouro que agora dos ditos morros e córregos que deles saem se tira com limitação e assaz dificuldade então se extraía com tanta facilidade e grandeza que em breve tempo se fez um arraial de bastantes moradores paulistas e emboabas [...].
Neste trecho, pode-se perceber a distinção que o autor estabelece entre o momento inicial da exploração aurífera, na região, marcado pela abundância do metal, e aquele em que ele escreve, quando a atividade se encontraria em dificuldade. Assim sendo, já na metade do setecentos, a mineração estaria em crise, em São João del Rei. Parece-me, porém, que alguns questionamentos podem ser feitos em relação a esta caracterização. Marco Antônio Silveira, analisando a Capitania de Minas Gerais no século XVIII, tece interessante consideração sobre a idéia de decadência e crise da mineração, presente nos discursos de memorialistas e funcionários da administração. Para o autor,
[...] o discurso da decadência remetia a uma suposta ‘idade do ouro’ em que as Minas alcançavam aspecto menos aflitivo. Teixeira Coelho, descrevendo o governo do Conde de Galveas (1732 – 1735), contava que os ‘povos lamentaram a sua retirada, que fixou a época da ruína de Minas’. A Câmara de Vila Rica escrevia ao rei em 1772, comparando que ‘no tempo em que se estabeleceu a cota de cem arrobas, se achavam os povos destas Minas abundantes, e pingues as lavras: estava franca a extração dos diamantes em que percebiam os povos avultados interesses: girava o negócio com abundância; e presentemente se acha exaurido o ouro das melhores terras, e cansadas as roças, sem haver descoberto’. Já nos inícios do povoamento, profetizava Antonil não ‘haver pessoa prudente que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas Minas tanto ouro para castigar com ele o Brasil, assim como está castigando no mesmo tempo tão abundante de guerras aos europeus com o ferro’.
O período apontado como próspero pela Câmara se encontrava dentro da ‘época de ruína’ do memorialista; para este, a decadência vinha da década de 1730, para aqueles, somente após a metade do século. O jesuíta, porém, alertava que, por detrás da abundância de ouro, já se esboçava uma ‘idade do ferro’ em torno da primeira dezena dos Setecentos. Os desencontros cronológicos sustentavam-se, a nosso ver, no fato de o empirismo desses eruditos desenrolar-se por uma trilha mítica: no presente, o decadente; em algum lugar do passado, a ‘idade de ouro’.
A argumentação do autor parece-me bastante pertinente, na medida em que os relatos sobre a crise da mineração, independentemente da época de que datam, sempre indicam que o esplendor desta atividade era coisa do passado e que o presente era marcado por uma situação de crise. Vale somar aos elementos indicados pelo autor que isto poderia ser uma estratégia dos contemporâneos, no sentido de fazerem frente às taxações impostas pelo Estado Metropolitano. Tal objetivo é bastante claro no discurso da Câmara de Vila Rica, referido por Silveira. Neste sentido, há que se matizar a fala do Sargento-Mor José Álvares de Oliveira quanto à crise da mineração em São João del Rei. Não pretendo negar que, à medida que transcorria o século XVIII, a extração de ouro, não só em São João del Rei, mas em Minas de uma maneira geral, parecia declinar. No entanto, uma periodização mais precisa do marco inicial da crise não pode basear-se apenas em discursos de época, requer uma análise de documentação mais confiável para este propósito, como os inventários post-mortem, por exemplo.
Cerca das 19 horas, fui conduzido a um furgão do DOPS, tipo Chevrolet C-14.
Acompanhavam-me o mesmo Peninha e mais dois investigadores, além do motorista. Permitiram-me passar por minha casa, a fim de pegar algumas roupas e material de higiene.
Ao chegar à Pampulha, disse ao Peninha que estava com fome e, como àquela hora provavelmente não encontraria com que me alimentar no Parque da Aeronáutica, solicitei rápida parada para comprar uns sanduíches.
— É claro, Dr. Romanelli (tratava-me formalmente). Até mesmo, se o “senhor” quiser, logo aqui em frente há um restaurante chamado “Frango Assado”, onde o senhor poderá jantar calmamente. Não temos pressa...
Aceitei, encantado, pois conhecia o restaurante e sabia que ali serviam um bom churrasco. Era oportunidade para um bom jantar, não sabendo quando teria outra chance.
A viatura estacionou em frente ao Frango Assado, àquela hora ainda com pouco movimento.
Descemos todos, inclusive o motorista, e sentamo-nos à mesma mesa. Pedi churrasco misto. Estranhei que todos os demais fizessem seus pedidos, como se estivessem esperando o momento de jantar. Cada um pediu seu chopinho gelado...
Foi um verdadeiro jantar “de confraternização”: a polícia e eu...
Tudo correu bem, até que veio a conta. Ninguém se moveu. Consternado, verifiquei que se consideravam meus convidados... Eu, como preso, teria de “financiar o “trabalho revolucionário” de levarem-me para a cadeia. Não tive alternativa...
Já eram 21:00 quando chegamos a Lagoa Santa e entramos para o desvio que leva ao Parque da Aeronáutica.
Antônio Ribeiro Romanelli em 1964 Minhas Histórias do Cárcere e do Exílio Mazza Edições. Belo Horizonte. 1994.
Seus sons agônicos espalhavam-se pela casa. Vovó jamais quisera interná-lo, mandá-lo para um lugar apropriado. Ficava ali mesmo, num canto, sentado, o rosto sem expressão, as mãos batendo desordenadamente. Nós o chamávamos tiozinho e brincávamos com ele como um boneco.
À tardinha, Delfina lhe dava um banho, punha-lhe uma roupa nova e passeava com ele, empurrando a cadeira de rodas.
Nunca lhe vi um esgar de dor. Ria. Tanta inocência nos seus olhos límpidos!... Eram os olhos de tia Inaiá. Mas os seus gritos!... Era a sua única forma de expressão. Não pareciam nem de gente, nem de bicho.
Quando eu voltava do colégio, gostava de assistir ao resto do pôr do sol no fim da varanda. O Paraíba era um esplendor lá longe. Delfina costumava trazê-lo na cadeira para aquele lugar a essa hora. Ele emitia sons agudos. De quê? De alegria? Talvez fosse tocado pela beleza.
Delfina morreu antes dele, de enfarte. Tiozinho morreu em seguida. Tinha quarenta anos. Forma tão precária de vida! Morreu sem saber que morria.
O CAVALO
Uma vez vi meu cavalo branco no bosque de eucaliptos, imóvel ao luar. Eu tinha quinze anos. Sei que o cavalo morreu. Terei vivido ou sonhei que vivi a minha vida?
A história eclesiástica de Minas tem que frisar com justiça a ação saliente dos abnegados servidores da religião, que foram os visitadores diocesanos, a quem cabe parte considerável no mérito da instituição das primitivas igrejas e por quem correra anos seguidos a responsabilidade de sua disciplina.
Medindo centenas e centenas de léguas através dos agrestes sertões mineiros, afrontando desconfortos que apenas se pode imaginar, nem sempre acolhidos com boa sombra, eles se constituíram apóstolos de Minas; nem nos demasiaríamos pedindo para eles esse título na história. E, modestos, passaram tão preocupados com o bem que deviam fazer, nunca se lhes dando do juízo da posteridade, que escassos documentos nos deixaram de sua missão, tão escassos que por eles impossível nos fora traçar-lhes sequer ligeiro escorço biográfico.
E a missão silenciosa desses homens exerceu incontestável e poderosa influência na organização social da capitania. Reunindo em suas mãos uma soma considerável de poder que lhes atribuía a legislação canônica e civil em vigor, foram eles que sanearam as Minas, fazendo dos turbulentos e insaciáveis aventureiros que as invadiram e foram seus primitivos povoadores um povo morigerado e laborioso, de proverbial honestidade, como é sabidamente o povo mineiro.
Recolhamos pois da poeira dos arquivos para a nossa memória e nosso reconhecimento os nomes desses beneméritos, tão de sobejo recomendados já à nossa veneração.
O mais remoto desses visitadores, cuja notícia embora exígua, se deve a Mons. Pizarro, foi o Cônego MANUEL DA COSTA ESCOBAR, secretário e apontador do seu cabido, pelo qual foi encarregado, por provisão de 18 de junho de 1701, da Visitação Geral das Minas, missão em que foi confirmado por D. Fr. Francisco de São Jerônimo, posteriormente empossado bispo da diocese.
Não tornou à sede do bispado, tendo-o colhido a morte em São João del Rei, em 1709, quando procedia à visita daquela freguesia.
CÔNEGO GASPAR RIBEIRO PEREIRA. Natural do Rio de Janeiro de cuja catedral foi dos primeiros cônegos, colando-se na 4ª cadeira (depois das dignidades) a 16 de junho de 1686. Era Mestre em Artes (o bacharel em ciências e letras de hoje).
Por comissão do bispo D. Fr. Francisco de São Jerônimo visitou o distrito das Minas, em 1703 especialmente para providenciar na instituição e administração das novas igrejas, e ajustar limites com o arcebispado da Bahia. Estes serviços lhe granjearam a promoção a arcedíago e pouco depois a tesoureiro-mor. Foi também vigário geral do cabido, sede vacante.
O DR. MANUEL DA ROSA COUTINHO, EM 1717, por comissão de Dom Fr. São Jerônimo, visitou as comarcas do Ribeirão do Carmo e Sabará e o Pitangui. Em 1729, já no governo episcopal de D. Guadalupe, encontramo-lo novamente visitando a comarca do Ribeirão (São Sebastião, Camargos, São Caetano, Inficionado e Catas Altas), Santa Bárbara e São João do Morro Grande.
Dos numerosos termos de devassa por ele deixados nas freguesias que visitou, apartamos o seguinte que, além de se referir a personagem de quem falaremos mais de espaço, dá um bom traço fisionômico dessas assustadoras visitas doutrora:
“Termo que fez José de Torres Quintanilha.
Aos vinte e oito dias do mês de maio de mil setecentos e trinta anos nesta freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, digo, nesta Freg. de São Caetano nas casas donde estava pousado o Reverendo Senhor Doutor Visitador Manuel da Rosa Coutinho apareceu José de Torres Quintanilha notificado a sua ordem para satisfação da culpa que lhe resultou da devassa desta Freg.ª ao qual o dito Senhor admoestou da culpa de usurário e mandou que daqui por diante não tornasse a dar dinheiro ou ouro com semelhantes exorbitâncias com pena de ser castigado com as penas que a lei determina contra os usurários. Confessou a culpa e o fez judicial, aceitou a admoestação e prometeu emenda e disse se sujeitaria a todas as penas da lei, de que fiz este termo que assinou com o Reverendo Senhor Doutor Visitador e eu Padre Paulo Rodrigues Adam, secretário da Visita que o escrevi.
Dr. Cout.º
José de Torres Quintanilha.”
Cônego Raymundo Trindade
em Arquidiocese de Marianna – vol. I
Escolas Profissionais do Lyceu Coração de Jesus. São Paulo.
Com onze anos mamãe me levou, numas férias, para conhecer a velha fazenda do Garrote, origem da família Silveira. Viajamos na boléia de um caminhão até Mato Verde, parando na estrada ruim para necessidades e consertos. Numa dessas paradas, um valentão que viajava na carroceria disse que viu uma cobra em uma touceira de mato. Espavoriu nós todos. Tirou o revólver e meteu bala, atirando em círculos, porque não sabia onde estava a cobra. Eu argumentei que assim não matava a bicha e levei um beliscão de mamãe, que, pela injustiça, me faz lembrar do episódio.
No meio da viagem, paramos para comer numa pensão de estrada. A comida já estava pronta e posta na mesa, sobre tábuas limpas. Era boa demais. Comi tanto que mamãe até ralhou comigo: “Pare de comer, menino!”
Fui para o caminhão. Quando começamos a rodar eu vomitei o vômito azedo, fétido, que ficou lá fedendo a meus pés, até que o chofer parou, apanhou um pano sujo e veio limpar. Ainda hoje aquele fedor me incomoda e com ele o beliscão que mamãe me deu.
A viagem de caminhão acabou em Mato Verde, cidadezinha modesta com um mercado sortido de queijos, rapaduras e temperos, onde ainda corriam as patacas de cobre de vinte e quarenta centavos. Lá me encantei de paixão desvairada por Mariá, minha prima bastarda cor de telha, lindíssima. Creio que ela também gostou de mim. Nos olhamos longamente, olho no olho, sem rir. Ainda me lembro da soberana beleza dela.
Mamãe pouco se preocupou porque, no dia seguinte, partimos a cavalo para a fazenda do Garrote — ela montada de lado, num silhão, andava muito devagar, com medo de cair. Lá vivi o mês mais luminoso de minha infância, no casarão antigo, com telhados desdobrados em fraldas e lados inumeráveis, e tendo uma vasta cozinha onde uma calha de madeira derramava água borbulhante numa gamela. No pomar velho de ao redor, com toda fruta antiga, inclusive uma centena de laranjeiras de laranja azeda, de que se destilava muita água de flor de laranjeira.
Meu encanto maior mesmo foi com a beleza do tabuleiro, uma espécie de cerrado alto, cheio de frutas e flores, de pássaros e de cobras. Desleixadas cobras, que largavam suas peles pelo chão. Distraídos passarinhos, com ninhos ao alcance da mão. Temerários por esvoaçarem diante de meu primo, que tinha pontaria nunca vista no bodoque. Cortava na primeira pedrada o pescoço de um deles.
Nunca tinha visto e nunca mais vi tanta fartura de araçá, gravatá, cagaita, bacupari, jaracatiá, guabiroba, mangaba, pequi, panã e mil frutas mais. Não apreciei muito as virtudes das bezerras, porcas e ovelhas em que meu primo estava viciado. Mas aprendi dele quantidades de histórias de assombração e juízos verazes sobre as meninas que brincavam no paiol, sujas de tanto pó de palha de milho e de sobras de fubá que caíam do moinho, e que me faziam espirrar. Procurei com ele o freio do monjolo e soube que não havia. Era assim mesmo. Socava dia e noite. Esplêndidos eram a imensa roda-d’água, que girava a roda de pedra no fabrico do fubá, e o engenho de espremer cana.
Minha besteira grossa, ali, foi apanhar uma cobra morta que alguém jogara dentro de um mata-burro e levar, espetada num pau, para mamãe ver a beleza que era. Quem viu foi meu tio Januário. Capenga, nervoso, assustou-se tanto que desmaiou. A perna seca dele vinha da mordida de uma cobra cabeça-de-patrona, igualzinha à que eu levava. Isso ocorrera anos antes, de madrugada, quando ele comandava a colheita do algodoal. Picado, saiu correndo até uma fogueira, onde queimou inteira a batata de sua perna. Assim se salvou.
A glória maior do Garrote, de que me esquecia, foi ver, boquiaberto, a dona, minha tia Deija, gordíssima, sentada numa cadeirona enorme com os dois peitos de fora, dando de mamar ao último filho e ao primeiro neto. Beleza. Essa minha tia, criada ali no Garrote pela avó, era uma das pessoas mais cultas que eu conheci. Melhor ainda que a tia Nonó no domínio das artes arcaicas. Seus bordados de todo tipo encantavam. Eram incomparavelmente mais perfeitos que quaisquer outros. Suas comidas e doces, idem. Também maravilhosos. Tinha um admirável domínio da literatura oral luso-brasileira, que nas noites de luar contava longamente a um grande grupo de gentes da fazenda e vizinhanças, todos familiarizados com os doze pares de França, el-rei dom Sebastião, e muitos personagens mais.
Belas férias aquelas. Não faltaram nem as moças. Eram as mulatas e negrinhas que subiam e desciam a escada íngreme do moinho para atrair a gente a agarramentos. Tudo ficou em bolinas, de que fugiam às gargalhadas. Claro que queriam alguma coisa comigo, tanto me olhavam e chamavam. Mas, além de vê-las, tê-las pedia a ousadia que eu não tinha.
Darcy Ribeiro em Confissões. Companhia das Letras. São Paulo. 1997.
Perante o severo julgamento da História, mais exato do que pensam os aventureiros desejosos de escapar a suas indicações, não cabe aceitar as acusações que, no fim do século XVIII, pesavam sobre todos os governadores da Capitania de Minas. O homem comum das Gerais os tinha na conta de maus, violentos, vingativos, péssimos administradores, tiranos que sacrificavam os povos e se enriqueciam com seus despojos. E, em conseqüência, retratava-os como indignos de qualquer admiração ou louvor. Mas, se houve governantes indignos na Capitania, existiram, também, aqueles que se sacrificaram pelas Minas, que se opuseram corajosamente às turbulências tão comuns nas lavras, caminhos e localidades, que buscaram, decididamente, fazer da Capitania um país progressista e aberto ao mútuo respeito e à cordialidade entre seus habitantes. D. Rodrigo José de Menezes foi um desses benfeitores da Capitania. Mal chegara a Vila Rica, em 1780, e já se lançava ao trabalho de conquistar Minas para os padrões de vida honesta e produtiva, exatamente nos moldes desejados pelos seus melhores valores morais.
O outro extremo, aquele que justificava muitos dos impropérios atirados pelos mineiros contra seus governantes, foi marcado por Luiz da Cunha Menezes, que chegou ao meio de seus jurisdicionados em agosto de 1783, depois de passar pela direção da Capitania de Goiás. Não possuía as qualidades requeridas de verdadeiro administrador e, logo aos primeiros atos, ofereceu seguras indicações do tiranete que seria nas Minas. Mostram-no como autoritário, rude no tratar os dirigidos e até desonesto, não respeitando as barreiras impostas pela lei e pela moral. Teve, por isso, contra sua pessoa as figuras mais respeitáveis da Capitania. Elevou, para garantir-se no poder, exageradamente o número de regimentos radicados nas Gerais e entregou os postos de comando a protegidos seus. Disso é testemunho o haver gozado, em sua administração, de grande e imerecida força o temível capitão José de Vasconcellos Parada e Souza, que as “Cartas Chilenas” satirizaram, contundentemente, sob o pseudônimo de Pardelas. Das más qualidades de Luiz da Cunha Menezes são testemunhos essas “Cartas”, que, em seu afã zombeteiro e demolitório, descem às raias do torpe, descrevendo a doentia vaidade do Fanfarrão Minésio:
“Aquele que consome largas horas
Em falar com os sécios e peraltas,
Em meter entre as pernas os perfumes,
Em consertar as pontas dos lencinhos,
Não nasceu para as coisas que são grandes.”
Não menos agressiva e esclarecedora é a queixa de Tomás Antônio Gonzaga, em março de 1787, dirigida à Rainha e contra Cunha Menezes:
“Nem me atrevo a representar coisa alguma a este Exmo. General, por conhecer o seu notório despotismo. Ele tira os padecentes do patíbulo; ele açoita com instrumentos de castigar os escravos as pessoas livres, sem mais culpa ou processo...; ele mete os advogados e homens graves a ferros; ele dá portarias aos contratadores para prenderem a todos os que eles querem que lhes devam; ... elle revoga os julgados e ainda os mesmos das Relações. Enfim, Senhora, ele não tem outra lei e razão mais que o ditame de sua vontade e dos seus criados.”
A reação não se fez esperar. Forte clamor público contra os desatinos desse governante se levantou na Capitania. E dele participavam figuras de todas as classes sociais, inclusive as mais dignas e representativas, a começar pelo Cônego Luís Vieira da Silva, que, em suas habituais e apaixonadas leituras, na episcopal Mariana, sorvia as idéias republicanas de revolucionários franceses e norte-americanos e passava a admitir, desde 1781, que, nas terras vizinhas do Atlântico Sul, também se conseguiria vencer o poder dos soberanos e das metrópoles.
Tiradentes, que, em suas viagens, ao tempo de Cunha Menezes, conheceu esse quadro de geral insatisfação, passou a suspeitar que a verdadeira solução para tais e outros problemas não viria mais do soberano português. Deveria partir de autoridades maiores locais, depois de obtida a independência das Minas, que, assim, não teriam que tolerar a ação de enviados desse jaez do governo da metrópole. E, ardoroso como era, passou, sem demora, à fase de elaboração e pregação de seus ideais.
Cachoeira, 19-04-1789, datada de Borda do Campo, 11-04-1789.
Ilmo. e Exmo. Sr. Visconde de Barbacena
Meu Senhor: — Pela forçada obrigação que tenho de ser leal vassalo à nossa augusta Soberana, ainda apesar de se me tirar a vida, como logo se me protestou na ocasião em que fui convidado para a sublevação que se intenta, prontamente passei a pôr na presença de V. Excia. o seguinte: — Em o mês de fevereiro deste presente ano, vindo da revista do meu Regimento, encontrei no arraial da Laje o Sargento-Mor Luís Vaz de Toledo; e falando-me em que se botavam abaixo os novos Regimentos, porque V. Excia. assim o havia dito, é verdade que eu me mostrei sentido e queixei-me ao sargento-mor: me tinha enganado, porque em nome da dita Senhora se me havia dado uma patente de coronel, chefe do meu Regimento, com o qual me tinha desvelado em o regular e fardar, e muita parte à minha custa; e que não podia levar à paciência ver reduzido à inação o fruto do meu desvelo, sem que eu tivesse faltas do real serviço; e juntando mais algumas palavras em desafogo da minha paixão. Foi Deus servido que isso acontecesse para se conhecer a falsidade que se fulmina.
No mesmo dia viemos dormir à casa do capitão José de Resende; e chamando-me a um quarto particular, de noite, o dito Sargento-Mor Luís Vaz, pensando que o meu ânimo estava disposto para seguir a nova conjuração pelos sentimentos e queixas que me tinha ouvido, passou o dito sargento-mor a participar-me, debaixo de todo o segredo, o seguinte:
Que o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga, primeiro cabeça da conjuração, havia acabado o lugar de ouvidor dessa Comarca, e que, isto posto, se achava há muitos meses nessa vila, sem se recolher a seu lugar da Bahia, com o frívolo pretexto de um casamento, que tudo é idéia porque já se achava fabricando leis para o novo regime da sublevação que se tinha disposto da forma seguinte:
Procurou o dito Gonzaga o partido e união do Coronel Inácio José de Alvarenga e do Padre José da Silva e Oliveira e outros mais, todos filhos da América, valendo-se para seduzir a outros do Alferes (pago) Joaquim José da Silva Xavier; e que o dito Gonzaga havia disposto da forma seguinte: que o dito Coronel Alvarenga havia mandar 200 homens pés-rapados da Campanha, paragem onde mora o dito Coronel; e outros 200, o dito Padre José da Silva; e que haviam de acompanhar a estes vários sujeitos, que já passam de 60, dos principais destas Minas; e que estes pés-rapados haviam de vir armados de espingardas e facões e que não haviam de vir juntos para não causar desconfiança; e que estivessem dispersos, porém perto da Vila Rica, e prontos à primeira voz; e que a senha para o assalto haviam de ser cartas dizendo tal dia é o batizado; e que podiam ir seguros porque o comandante da Tropa Paga, Tenente-Coronel Francisco de Paula, estava pela parte do levante e mais alguns oficiais, ainda que o mesmo sargento-mor me disse que o dito Gonzaga e seus parciais estavam desgostosos pela frouxidão que encontravam no dito comandante e que, por essa causa, se não tinha concluído o dito Levante.
E que a primeira cabeça que se havia de cortar era a de V. Excia.; e depois, pegando-lhe pelos cabelos, se havia fazer uma fala ao povo que já estava escrita pelo dito Gonzaga; e para sossegar o dito povo se havia levantar os tributos; e que logo se passaria a cortar a cabeça do Ouvidor dessa vila, Pedro José de Araújo, e ao Escrivão da Junta, Carlos José da Silva, e ao Ajudante-de-ordens Antônio Xavier; porque estes haviam seguir o partido de V. Excia.; e que, como o Intendente era amigo dele, dito Gonzaga, haviam ver se o reduziam a segui-los; quando duvidasse, também se lhe cortaria a cabeça.
Voltando ao nosso assunto, depois de conseguir a unanimidade da cidade contra ele, Giustino Marzano partiu para São Paulo onde, sem obter sucesso, se dedicou a atividades pouco recomendáveis. Teve um fim melancólico. Morreu esquecido por todos.
Em 1957, antes da chegada do diretor importado, o Teatro Universitário já havia dado mostras de sua boa qualidade com a montagem primorosa da peça NOSSA CIDADE, de Thornton Wilder. Dirigida por Carlos Kroeber, tinha cenários de Augusto Degois e figurinos desenhados especialmente por Kalma Murtinho. No elenco, estavam Letícia Malard, Theotonio dos Santos Júnior, Jota Dângelo, Ezequiel Neves, Domingos Muchon, Sílvio Castanheira, Déa Abreu, Ari Margalith, Neuza Rocha e outros.
O Teatro Experimental, fundado por Carlos Kroeber, João Marshner, Jota Dãngelo e Carlos Denis Machado, e que já estava em atividade antes da chegada de Marzano, reunia os talentosos dissidentes do TU já desgastados com a prepotência e incompetência do italiano. Tinha propostas mais vastas, queria fazer teatro de vanguarda e era independente. Mas absolutamente sem recursos. Novamente, as “Amigas da Cultura” foram de relevante valia na montagem dos espetáculos. Foram elas, por exemplo, que compraram os direitos de tradução da peça Fim de Jogo de Samuel Beckett. Traduzida por João Marschner e Silviano Santiago, foi levada, pela primeira vez no Brasil, em Belo Horizonte. A direção foi de Carlos Kroeber. No palco, Sílvio Castanheira, Jota Dângelo, Ezequiel Neves e Neuza Rocha.
Outro recurso usado para a obtenção de fundos financeiros era a apresentação de peças infantis, geralmente de Maria Clara Machado. Eram sucesso de público e forneciam subsídios para montagens mais ousadas como A Cantora Careca de Ionesco. Imaginem Ionesco na Belo Horizonte da época. Em uma das apresentações, havia apenas 3 pessoas na platéia, um deles um paulista de passagem pela cidade, que ficara impressionado com a ousadia dos mineiros.
As peças infantis tinham sucesso garantido, não sem razão. Eram montagens primorosas. Uma delas, Pluft, o Fantasminha, lançou como ator o então adolescente Rodrigo Santiago, um Pluft absolutamente adorável. As músicas eram do “doublé” de ator e compositor Jota Dângelo e a direção de Carlos Kroeber.
Carlão, como era conhecido, em razão do físico avantajado, era a grande cabeça do Teatro Experimental. Inteligente, irreverente, irônico e empreendedor, era uma espécie de “guru” da turma do teatro. No final dos anos 50, foi para os Estados Unidos onde se aperfeiçoou nas artes cênicas. Voltou cheio de idéias e 50 quilos mais magro. Lembro-me de sua “rentrée”. Estávamos ensaiando no teatro Francisco Nunes, quando uma figura surgiu na frente do palco e desfilou como se estivesse numa passarela de moda. Após o primeiro susto, com o que pensávamos fosse o ato de um maluco, reconhecemos o “magro” Carlão. Ensaio interrompido para os abraços e festejos que, posteriormente, romperam a madrugada.
Ansioso por transmitir os conhecimentos adquiridos no exterior, Carlão passou a ministrar um curso de interpretação seguido atentamente pelos integrantes do Teatro Experimental e por alunas de Klauss. Duas coisas ficaram em minha memória de suas aulas. A primeira foi o talento à flor da pele do adolescente Rodrigo Santiago, que conseguia expressar emoções apenas com sua fisionomia, sem gestos ou caretas. Certa vez, Carlão nos colocou um a um, sentados próximos a uma parede, e ia dizendo o que estava se passando do outro lado, para que reagíssemos de acordo. Dizia, por exemplo, “tem uma criança chorando no quarto ao lado”. Só no rosto de Rodrigo percebi que isto de fato poderia estar acontecendo.
Uma de suas aulas me marcou especialmente. Ele chegou com vários rolos de jornal dobrados em forma de cacetetes e distribuiu-os entre nós, dando a ordem: “Comecem a se agredir!” Iniciou-se a pancadaria que durou uns cinco minutos, ao fim dos quais ele gritou: “Parem!” Paramos imediatamente, exaustos e arfantes. Calmamente, nos mandou sentar e perguntou: “Por que vocês estão se agredindo desta maneira?” A resposta veio rápida e unânime: “Uai, porque você mandou”... A lição foi acachapante: “E vocês pensam que teatro é isto, fazer tudo o que o diretor manda sem nem saber por quê?” Silêncio total e reflexivo. Depois disso, nunca mais fiz nada que me foi mandado ou pedido sem procurar saber os “porquês”.
24 de novembro — Relatividade de todo conhecimento. Aparência de toda noção. A única realidade é o mundo especial que cada qual capta e retém, deformando-o, recriando-o no pensamento. Kant, Berkeley, Schopenhauer?... Não. Dom Quixote se exprime melhor acerca do idealismo:
“... y así eso que a tí te parece bacía de barbero me parece a mil el yelmo de Mambrino, y a otro le parecerá otra cosa.” (1ª Parte, Cap. XXV).
Eis o que é a realidade: bacia de barbeiro, elmo de Mambrino, ou o que os senhores quiserem...
26 de novembro — No Cine Glória, Shanghai Gesture, com Gene Tierney (linda estrela, que começa a fulgurar), Walter Huston (sempre dono de seus papéis e das fitas em que toma parte), Victor Mature (bonitão, tipo de sírio-libanês, não se sabe se simpático ou antipático) e a estranha e diferente Ona Munson. Direção de Joseph von Steinbeck. Fita com altos e baixos quanto à qualidade artística, como é de regra nos filmes, mas entretida, que é o principal neste gênero de diversão.
27 de novembro — No Metrópole, uma comédia com George Brent e Joan Bennett. Passável.
28 de novembro — Diz-se, na gíria, de algum sujeito que se salienta em alguma coisa: “Fulano é um bicho!”
Nesse mesmo sentido de pessoa saliente, importante, ou na de figurão, mandão, etc. encontrei-a num conto do escritor galego Otero Pedrayo (Veinte Cuentos Gallegos), que acabo de ler:
“Quién se lo había de decir, ahora que era el bicho de esta tierra!”
E também se me deparou no Don Segundo Sombra, de Güiraldes:
“... y ya los procuradores, jueces y otros bichos iban mermando”.
29 de novembro — No Metrópole, comédia com Bette Davis e James Cagney. A grande artista metida numa comédia imbecil! Caindo de nádegas em montes de cactos, como nas chanchadas de Mack Sennett!
29 de novembro — Vesperal no China Circus Show, trabalhando no teatrinho Lakmé, da Feira de Amostras. Circo ruinzinho. Nada vi de curioso, a não ser um dos homens da troupe chinesa Lai Fous, um sujeito de cara limpinha, cabelos lisos, negros e brilhantes e um sorriso cumprimenteiro, satisfeito, que me pareceu um sósia do Noraldino Lima.
Eduardo Frieiro em Novo Diário Itatiaia. Belo Horizonte. 1986.
De um lado, a serra enorme. Tão negra que chega a rebrilhar ao sol. No entanto, seu corpo é feito do quartzito mais branco que as Minas têm. À sombra dessa serra, cujas sombras o crepúsculo prolonga, ergue-se, sozinha, a Vila de S. José del Rei.
Há uma calma profunda no ambiente. Parece ainda estarrecido com o martírio de seu filho mais querido, o Tiradentes. Aqui, inda menino, ele brincou, em correrias pelas campinas a fora. Pescou lambaris no riacho, colheu flores, armou arapucas, aprendendo a amar o chão e as coisas de sua terra. Viu o ouro ingrato, das mãos feridas dos mineiros, fugindo para além-mar. Ouviu os lamentos doridos agrilhoados, e assim se fez homem e se transformou em herói. Meditou aqui e ali; colheu queixumes e esperanças. Na calma profunda do ambiente dormitavam anseios. De novo os emboabas se dispõem à luta mas, agora, pelo direito à liberdade. A conspiração se instala. O herói transforma-se em mártir. Hoje a cidade eterniza seu apelido, à sombra da mesma serra enorme, tão negra que chega a rebrilhar ao sol.
O conjunto urbano figura cenário, a propósito construído para encantar. É concentrado e diminuto como um trecho escolhido da história. Não se estende em linha como as demais povoações mineiras; enrodilha-se. É quase uma rua só, formando um quadrado. Em cada um de seus lados uma perspectiva diferente. A um canto, levanta-se nobre sobrado de camarinhas; prolonga-o larga série de casas térreas, bem postas em suas discretas fisionomias.
Ouvem-se canções: “Em Tiradentes fizeram cadeia nova / Mariazinha, coitadinha, é criminosa”. Lá está ela, a cadeia, mais amena, quiçá, que muitas mais novas. Não se distingue das outras construções senão por suas amplas janelas gradeadas. Através delas se vê a rua, conversam os raros presos com os transeuntes, em amáveis colóquios. A rua vai subindo devagar. Nela estão as residências mais faceiras das Minas. Por suas gelosias entrelaçadas, olhos ardentes procuram bem-amados. São pequeninas, arrumadinhas, e formam perspectiva tão encantadora que sugere ambiente infantil.
Dobra-se a rua principal em ladeira; em seu topo assenta-se a Matriz de S. Antônio. Bem lançada escadaria ascende a seu adro, atapetado de flores, no meio das quais está o único relógio público de sol ainda existente nas Minas.
A fachada da Igreja não é a primitiva. Foi executada no século XIX, obedecendo ao último projeto arquitetônico de Antônio Francisco Lisboa (1810). Com toda certeza já estava construída sua parte inferior quando o novo risco foi obtido. O arremate superior tenta, no possível, tornar a obra mais elegante, reduzindo o volume das torres, por intermédio de chanfros em suas arestas. Por sua vez, o frontão se galba em duas largas curvas, mas não se resolve com os perfis e a ornamentação próprias de Antônio Francisco. Não há mais ouro nas Minas, e o desenho de Antônio Francisco não pode ser integralmente executado.
O interior da Matriz de S. Antônio surpreende pela grandiosidade. No conjunto e no detalhe impera o caráter monumental. Logo na entrada, soberbo coro antecede a altíssima nave. A seu lado, bacia toda recoberta de pinturas do mais refinado rococó sustenta o órgão de altos tubos. Os tetos são revestidos de arabescos florais em ouro, semelhantes aos que se encontram na Biblioteca da Universidade de Coimbra, ou recebem pintura figurativa. São enormes os retábulos da nave, mas perdem em grandeza para o da capela-mor. Não há outro nas Minas mais exuberante. É quase obra de arquitetura pelo volume e pela definida e forte estrutura. Sua talha, estendida para as laterais do presbitério, alcança dimensões extraordinárias. Lembra por sua força e largueza o estilo Luís XIV.
A Matriz de S. Antônio, da antiga Vila de S. José del Rei, exige processos sucessivos e somatórios de contemplação. Há que ir e vir, passar de elemento a outro, interligando efeitos e confrontando detalhes. Inclusive porque sua beleza não se restringe à nave e capela-mor. Estende-se pela sacristia e cômodos laterais, com suas pinturas, oratórios, imagens e pratarias, só em dias de festas expostas.
São diversas as capelas filiais, urbanas, da Matriz de S. Antônio. Nenhuma, porém, lhe disputa a imponência. Ou se entremeiam com as residências, como a de S. João Evangelista ou a de N. S. do Rosário, ou se afastam para outeiros circunvizinhos, como a de N. S. das Mercês. Uma delas abriga o Museu de Arte Sacra local, com valiosas peças.
No conjunto arquitetônico civil três casas se destacam. Duas delas aproveitam a rua que passa em frente à matriz, escorregando para sua direita. A primeira dispõe de um forro de gamela, em cujos painéis inclinados foram pintadas cenas campestres, saborosamente românticas, representando os quatro sentidos. A segunda, possuidora de forro semelhante, tem significação particular por haver pertencido ao Inconfidente Padre Toledo. Por muito tempo funcionou como sede da municipalidade; hoje está ocupada por freiras. Sua entrada abre-se para pátio lateral. O corpo da construção eleva-se, em certo trecho, em torreão. Por seu singular partido em planta, pelo primoroso acabamento e pelos fatos históricos que nela se objetivaram, a Casa do Padre Toledo constitui exemplar da mais alta significação.
Junto ao ribeiro que margeia a cidade, abre-se gostosa praça, sombreada de frondosas árvores. Ultrapassada a ponte que vence o leito do ribeiro, encontra-se o mais completo chafariz público do país. Não se limita a bicas sobre bacia; seu muro, à feição de capela conforme o uso, inclui nicho para a Virgem; em sua frente, mureta provida de bancos agencia pequeno pátio; nos fundos dispõe de tanques para a lavagem de roupa. Assemelha-se um tanto a construção de igual complexidade, existente em Ericeira, Portugal.
Aqui se reúne o mulherio, nas tardes ensolaradas. Trocam-se receitas de quitutes e intrigas também.
A cidade é pequenina e arrumadinha. É quase uma cidade menina. Mal saiu da infância de sua formação e não atingiu ainda a plena maturidade. Como criança deixa-se enlevar pela brisa perfumada do vale próximo, posta em sossego, à sombra da serra enorme que, de tão negra, chega a rebrilhar ao sol.
Renée Lefèvre, Sylvio de Vasconcellos Desenho Lírico das Minas Antigórias em Minas: Cidades Barrocas. Cia. Editora Nacional / Editora da Universidade de São Paulo. São Paulo. 1968.
O autor da Memória Histórica da Capitania de Minas Gerais (atribuída a José Joaquim da Rocha), onde se acham informações relativas ao ano de 1778, refere-se à situação de Vila Rica, “desagradável bastantemente, não só pela arquitetura das casas, mas ainda pelo elevado das suas ruas, que fatigam a todos os que a passeiam”. A Vila, dizia, abundava em víveres e as terras produziam muitas hortaliças, como couves, repolhos e cebolas. Havia também fartura de frutas, principalmente os pêssegos, marmelos, laranjas, maçãs, joazes. Embora se lavrasse pouco a terra, os seus habitantes nenhuma falta experimentavam, em razão dos mantimentos que entravam todos os dias em tropas carregadas de toucinho, milho, feijão, queijos e azeite, vendidos por preços bastante cômodos.
A população da Vila do Sabará, informava o memorialista, avaliada em 7.600 almas, vivia da mineração e da lavoura de milho, feijão, arroz e cana de açúcar. No Julgado de São Romão, umas das melhores terras, se não fossem as sezões, havia abundância de gados, caça e peixe, assim como frutas e o mais necessário para a vida. Corria ali o grande negócio do sal do sertão, couros de veado e de toda a qualidade de pelaria. O Julgado do Curvelo era abundante em gado vacum, caças de todas as qualidades e os víveres necessários à subsistência. A Vila Nova da Rainha era “muito mimosa de frutas de nosso Portugal, como são maçãs, pêssegos, ameixas e uvas”, e a maior parte dos moradores vivia da extração de ouro. Toda a região do Serro do Frio tinha plantações de milho, feijão e cana de açúcar. Os barreiros salitrados, que se acham em seus dilatados pastos, atraíam os gados e todos os animais daquele sertão, para se nutrirem desse barro, “muito proveitoso para a produção por causa do salitre, sem o qual nada vive nas Minas”.
A Vila de São José do Rio das Mortes (continuamos a respigar no citado autor) era a mais abundante de toda a Capitania, dela se sustentando a maior parte das comarcas, principalmente de toucinhos, gados, queijos, milho, feijão e arroz. Tinha muita fruta de toda a qualidade, principalmente as maçãs, semelhantes às de Portugal. Caça e peixe não faltavam aos que se entregavam aos exercícios venatórios e piscatórios. Ares sadios, clima temperado. Boa saúde dos habitantes, mas... “os nacionais são acometidos, principalmente os camponeses, de umas grandes grossuras, que lhes crescem no pescoço e lhes chamam “papos”, de sorte que alguns chegam a disforme grandeza e impedem de alguma forma a respiração”. O clima quente e seco, falto de águas, da Vila de Minas Novas era pouco propício à produção dos víveres indispensáveis ao sustento dos seus habitantes, cujos recursos provinham do ouro que alguns mineiros extraíam no Rio Araçuaí e das pedras crisólitas que se catavam no Rio Piau-í. Já os moradores da freguesia de Conceição do Rio Pardo, situada em sertão fertilíssimo de gado, caça e pesca, achavam-se socorridos de tudo o que era preciso para passar a vida com abundância.
São as informações que achamos útil recolher da interessante peça histórica.
Pessimista é a Memória datada de 1801 e escrita pelo naturalista José Vieira Couto onde se lêem considerações como estas:
“Espanta ao viajeiro observador a suma decadência destas povoações de Minas: transita de arraiais em arraiais, vê que tudo são ruínas, tudo despovoação; nota que só poucos lugares de longe em longe se sustêm e parecem um pouco mais animados. [...] Alguns mineiros, a maior parte deles empenhados ou falidos, cobertos de lodo e cheios de esperança às portas de suas minas ou às margens dos rios, ainda lutam, ainda pretendem ter mão na esfarrapada fortuna. Estes arraiais, povoações todas de mineiros, que em tempos atrás foram fundados e levantados de seus alicerces à custa do ouro extraído das lavras, que foram florentes, hoje arruinadas, seus habitantes nem ainda os podendo conservar, que decadência de mineração!”
Várias eram as causas apontadas. Uma delas: o mineiro era o único que pagava a contribuição do quinto.
Outro fator de pobreza, segundo o memorialista, achava-se no desprezo da agricultura. “Uma agricultura de poucos gêneros (dizia), o quanto baste somente para a sustentação dos homens grosseiros, ou de escravos; uma agricultura ruinosa, que se faz sem beneficiar a terra e só estrumando-a com as cinzas de preciosas matas, tal é a agricultura de Minas...”
Vistas igualmente nada cor de rosa eram as do autor das Memórias sobre a Capitania de Minas Gerais, escritas em 1806 e atribuídas ao Dr. Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos: “por que se veja o atraso da agricultura na vasta e frutífera Capitania de Minas Gerais, direi que toda se reduz à planta dos grãos ordinários, o milho, o feijão e o arroz...” O uso do arado, quase desconhecido. Não havia outro modo de cultura, senão o de derrubar, roçar e queimar os matos para depois plantar.
E a respeito do comércio? Inteiramente passivo e por conseguinte desvantajoso. O que se exportava — algodão, café, açúcar, fumo, sola, couros, queijos, toucinho —, conduzido em lombo de bestas para os portos marítimos, após longa e penosa travessia de terra, não era susceptível de lucros, uma vez que o produto dos gêneros e do gado vacum não equivalia aos preços das mercadorias e fazendas da Europa que era preciso importar.
Eduardo Frieiro em Feijão, Angu e Couve ensaio sobre a comida dos mineiros Centro de Estudos Mineiros. Belo Horizonte. 1966.
Já acentuei que Morro Velho é a mais profunda mina do mundo: 2.538 metros, exatamente. Vale apontar que o furo mais atrevido na crosta do globo — o mais aventuroso mergulho das forças humanas da Terra — foi feito em busca do ouro. O veeiro desce obliquamente. A mina o acompanha, aprofundando-se em seis galerias superpostas. Umas são verticais: os poços. Outras horizontais: os túneis. Trabalho que demanda cautela. Faz alguns anos, antes dos engenheiros ingleses tomarem a exploração a seu cargo, obturou-se a entrada de uma galeria. Sessenta mineiros ficaram soterrados, morreram ao pé do ouro — desse ouro que não procuravam para si.
Ninguém desce à mina sem enfiar o uniforme de linho e o capacete de couro cru. O menor seixo que rola repercute com estrondo nos poços. Um dos “capitães” da mina, latagão inglês, de linhas esbeltas e equilibradas, vai guiar-nos. Transposta a entrada, cujos pilares de cimento se levantam sob os cipós e os bambus da encosta, surge, bem iluminado, o primeiro túnel. Trânsito contínuo de vagonetes elétricos, transbordantes de minério. A temperatura baixa a quatro graus. O vento glacial, que vai refrescar as profundezas, produz arrepios.
Primeiro poço: queda de 700 metros, numa estreita gaiola de metal. Segundo túnel, e, depois de curta caminhada horizontal, segundo poço. O ar faz-se morno. Havendo partido de 1.000 metros de altitude, eis-nos já muito abaixo do nível do mar: a espessura do mundo começa a pesar sobre nós. Certamente, métros e túneis já vos deram tal sensação. Entretanto, os ouvidos sofrem a moléstia dessa pressão repentina. Ainda hoje torno a sentir, com freqüência, a mesma angústia. Ainda hoje torno a ver aquelas macilentas figuras, de volta do seu lidar subterrâneo.
Apraz-vos descer, descer cada vez mais? Encontrareis, no túnel H, as estrebarias das mulas prisioneiras, que permanecem meses sem ver o sol. Do poço 41 em diante, o ar principia a queimar-vos as faces. O famoso poço 43: banhado de suor e dobrado sob a curvatura da abóbada muito baixa, começareis a ouvir, cada vez mais perto, o metralhar das puas elétricas. Na densa poeira, agitam-se dorsos nus, ombros enfarinhados, axilas rorejantes. De mão a mão, corre incessantemente a moringa d’água. Não toqueis nos fragmentos de rocha, recém-destacados: sua temperatura é de 57 graus. É insuportável, também, o contato do vosso olhar com essas caras, onde, ao orgulho acre de tamanha tarefa se mistura uma queixa secreta...
Lá no alto, a dous quilômetros acima dessas cabeças, como somos esquecidos, os montes, as árvores, as sociedades e as leis; lá, nas profundas, a vizinhança terrível do fogo central. Em verdade, os fantásticos seres que penam, aqui, atingem uma das raias desse mundo chato onde vivemos. Eles se evadem para baixo, como o aviador para o alto. Seus lábios desenham uma curva sequiosa.
Pesa-lhes a carga de dous quilômetros de rocha, a carga de prodigiosa espessura? Não. Eles suportam, em segredo, a carga de um mundo.
*
Três turmas de trabalhadores mergulham diariamente na mina. Dous mil e oitocentos operários labutam na superfície.
E qual o resultado, em toda a evidência mísera e terrível? Em troca de tal esforço, de tanta ciência, de tamanha dor e energia, menos de dez quilos de ouro por dia.
— Esse ouro é precioso para o equilíbrio da moeda brasileira, adverte-nos o engenheiro. O Estado compra-o em mil-réis. Remetemos as barras para o Rio, sem maiores cuidados, pela estrada de ferro. O país é tão seguro! Se fosse nos Estados Unidos, necessitaríamos de um escolta armada até os dentes.
Segurei uma dessas barras, que são de 28 quilos. Cada uma representa o labor de 4.300 homens, durante três dias, 12.900 diárias de trabalho, sem contar as somas empregadas nos edifícios e nas máquinas.
O pedaço de metal tem a forma de um cubo amarelo-claro e as dimensões de um tijolo. Incrivelmente pesado. Tão pesado que, ao peso material, parece ajuntar-se outro, misteriosamente. Todas as revelhas verdades sobre o magnífico esforço do homem, os absurdos e as injustiças que o gravam, fervem no vosso coração, quando sopesais uma dessas barras trágicas.[1932]
Ouvi nitidamente o relógio da portaria dar as onze horas. Logo, como se houvesse a regência de um contra-regra, começaram a entrar na sala os figurantes que eu sempre vi chegarem à mesma hora, durante os anos em que eu assistiria à representação diária daquele pedaço de vida. O Deolindo cortesmente ia me apresentando a cada recém-chegado. Primeiro a um cidadão de longos cabelos muito crespos e bem amansados a brilhantina. Tinha o nariz muito fino, levemente arrebitado, boca pequena, olhos miúdos e sorridentes. Vestia de escuro e seu paletó muito longo lembrava longinquamente a dignidade das sobrecasacas. Era rápido, magro e seus ombros pontudos levantavam as mangas como se fossem cabides. Sr. Mourão! Este é o Seu Nava, nosso novo colaborador. Completou: o Sr. José Cintra Mourão. O qual e eu tivemos muito prazer em nos conhecer e ele foi abancar-se à máquina de escrever onde retomou imediatamente o repiqueteio de trabalho que vinha da véspera antisdonte trasantonte de sempre que continuaria amanhã depois e depois e depois no sempre dos sempres. Outra entrada, essa de passos compassados e solenes. Sr. Horta! Esté o Seu Nava, nosso novo colaborador. Arrematou: o Sr. Antônio Carlos de Andrade Horta. Mas os senhores devem se conhecer porque são ambos estudantes de Medicina. Eu conhecia de vista e admirava de longe. Apertei comovido a mão do autor do ponto publicado na Radium e que estava me abrindo os mundos do cálculo estequiométrico. O Horta era um moço alto, moreno claro, cabelos muito lisos e bem penteados, de um castanho desbotado condizente com a pele mas contrastando com a qualidade das sobrancelhas e das pupilas muito pretas. Parecia um retrato de sépia que capricho do pintor tivesse terminado usando para os olhos o retinto dos nanquins. Vestia-se bem e quando adiantou-se para ocupar a mesa do fundo notei o ligeiro descaído de seus ombros e que o pé de seu cabelo perdia-se dentro dos atrás do colarinho da camisa de fantasia riscadinha. Sentou-se e mergulhou na leitura dum livrão que trouxera. Súbito o Deolindo tornou a sair dizendo a todos, a ninguém, às paredes, talvez a si mesmo que voltava ao Dr. Abílio. Só se ouvia na sala a metralhadora de escrever disparada numa espécie de fúria pelo Mourão.
Cerca de uma hora cavou-se um silêncio houve movimento de atenção e uma expectativa ansiosa, feito a que antecede ao estouro esperado duma bomba. Eu não estava entendendo bem aquilo. Os funcionários apressados, se levantandosse secolocandosse no caminho do Gabinete do Diretor. Só compreendi quando o vi passando numa pressa, sempre de chapéu na cabeça e carregando sob o braço a pasta volumosa. Cresceu um sussurro de simpatia e o entrechoque de bons dias! bons dias! bons dias! pra lá pra cá como o tinido de cálices nas saúdes. Mas houve um tinido mesmo, o da bandeja de café do Fortunato se embarafustando no gabinete para confortar logo o chefe com um cafezinho — antes do mesmo engolfar-se no trabalho e naquela maçada de receber as partes. Compreendi que a chegada do Dr. Libânio marcava uma pausa no trabalho. Porque depois de servir no Olimpo, o Fortunato descia à planície e vinha de sala em sala trazendo o cafezinho de cada funcionário. Quanto ele entrou na nossa foi direto à mesa do Deolindo, o primeiro a ser servido. Em seguida circulou, foi ao Mourão, ao Horta, finalmente chegou-se à minha mesa. Enquanto tomava minha xicrinha fiquei apreciando o modo como o Deolindo degustava a sua. Fazia-o lentamente, espalhando os golinhos na boca, como se fosse bochechar. Demorava um pouco, encorpando, depois engolia. Fazia isso olhos perdidos fitando sem ver pontos vagos à sua frente, na sala ou nos ares lavados infinitos lá fora. Depois voltava à realidade, preparava um palhinha e chupava-o a baforadas fortes e contínuas, tragando todas, sem tirar da boca o cigarro consumido até quase lhe queimar os beiços incendiar as guias da bigodeira. Antes de voltar ao trabalho tinha sempre conversa curta com o Mourão. Justamente àquele dia, este trouxera, para mostrar-lhe, uma verdadeira raridade. Uma carta de brasão aberta em pergaminho, passada por Dom João V ou Dom José I a um antepassado do nosso colega. Não lembro bem mas parece que eram as cores e os metais da varonia dos Ulhoa tendo, à sinistra alta, a brica distintiva. Enquanto os dois discutiam heráldica e genealogia, levantei-me e fui à mesa do Horta. Dei-lhe senhorio mas ele logo me pôs à vontade, dizendo que o tratasse pelo nome pois éramos companheiros de Faculdade. Curioso, perguntei sobre o livro enorme que ele estava lendo. Era o Testut e pela primeira vez abri os pórticos do majestoso tratado. Pasmei para suas ilustrações admiráveis. As peças amarelas do esqueleto. Sua combinação nas articulações de ligamentos brancos e sinoviais azuis. Finalmente, a carne viva dos músculos que dão vida e movimento aos diversos segmentos. Eram gravuras prodigiosas e aqueles bíceps, peitorais, gêmeos e glúteos assim perfeitos só poderiam pertencer a deuses antigos ou aos esfolados realizados pela Arte, tais os de Bandinelli, de Houdon, de Gigoli, Bouchardon, Salvage e os mais atrevidos e dramáticos — atribuídos a Miguel Ângelo. O Horta falava com entusiasmo da Anatomia, descrevia suas manhãs passadas no anfiteatro para onde corria outra vez, logo que a repartição fechava e onde ficava dissecando até a noite descer. Aconselhou-me fazer o mesmo quando chegasse ao segundo, ao terceiro ano e devo talvez àquela conversa na repartição minha paixão futura pela anatomia e indiretamente, a influência desta quando, muito mais tarde, escolhi uma especialidade essencialmente morfológica como é a Reumatologia. Nunca mais esqueci a frase do anatômico insigne e que me foi mostrada pelo colega. Aquela em que ele fecha o prefácio das sete primeiras edições do livro monumental e reclama dos médicos, um pouco mais de atenção para “...cette Anatomie Humaine, si delaissée de nos jours qui est non seulement une science utile, mais aussi une science aimable quand on la comprend bien”. A advertência tem todo cabimento: pois não tive? um assistente, formado pela Praia — que nunca empunhou o escalpelo, dia nenhum entrou num teatro anatômico, jamais dissecou um cadáver — mas que teve seu accessit na Cadeira de Descritiva.
Pedro Nava em Beira-Mar Memórias 4 Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 3ª edição. 1985.
A Dara tinha muita vontade de ir a Aparecida do Norte, em São Paulo. Ela e uma companheira combinaram e compraram passagens num ônibus fretado. Marcaram saída para 5 horas da manhã. Chegaram lá às 4 da tarde. Ela ficou dois dias e cumpriu o seu desejo. Voltou em paz e muito satisfeita, e eu também.
Ela também tinha muita vontade de ir ao Rio para conhecer o mar. Eu já tinha ido uma vez. Com o Geraldo, meu filho, eu fui à Penha, ao Corcovado e fui à praia de Copacabana, achei bom. A Dara também foi com o Geraldo e eu de outra vez. Nós fomos ao casamento da cunhada dele e lá ficamos dois dias. De lá passamos pelo Divino da Carangola para visitar o meu irmão Sebastião, que morava lá. Ele e nós ficamos muito satisfeitos. De lá voltamos. Foi uma viagem tranqüila e chegamos em paz.
Um dia uma filha da Dara convidou ela para ir à praia. Ela não deu a resposta e ficou pensando. Dias depois ela resolveu dar a resposta que queria ir que marcasse o dia para uma quinta-feira. A saída foi às 5 horas da manhã. Ela achou muito bonita a praia, não tomou banho de mar, mas ficou muito satisfeita e eu também, porque ela foi e voltou em paz, sem novidades na viagem. Outra filha convidou-a para ir à praia e foi outro passeio, igual ao primeiro e sem haver novidades.
Eu e o Antônio éramos companheiros de roça e horta e uma vez por semana, nos dias de sábado, nós arranjávamos uma carga de verdura para vender no mercado. Subindo no alto da Terra Vermelha a gente via o cemitério de Venda Nova. Lá a gente via língua de fogo e eu tinha medo, mas o Antônio não tinha, ele falava que aquilo era isalação dos corpos. E nós continuávamos a viagem com o balaio nas costas e os pés no chão.
No alto do Campo Alegre tinha uma encruzilhada. Lá eles faziam despacho: tinha galinha morta, pinga e outros objetos, mas nós não púnhamos a mão naquilo. No caminho havia uma charqueada, depósito de carne, onde os cachorros que tomavam conta vinham nos atacar, era preciso colocarmos pedras nos bolsos para afugentar os cachorros e seguir viagem. Chegando no mercado, nós vendemos as nossas verduras por apenas 6 mil e 500. Na volta para casa nós tínhamos que pegar uma carona na carroça que vendia lenha na cidade, porque já estávamos cansados. Um dia, nós fomos calçados de botina, os pés incharam e encheram de calos d’água. Tivemos que voltar descalços.
Uma segunda frente de ação específica deveria, em caráter complementar, cuidar justamente da administração dos matrimônios, para que o projeto de generalização destas famílias tivesse sucesso. Entretanto, em Minas Gerais — como em outras regiões coloniais — à inocuidade da ação eclesial em território tão vasto, somavam-se insuperáveis dificuldades institucionais que limitavam de maneira drástica a generalização dos enlaces sob legitimação da Igreja. A grande maioria da população não podia arcar com as elevadas despesas cobradas pela Igreja para realização dos casamentos. Para o trâmite dos processos eram exigidas numerosas certidões a fim de afastar os impedimentos ao matrimônio estipulados pelo direito canônico, e a possibilidade de bigamias. Com uma população extremamente móvel como era a mineira, os custos com essa burocracia aumentavam muito, pois os documentos deveriam, a princípio, acompanhar a vida dos noivos por todas as paróquias por onde passaram. Acrescido a esses custos exigia-se o pagamento do pároco para a celebração da cerimônia. Assim, a burocracia necessária ao casamento acabava por torná-lo extremamente caro e por isso, inacessível. Numa perspectiva diversa, Ronaldo Vainfas sugere que, para a população pobre e desclassificada, não seriam os obstáculos financeiros e burocráticos que impediriam o casamento. As contingências da desclassificação, como a mobilidade e a ausência de bens e ofícios, isso sim afastava esses contingentes da vida conjugal.
Ao lado desses obstáculos havia ainda a impossibilidade de estender as relações conjugais à população escrava, para quem o casamento, por exigir certa autonomia, esbarrava com o poder do proprietário, sendo uma realidade praticamente inviável, ao menos nas áreas urbanas de Minas Gerais.
Esporádicas, quase casuísticas, algumas medidas procuravam superar essas dificuldades entre os fiéis do bispado. Na sua visita a Minas, em 1745, Frei Dom João da Cruz manda que juízes eclesiásticos, párocos, ministros e oficiais não dificultem o casamento de pessoas sabidamente pobres, de quem cobravam “salários”, para que não venha a ser “a sua pobreza e miséria o impedimento por que se deixem de receber os contraentes (...)”. Em Curral del-Rei, anos mais tarde, os escravos da freguesia poderiam casar na Sé ou capelas apenas com licença do reverendo cura.
O rigor institucional da Igreja para administração desse sacramento, curiosamente, acabava por jogá-la num insolúvel paradoxo. Se lançava mão de vários instrumentos coercitivos para intervir na vida familiar da população, por outro lado, não criava mecanismos apropriados para que a população sem recursos vivesse sob a conjugalidade cristã. Ao deixar de atender, com a generalização do casamento, às demandas de grande parte da população, a Igreja evidentemente acabou por condenar o projeto de disseminar famílias legítimas.
Maria Beatriz N. da Silva, preocupada em marcar a realidade da ação eclesial no Brasil colônia, sintetizaria assim a questão: “Se o Estado incentivava a multiplicação dos casamentos em todas as camadas sociais, pois defendia o princípio de que uma nação rica é uma nação abundantemente povoada, a Igreja colocava obstáculos que só eram revirados à custa de dinheiro para os cofres eclesiásticos”.
Diante dessas limitações institucionais multiplicaram-se as relações livres e consensuais à margem do controle da Igreja.
Luciano Raposo de Almeida Figueiredo em Barrocas Famílias vida familiar em Minas Gerais no século XVIII Hucitec. São Paulo. 1997.
GUIMARÃES ROSA—Mas, entretanto, cuidado. Falei em paradoxo. De Minas, tudo é possível. Viram como é de lá que mais se noticiam as coisas sensacionais ou esdrúxulas, os fenômenos? O diabo aparece, regularmente, homens e mulheres mudam anatomicamente de sexo, ocorrem terremotos, trombas-d’água, enchentes monstras, corridas-de-terreno, enormes ravinamentos que desabam serras, aparições meteóricas, tudo o que aberra e espanta. Revejam, bem. Chamam o seu povo de “carneirada”, porque respeita por modo quase automático seus Governos, impessoalmente, e os acata; mas, pr tradição, conspira com rendimento, e entra com decisivo gosto nas maiores rebeliões. Dados por rotineiros e apáticos, foram de repente à Índia, buscar o zebu, hoje temos até zebu barroco de O.P.! Que transformaram, dele fazendo uma riqueza, e o exportam até para o estrangeiro. Tidos como retrógrados, cedo se voltaram para a instrução escolar, reformando-a da noite para o dia, revolucionariamente, e ainda agora dividindo com São Paulo o primeiro lugar nesse campo. Sedentários famosos, mas que se derramaram sempre fora de suas divisas estaduais, iniciando, muito antes do avanço atual, o povoamento do Norte do Paraná, e enchendo com suas colônias o Rio, São Paulo, Goiás e até mato Grosso. Pacíficos por definição, tiveram em sua Força Pública militar, prussianamente instruída e disciplinada, uma favorável tropa de choque, tropa de guerra, que deu o que temer, e com larga razão. E, de seus homens políticos, por exemplo, vêem-se atitudes por vezes imprevisíveis e desconcertantes; que não são anômalas, senão antes marcas de sua coerência profunda — a única verdadeiramente com viabilidade e eficácia.
Disse que o mineiro não crê demasiado na ação objetiva; mas, com isso, não se anula. Só que mineiro não se move de graça. Ele permanece e conserva. Ele espia, escuta, indaga, protela ou palia, se sopita, tolera, remancheia, perrengueia, sorri, escapole, se retarda, faz véspera, tempera, cala a boca, matuta, destorce, engambela, pauteia, se prepara. Mas, sendo a vez, sendo a hora, Minas atende, toma tento, avança, peleja e faz.
Tinha João Leite da Silva Ortiz por vizinhos: José Marques, povoador do Ribeirão dos Macacos; Bartolomeu Bueno da Silva, estabelecido no Pará; Borba Gato, no arraial que fundara depois chamado Arraial Velho, e no sítio que possuía junto ao ribeirão que vinha do Cercado; Francisco Rodrigues Penteado e seus irmãos, fundadores da Roça Grande; os irmãos Raposos, que exploraram o ribeirão desse nome e fundaram o respectivo arraial; Mateus Leme, que se estabeleceu em Itatiaiussu; Bento Pires, que senhoreou, com sua família, grandes latifúndios, que até hoje lhe conservam o nome, nas proximidades da Capital; Sebastião Pereira de Aguilar, baiano famoso, régulo temível, que se fixou em Caeté dominando toda a vasta região que ia de Bento Pires ao Sumidouro do Rio das Velhas, inclusive o Ribeirão das Abóboras, junto ao qual tinha uma fazenda como importador de gado dos currais da Bahia e da qual nasceu o arraial da Contagem, cujo nome deriva do fato de ser ali que se contava o gado importado da Bahia e do S. Francisco para pagar as taxas reais; Leonardo Nardes de Arzão e Souza, também em Caeté; José Rodrigues Betim, sua mulher, filhos e cunhados, bem como Antônio Pereira Taques, fundadores do arraial de Betim, hoje Capela Nova; Domingos Rodrigues da Fonseca, que descobriu o Ribeirão do Campo, no lugar chamado Congonhas, mais tarde Vila Nova de Lima e hoje Nova Lima; Francisco de Arruda e Saa, que se instalou com sua família nas margens do ribeirão que vinha do Cercado, nas proximidades do lugar hoje denominado general Carneiro, motivo pelo qual aquele ribeirão tomou o nome de Arrudas, o que se documenta com o seguinte extrato da carta de sesmaria publicada na Revista do Arquivo Público Mineiro, ano X, fasc. III e IV, 1905, p. 930:
Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho etc. Faço saber aos que esta minha Carta de Sesmaria virem que havendo respeito ao q’ por sua petição me enviou a dizer o Padre Manoel de Matos de Siqueira, sacerdote do hábito de S. Pedro, q’ ele suplicante estava em um sítio de roças em q’ vivia há dois para três anos, havendo de compra que fizera a José de Paiva e Alexandre Gonçalves, sito no ribeirão q’ vem do Curral d’El-Rei a desaguar no Rio das Velhas, junto a Francisco de Arruda e Sá, e porque ele suplicante tinha bastante fábrica, e carecia de matos para se alargar e acima da dita sua roça, entestando com ela está um pedaço de mato de uma e outra banda do ribeirão, queria ele suplicante haver por sesmaria mil braças de circuito, incluindo nelas a mesma roça”, etc.
Aí temos, pois, a origem do nome deste ribeirão tão nosso conhecido, que atravessa Belo Horizonte, o qual só tinha a denominação, que conserva, no lugar em que existia a fazenda de Francisco de Arruda, pois até 1894, dali para cima, os habitantes do arraial o indicavam pelas denominações dos lugares que ele banhava, tais como: Marzagão, Freitas, Cardoso, Saco, Calafate, Nogueira e Cercado. Outros o denominavam, geralmente, “Ribeirão Grande”.
Estabelecendo-se no Cercado com numerosa escravatura, dedicou-se Ortiz especialmente ao plantio de roças, criação e negociação de gado, trabalhos de engenho e, provavelmente, a faisqueiras de ouro, nos córregos. Os bons resultados de seus trabalhos foram atraindo outros povoadores.
Com o correr do tempo e devido ás excepcionais condições da localidade — ótimas pastagens, magníficas e abundantes aguadas, clima excelente, beleza paradisíaca — onde se importava grande quantidade de gado, vindo dos sertões da Bahia e do S. Francisco para o abastecimento das zonas auríferas. Cercado tornou-se um dos pontos de concentração dos rebanhos transitados pelo registro das Abóboras, onde, como dissemos, Sebastião Pereira de Aguilar tinha uma grande fazenda. Este Aguilar, em 1714, era já um velho trôpego e doente, pelo que D. Brás Baltasar, “atendendo aos seus achaques e idade, aliviava-o do encargo do governo da comarca e nomeava para substituí-lo o brigadeiro João Lobo de Macedo”.
Abílio Barreto Belo Horizonte memória histórica e descritiva história antiga Livraria Rex. Belo Horizonte 2ª edição. 1936.
A bandeira de Antônio Rodrigues de Arzão deixou São Paulo em 1692, quase certamente em abril. Em fins de junho alcançaria Itaverava, ponto geográfico de bifurcação, pois a noroeste levava ao Rio das Velhas e a nordeste e norte, acompanhando o Rio Doce, conduzia ao Cuieté (região das cuias, consoante o topônimo tupi, ao passo que Caeté significa a região das matas fechadas, de caá, floresta, donde o topônimo posterior de Mato Dentro para toda esta região). Tendo Arzão e seus cinqüenta companheiros feito roça e arraial em Itaverava para passarem a montaria, nome com que designavam a estação chuvosa, geralmente chamada de inverno, ao contrário de verão, que em vez do clima se referia à estação seca, terá sido colhido de surpresa pelos puris e seus aliados botocudos. Só lhes restou a fuga pelo Rio Doce abaixo, sofrendo pesadas baixas tanto que apenas Arzão e nove companheiros chegaram ao Espírito Santo. Nas roças de Itaverava, com parcos meios de mineração, haviam colhido 3 oitavas de ouro (cerca de 10 gramas), ouro providencial que Arzão dá a manifesto ao Capitão-Mor Regente, para merecer todo o auxílio possível, propondo-se a voltar a Itaverava, se o quisessem acompanhar com os reforços indispensáveis.
O apógrafo de Cláudio diz que Arzão era “taubateano”, tratando-se em verdade (e de acordo com o original Costa matoso) de um “paulista”, pois tinha habitação nas cercanias de são Paulo pelo lado sul, no Mboi-mirim, atual Embu, sede de uma aldeia jesuíta.
Diz Cláudio: “Chegados à Capitania do Espírito Santo, apresentou ao Capitão-Mor Regente daquela vila três oitavas de ouro. A Câmara os recebeu com agrado e lhes ministrou os víveres e vestuários de que careciam, segundo as ordens que de el-Rei tinham. Deste ouro se mandaram fazer duas memórias: uma, que ficou ao dito Arzão; e outra, que tomou para si o Capitão-Mor.” É o tema do canto 2º do poema Vila Rica.
Podemos completar a narrativa indicando que atingiriam a Vila de Vitória, o mais tardar, em janeiro de 1693. Sendo a monção (ventos e corrente marítima favoráveis na direção norte-sul) própria, voltariam para são Paulo por mar, chegando ao destino no mês de março. Acrescente-se que o fracasso da bandeira, sob o aspecto econômico, afastaria Arzão de qualquer nova iniciativa, perdendo a confiança de novos companheiros, além de ficar literalmente quebrado. Piedosamente, alega Bento Fernandes que teria chegado gravemente enfermo e que faleceria pouco depois, quando na realidade encontramos sua assinatura em vários inventários posteriores e, em 1720, um escravo seu sendo penhorado por Francisco do Amaral Gurgel em Parati “por dívidas de jogo muitos anos antes na Vila de São João del Rei”.
O adulterador do apógrafo de Cláudio esqueceu-se de que apontara Arzão como “taubateano”, pelo que a narrativa continua: “Antônio Rodrigues de Arzão, não podendo ajuntar na vila do Espírito Santo a gente que precisava para segunda vez tornar aos sertões, se passou ao Rio de Janeiro e daí a São Paulo. Nesta cidade, ferido gravemente dos trabalhos que passara, enfermou e veio a morrer finalmente, deixando encarregado a Bartolomeu Bueno (de Siqueira), seu cunhado, de continuar no descobrimento de que havia apresentado as amostras.”
Acrescentamos que era Capitão-Mor Regente da capitania feudatária do Espírito Santo, João Velasco de Molina. Na capitania feudatária de São Vicente (ex-Santo Amaro), que desde 1681 passara a ter como capital a vila de São Paulo, era Capitão-Mor Regente Manuel Peixoto da Mota (1692-1694). Na capitania feudatária de Itanhaém, o Capitão-Mor Regente é Martim Garcia Lumbria, que em 1694 nomearia Carlos Pedroso da Silveira para o cargo trienal de Capitão-Mor da Vila de Taubaté. O Rio de Janeiro era capitania da Coroa, tendo pois governador e capitão-general com ascendência sobre as vizinhas, assim comoouvidor geral com jurisdição de alçada no judiciário sobre todo o sul do Brasil. Governava-a Luís César de Meneses, que a 25-03-1693 foi sucedido por Antônio Pais de Sande, primeiro governador a dar notícia à Corte do ouro de Minas Gerais, cuja amostra insignificante não impressionou a El-Rei d. Pedro II. Deu-a de presente ao Patriarca de Lisboa. Tal amostra, quando do centenário de nossa Independência, 1922, foi oferecida ao Presidente Epitácio Pessoa pelo então Patriarca de Lisboa, voltando ao Brasil. Antônio Pais de Sande sofreria um derrame cerebral no Rio de janeiro a 6-10-1694, sendo substituído interinamente no mês seguinte pelo Cel. André Cussaco, chefe militar da Bahia.
Raimundo José da Cunha Matos
Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837)
Vol. 1. Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo.
“É esta a suma desse trabalho na parte relativa a Minas Gerais:
— População de 344 paróquias, faltando 16 — (eram então 360 as paróquias da província)
2.009.023
Sendo: livre—1.652.449;escrava—356.574
“Cumpre, porém, deixar uma observação aqui. Figurando nesse recenseamento a população escrava em 356.574 almas, verificou-se mais tarde ser ela maior. De fato a 22 de dezembro de 1876 (mais de quatro anos depois do recenseamento geral) o vice-presidente da província, Barão de Camargos, juntava, ao seu relatório dessa data, dados oficiais, colhidos nas matrículas das coletorias, atestando haver então na província 365.861 escravos. Sabido que entre estes a média da mortalidade foi sempre superior à média da mortalidade na população livre e que desde 28 de setembro de 1871 não mais nasciam escravos no Brasil, podem-se tirar duas conclusões que esses fatos justificam: 1ª, que a população servil devia atingir em Minas, no ano de 1872, a 400.000 almas; 2ª, que a diferença entre estes algarismos e os do recenseamento respectivo daquele ano pode ser aplicada, proporcionalmente, à população livre na mesma ocasião arrolada, o que eleva-a a 2.300.000 habitantes” (ob. cit., 3º vol. págs. 198, 199).
Na efeméride relativa a 22 de novembro de 1876 (ob. cit. Págs. 396 a 398 do 3º vol.) refere-se Xavier da Veiga ao relatório apresentado pelo vice-presidente da Província em exercício, Barão de Camargos, que avalia em 365.861 os escravos de Minas, discriminada por municípios. Diamantina é apresentada com 2.036 escravos e o Serro, com 9.420.
Na efeméride de 6 de janeiro de 1883 (id. ibid. 1º vol. pág. 19), baseando-se em documentos oficiais, apresenta a população de 311.666 indivíduos, distribuindo-se por municípios. Já Diamantina aparece com 7.510 escravos e o Serro com 4.473. Por esses últimos dados evidencia-se o contínuo aumento de escravos empregados nas minerações, triplicadas em 8 anos, vindos principalmente da vizinha cidade do Serro.
A lei áurea libertou cerca de 800.000 brasileiros, sendo 230.000 os escravos de Minas.
Desses algarismos ressalta que entre outras províncias, Minas possuía 20% do total, tocando ao município de Diamantina uma das quotas de maior vulto. Nada definitivo, portanto, poderá dizer-se acerca da influência negra no Brasil, antes de ser apurada a contribuição de Minas. E as culturas negras nos terrenos diamantinos dão matéria considerável a pesquisas etnográficas, lingüísticas e ainda sociológicas. Não é à-toa que a simples colheita de material folclórico abriu caminho a reflexões e achados, rumo a um estudo do elemento negro na mineração, esboço imperfeito com que acenamos à competência dos estudiosos do assunto.
Como ficou evidenciado e não é desmedido repetir, os descobertos de s. João da Chapada, últimos talvez na ordem cronológica, com certeza atraíram mais negros que todos os outros, já pela época em que se deram, já porque canalizaram as ambições de muitos mineradores que trabalhavam em sítios vizinhos. O fulgor inicial dos descobertos de S. João coincidiu com a liberdade de minerar, já então facultada por lei aos particulares. Demais, já não constituíam crime as atividades dos garimpeiros, que pouca ou nenhuma pressão sofriam por parte dos concessionários de datas diamantinas. De tudo resultou que o lugar e adjacências se tornassem centro de convergência de muitos negros, ocupados em faiscar, trabalhando a serviço de senhores e ainda, em alguns casos, minerando em alta escala, por conta própria. Não admira, pois, que fosse ativo, segundo nos informaram, o comércio de escravos para S. João da Chapada, através de intermediários que, em Diamantina, se dedicavam a esse gênero de negócio.
Nestas condições, apesar de estranho completamente à política em geral e na do Rio Grande, envolvi-me na mesma pela importância tremenda que a vitória do PSD tinha na partida idealizada.
Em Santa Maria, articulei-me logo com o Prefeito da cidade, Dr. Sevi Vieira, e com o Bispo dom José Sartori, que era um revolucionário entusiasmado. Fui convidado para um encontro na residência de Dom Sartori, a fim de expor minhas idéias e meus planos.
Compareceram o Senador Daniel Krieger, o Deputado Perachi Barcelos, o Dr. Ildo Meneghetti, o Prefeito Sevi vieira e o Dr. Dentice, Secretário da Campanha eleitoral do Governador Meneghetti.
A reunião durou mais de uma hora e aqueles políticos saíram de Porto Alegre para sentir o tonus revolucionário do Comandante da 3ª D.I.
Daquela data em diante mantivemos sempre o contato. Cada vez que eu ia a Porto Alegre, tinha encontros com alguns deles. Ou então Tadeu Onar me transmitia o que nos interessava a todos.
A par disto, comecei uma articulação pessoal com os Comandantes das Unidades de minha Divisão e com vários oficiais subordinados.
Os graves problemas de disciplina que encontrei já estavam, na maioria, solucionados.
Assim, a situação político-militar de 1961 dividiu o Regimento Mallet e produziu tamanha confusão, que o Ten. Cel. Walter foi preso.
Mas tudo estava sanado e este oficial estava no Comando interino da Unidade.
Graves incidentes verificaram-se no 8º R.I. de Santa Cruz, devido à atuação de um Comandante incompetente e sem autoridade. Providenciei sua retirada da Unidade e consegui discipliná-la com os elementos restantes. Todos estes incidentes não eram gerados apenas pelo partidarismo político de parte da oficialidade e da totalidade dos Sargentos. Não. Havia coisa mais grave. Unidades que estavam em tempo de paz há vários anos, ou pelo menos sem nenhum emprego durante as muitas crises políticas, resolvidas na cúpula, estavam como que grampeadas em seus quartéis.
Ninguém queria brigar contra ninguém.
Não há nada tão perigoso como um Exército em férias por longos anos. Perde quase completamente a combatividade e a energia restante é gasta em fazer política interna, derrubando ou empossando Governantes, mas sempre com uma conditio sine qua non: nada de combater ou de sair do seio maternal do quartel onde tem proteção, casa e comida.
Os Generais de Cúpula, isto é, Ministro — este indesejável e anti-constitucional Chefe do Exército —, os Comandantes dos quatro Exércitos, com verdadeira preponderância do I Exército, resolvem apoiar, derrubar e empossar quaisquer Presidentes da República. Eles contam apenas com a presença de tropas, e tudo é feito pelo telefone e por “Comunicados Oficiais”.
Mas, se a simples presença não resolver o assunto, podem se considerar derrotados porque a cúpula não consegue, nem jamais conseguirá, tirar tropas dos quartéis para, sob o risco de combater, garantir suas decisões.
Foi o que sucedeu ao mesmo tempo, simultaneamente, aos três Ministros Militares e ao Comandante do III Exército, em 1961.
Nem os Ministros conseguiram mover tropas contra o Rio Grande e nem o Gen. Machado Lopes conseguiria mover suas tropas tirá-las dos quartéis. Agiram exclusivamente pela presença. Afora a brilhante atuação do General Oromar Osório, que fulminante e imprudentemente, movimentou a 1ª Divisão de Cavalaria, em transporte ferroviário, em direção a Marcelino Ramos, o resto da tropa do III Exército opôs as maiores dificuldades em receber e cumprir missões.
No 19º RI de S. Leopoldo, que eu comandara em 1950, por exemplo, me informaram em Porto Alegre, 11 oficiais recusaram-se a obedecer, com a estranha alegação de serem contra a violência. O que se passou na minha Divisão, então sob o comando do bravo Gen. Pery Bevilacqua, fiquei sabendo perfeita e minuciosamente.
A Grande Unidade não chegou a ser empregada e duvido seriamente de que o Gen. Pery conseguisse lançá-la à luta, a não ser desfalcada em grande parte de seus oficiais e sargentos.
E tudo isto era natural. O pessoal permanente dos quadros do Exército — Generais, oficiais e sargentos — vive em completa disponibilidade doutrinária. O vácuo filosófico, oriundo de falta de educação conveniente, é em parte preenchido pela admiração pessoal, pela liderança carismática, tanto maior o número de adesões e o entusiasmo das mesmas quanto mais baixo o grau de cultura dos indivíduos.
É o que se passa com os Sargentos, ainda mesmo oriundos da Escola de Sargentos de Três Corações — MG, de cultura incompleta e de uma pedanteria insuportável.
Mas dedicação pessoal e admiração pelo líder não motivam suficientemente a massa para enfrentar o perigo de morte, sempre presente, naturalmente, nas operações militares.
E mais. A família e os deveres de mantê-la são poderosas amarras que neutralizam qualquer sentimento que não seja oriundo do nobre dever de morrer por uma causa filosoficamente incrustada na mente do homem.
Ora, a crise político-militar de 1961 foi subitânea, surpreendeu o Exército, bem como as demais forças, sem qualquer preparação filosófica para a defesa da democracia. A maior parte, se não a totalidade dos oficiais e sargentos, ignora filosoficamente o que seja Democracia.
Entretanto, a defesa da Democracia é tão vital quanto a da Pátria contra inimigo externo.
De fato, o homem livre não se submete a viver, mesmo no âmbito de sua pátria, em regime totalitário que não lhe assegure as condições para exercício da pessoa humana.
O homem é como os pássaros. Nasceu para a liberdade. Os pássaros criados em gaiola não sabem exercitar o vôo a médias e grandes distâncias, nem se alimentar e se defender contra os perigos.
É o escravo nato. Mas a escravidão para ele é uma condição apenas, que ele não transmite.
Se os ovos foram chocados fora da gaiola e os filhotes alimentados por qualquer processo, eles nascem livres, aprendem a voar, a se alimentar e a se defender.
General Olympio Mourão Filho em Memórias: A Verdade de um Revolucionário L&PM Editores. Porto Alegre. 1978.
A obra de Rousseau (eu não sabia) se desenrolava aos nossos olhos, à beira d’água. Os vinhedos subiam as encostas, sucediam-se nos terraços de pedra, até o alto. Os pequenos navios sulcavam, airosos, as águas largas, levando na popa a bandeira federal, vermelha e branca. Do outro lado, boiando entre água e céu, na claridade vaporosa, era a Sabóia francesa. As gaivotas se perfilavam, nos travessões de madeira dos desembarcadouros. Às vezes o silvo agudo de um barco da frota lacustre rasgava o silêncio diáfano.
Arinos dominador, de fraque e chapéu cinzento, falava aos marinheiros da lancha, imitava bichos, contava histórias de onça, ria, ria, com o seu riso simples de homem forte.
Do navio em que voltamos ao Brasil, o Cap Arcona, recordo-me com certa nitidez.
Lembro-me de um porto noturno, talvez Southampton, e de um inglês desmesurado, imenso, de capote largo e boné, no tombadilho, segurando um galgo enorme, preso à corrente. Lembro-me de meu pai, numa noite de festa no tombadilho, salvando patrioticamente a bandeira brasileira, que o vento despregara de entre as outras que serviam de cortina, e ameaçava arrojar ao mar.
Uma vez eu me escondi debaixo da cama, para comer chocolates. Cândida deu alarme e meu pai pulou de cara ensaboada para o corredor, pensando o que pensam a bordo todos os pais de filhos pequenos. Com medo do rebuliço saí do esconderijo, meio encabulado. A reação foi imediata e contraditória: minha mãe bateu-me; meu pai me beijou. Ao contrário do que diz o Evangelho de S. Lucas (que os pais não compreendem os filhos), estes é que, às vezes, não compreendem os pais.
A rivalidade entre argentinos e brasileiros ia até às crianças. Tratávamo-nos polidamente, brilhando, mentindo uns para os outros.
Em Vigo minha mãe comprou-me um capote de pele de cabra, branco, com botões de madrepérola. Todos o achavam uma beleza, em Belo Horizonte. Para mim, usá-lo era um suplício, alvo que eu ficava das chufas e dichotes de Adauto Lúcio Cardoso e outros “ignaros tupis”. A última vez que o enverguei foi numa quermesse da capela de Lourdes (hoje demolida) na Rua da Bahia. Era de noite e uma menina linda me disse: “Você está com capote de moça.” A partir de então eu esperneava tanto na hora de vesti-lo que minha mãe acabou com pena de mim.
Pouco depois de chegarmos da Europa, meu pai adquiriu a casa-grande de Copacabana, onde viveu todo o resto da vida. No meu livro sobre ele referi-me longa e saudosamente àquela mansão brasileira que foi o centro principal da nossa família, o mundo da minha infância, a partir de 1912, e, em determinados momentos, uma das encruzilhadas da História da República.
A casa ficou descrita no outro livro, mas numa descrição própria para convidado, para hóspede ocasional. Aqui desejo dar uma idéia, não do conjunto, como lá dei, mas dos aspectos íntimos, perceptíveis somente ao morador, e ao morador menino.
A primeira vez que lá entrei foi acompanhando meu irmão Afraninho, que ingressara aquele ano no Internato Pedro II, e exibia, com orgulho, a sua farda de lã azul, com penas de ouro bordadas nos dois cantos da gola alta e fechada.
A casa estava no final das obras de reforma, cheia de pintores e escadas, toda suja de caliça. Ficamos mais no jardim, à sombra da enorme amendoeira que, ao lado da varanda, abria a sua esplêndida umbela.
O terreno pareceu-me magnífico, com sua cerca de guaco, o seu sólido caramanchão coberto por uma trepadeira aberta em flores azuis, as estrebarias para cavalos, a cocheira para carruagens, complementos estes necessários em residência que vinha de tempos anteriores ao uso do automóvel.
Quando nos instalamos é que comecei a observar e a explorar melhor o pequeno mundo.
Na frente, a sala de música, pintada em fundo verde, com aplicação de liras brancas. Seguia-se o salão de visitas, com duas portas de sacada e duas janelas sobre o jardim, um grande lustre e o teto abaulado e estucado. Depois, a sala de entrada, o salão de jantar, com pinturas a óleo, representando paisagens e animais, bem ao gosto português. Junto a este ficava a capela, cujo teto era também abaulado, e as paredes pintadas de um vermelho arroxeado, com decorações superpostas, representando o cálice, a hóstia e as letras I.N.R.I.
Os quartos se enfileiravam, numerosos, e havia ainda uma sala de almoço, com outras pinturas coloridas, inclusive um papagaio, que meu pai, durante a primeira guerra, dizia parecer-se com Clemenceau.
Nas paredes das salas entesavam-se bicos de gás, com mangas, embora já estivesse instalada a rede de energia elétrica.
Aliás a casa toda respirava essa espécie de transição entre o século XIX e o atual.
As louças e aparelhos sanitários eram azuis, de ramagens, fabricados na Inglaterra. Ainda me lembro dos dizeres impressos numa das pias: “Bruslen, Dalton & Co. Lambeth — London”.
Havia, na cozinha, uma bomba de água movida a mão, e a despensa parecia mais de casa rural, com o seu painel de zinco provido de ganchos de açougue, as sólidas e espaçosas prateleiras, capazes de armazenar sacos de cereais. Tudo era mais ou menos nesse gosto: amplo, robusto, antiquado. Embaixo ficava a biblioteca de meu pai, ocupando o salão da frente e duas peças laterais. No fundo a lavanderia e instalações de empregados.
Eu fazia as minhas descobertas.
Os restos de uma antiga fossa, desprezada desde a instalação da rede de esgotos, transformaram-se na entrada de um subterrâneo, que levaria até o mar.
No soalho da sala de jantar, bonito como os demais, de frisos brancos e escuros formando desenhos, havia um pequeno pedaço solto, que cedia à pressão dos dedos. Parecia-me existir, ali, o mecanismo de abertura de algum secreto alçapão. Mais de uma vez, estando sozinho, ajoelhei-me no chão e pressionei a madeira, à espera de ver abrir-se a porta maravilhosa.
No jardim, além do viveiro de pássaros, cruzavam soltas as aves de luxo, muito estimadas pelo dono da casa. As garças brancas, os marrecos irerês, os guarás ou colheireiros, de um róseo carminado, os jacamins bronzeados, com brilhos roxos na penugem da cabeça. Todos circulavam tranqüilamente, sem receio dos cachorros, com os quais se mantinham em convivência pacífica.
Um socó (joão-grande ou joão-bobo), apesar de suas proporções, nada tinha de majestoso, pois arrastava tristemente uma perna anquilosada e defecava com método sobre a pata doente, que ficava coberta de uma espessa crosta alvacenta. O velho deputado paranaense Correia de Freitas, sábio e inocente, conhecedor profundo de bichos e plantas, explicou-me uma vez que o triste pernalta evacuava sobre o pé porque o calcário contido no excremento era útil à cura da sua enfermidade. “Milagres são estes da Natura”...
Cavalos também havia. Tínhamos o Jack, castanho-escuro, de pescoço largo e anca roliça, e a nervosa Margot, alazã dourada, vinda da Argentina, dada de presente a Virgílio por Lineu de Paula Machado.
Em certo momento tivemos também o Missouri, belo e bravo garanhão importado dos Estados Unidos, dádiva não sei de quem, creio que de Estácio Coimbra. Este não chegou a vir a Copacabana. Meu pai presenteou-o ao Conde Modesto Leal, em cuja esplêndida mansão, nas Laranjeiras, o vi mais de uma vez.
As praias, principalmente as de Ipanema e Leblon, tinham pouco movimento, e serviam como pistas de equitação. Eu, com o passar dos anos, cheguei a ser sofrível cavaleiro.
No terreno lateral da casa (onde mais tarde se construiu a de minha irmã Zaide), colocávamos obstáculos de salto, que Virgílio e eu transpúnhamos no lombo do Jack.
Certa vez a Margot disparou comigo na praia do Leblon, assustada por um pequeno cachorro que a mordeu, ou ameaçou morder, em uma das patas traseiras. Égua de pólo, deu dois ou três galeios e despregou na corrida. Vendo que a não continha no impulso, segurei-me bem na sela e deixei-a galopar. Parece que ainda sinto o vento salino no rosto, o esguio animal roçando, com as patas leves, a areia úmida, na fímbria do mar. Aos poucos ela foi se aquietando, se cansando, e, bem antes do fim da praia, já diminuía o ímpeto, para acabar domada, com súbitos repelões de músculos e arrepios de pêlo, as orelhas em riste, a boca e o peito espumando de saliva e suor.
“Os processos de ensino foram, certamente, responsáveis por este fabuloso movimento musical. Sabe-se que desde o século XVII eram expedidas autorizações para que os mestres-de-capela abrissem escolas de música. Estes mestres sabiam exatamente como formar e que tempo gastar na formação dos músicos de que necessitavam. Nos primeiros anos do século XVIII, o Bispo do Rio de Janeiro já determinava que aos mestres-de-capela de Minas não fossem dados mais encargos além do de ensinar solfa aos rapazes. Deste modo, os mestres de música dividiam-se entre os trabalhos de composição e direção das obras e conjuntos e a formação de novos instrumentistas, cantores e compositores. A casa destes mestres era a escola de música, o conservatório. Lá eles recebiam aprendizes (como os mestres das outras artes), aos quais, muitas vezes, davam hospedagem, vestuário, alimentação e educação, incorporando-os paulatinamente às corporações musicais, na medida do desenvolvimento dos aprendizes e das necessidades dos conjuntos musicais. Eram escolas privadas, mas que recebiam apoio do governo, na forma de ajuda financeira dada ao Professor da Arte da Música. Infelizmente, não ficaram documentos sobre a orientação pedagógica dos mestres mais antigos; mas, a julgar por depoimentos de músicos que foram discípulos de mestres do século XIX, o processo de aprendizado girava em torno de três pontos: iniciação teórica e técnica instrumental (desenvolvimento da leitura e do manuseio do instrumento), prática de conjunto (participação nas atividades da corporação, desde que conseguido o mínimo indispensável de leitura e técnica instrumental, com forte dose de responsabilidade), e desenvolvimento musical (feito no contato direto com as obras executadas). Como tônica, formação musical rápida, prática e de acordo com as necessidades concretas do local; para os compositores, observação e análise de obras de outros autores, escrita e execução de suas próprias obras, compostas também de acordo com as necessidades (o que explica a existência, ainda hoje, em algumas cidades, de compositores autodidatas atuantes e funcionais, que escrevem para ocasiões e agrupações musicais bem determinadas). A ação destes mestres foi decisiva também para o desenvolvimento da ópera, uma vez que, por ordem de 1770, os regentes eram obrigados a incluir nas agrupações religiosas músicos da casa da ópera, “para se dextrarem”.” (“A Música em Minas Gerais – Período Colonial” — F. Curt Lange).
A 11 de julho de 1788, tomava posse do governo da Capitania, Luís Antônio Furtado de Mendonça, Visconde de Barbacena.
A tragédia da Inconfidência lançou sobre a memória desse homem uma sombra tão tétrica que o historiador sente o natural receio de deixar-se arrastar por alguma paixão, ao criticar os atos do mesmo.
A situação era grave e exigia um administrador hábil, ao mesmo tempo conciliador e firme, capaz de atrair as simpatias do povo sem lhe tolerar os excessos, que se animasse a contrariar as tendências da metrópole nas medidas absurdas que ela costumava tomar, sem deixar relaxarem-se os laços que prendiam a colônia aos senhores legítimos da terra.
Ora, na realidade, bem pesadas as cousas, não estava o Visconde de Barbacena à altura dessa missão. Não era o homem talhado para o momento. Governou Minas Gerais até o ano de 1797.
Já então o déficit no pagamento do quinto, somando os atrasados, montava a 528 arrobas de ouro, ou seja 3.305:472$000, a 1$500 a oitava. Essa importância devia ser paga por todos, mineiros ou não, por meio da derrama.
Longe de cogitar dessa situação aflitiva em que se debatia o povo, só teve o novo governador em presença as instruções de que vinha munido.
Antes de mais nada, tratou de fazer um exame do estado financeiro da Capitania e reuniu em Vila Rica a Junta da Fazenda, para que examinasse todas as contas, ordens e mais papéis existentes, para dar de tudo minucioso relatório. Tratou asperamente o Intendente Fiscal de Vila Rica, que era o Procurador da Fazenda e membro da Junta, por causa do contrabando do ouro. Também a Câmara de Vila Rica e os procuradores de outras Câmaras foram chamados à presença do General Visconde, e tiveram de ouvir severas admoestações do mesmo, que lhes lançou em rosto todos os desvios e prevaricações na Capitania, as faltas da cobrança dos impostos, de que resultara, em última análise, aquele elevado atraso nos pagamentos. Essas medidas eram de molde a sobressaltar o povo e dar-lhe a convicção de que a sua hora havia soado.
O Visconde residia habitualmente em Cachoeira do Campo, a quatro léguas a nordeste da Capital da Capitania. Era esse um ponto de relevância, pelo cruzamento ali de algumas das mais importantes estradas da Capitania.
O Governador Martinho de Mendonça ali construíra em aprazível situação uma excelente moradia, mais tarde embelezada por D. Rodrigo José de Menezes, com grandes pátios para criações, com jardins, pomares, um lago artificial etc., vindo a água de grande distância.
O mesmo citado D. Rodrigo construíra a nova estrada de Vila Rica a Cachoeira, em substituição à antiga que passava pela cumeada da serra. A nova estrada, que segue pela encosta da Serra de Ouro Preto, foi magnificamente construída, como se pode avaliar ainda hoje pelos cortes abertos nos flancos da montanha, pelos paredões, aterros, calçadas etc. Ainda hoje, apesar das múltiplas reconstruções e estragos, pode-se-lhe reconhecer facilmente a feição primitiva.
No meio do caminho, entre Vila Rica e Cachoeira do Campo, foi construído um grande chafariz, com bebedouro para os animais, tendo sido captadas do alto da serra excelentes águas. Na fachada do chafariz, lê-se ainda a inscrição, indicando ter sido o mesmo construído pelo “Ilmo. e Exmo. Sr. D. Rodrigo José de Menezes, Governador e Capitão General da Capitania, em 1782”.
Um outro prédio encontrava-se também em Cachoeira — o quartel das tropas, mandado construir por D. Antônio de Noronha, em 1779.
Era, pois, Cachoeira do Campo uma localidade de grande importância. Foi cenário histórico nas lutas entre paulistas e emboabas, na revolta de 1720, na Inconfidência Mineira e na revolução de 1842. O Conde de Assumar pensou em transferir para lá a Capital da Capitania, resolvendo assim o problema que nos preocupou tanto e que só encontrou solução cento e setenta anos depois. Não lho permitiu o governo da metrópole.
Os terrenos e jardins em questão foram cedidos pelo governo do estado, em boa hora, aos beneméritos salesianos. No antigo quartel, reformado e melhorado, estão as Escolas Dom Bosco. O velho palácio do Visconde de Barbacena, por imprestável, dado o seu estado, foi demolido, sendo construído no seu local o Colégio de N. S. Auxiliadora, dirigido pelas Irmãs Salesianas. Os vestígios do lago e do canal são bem visíveis ainda.
Ali, nesse palácio, vivia o Visconde de Barbacena, a criar galinhas, cabras e porcos, sob as mais pacíficas aparências, embora com os olhos bem abertos e o ouvido sempre à espreita. Parecia um homem tímido. Diziam-no, porém, dissimulado. E o era. O autor dos “Últimos Momentos dos Inconfidentes de 1789” pergunta como pôde o Visconde de Barbacena excitar tanto ódio, não tendo feito extorsão alguma nem governado Minas como Calígula a Roma; e acrescenta: “O humor melancólico deste General o fazia de não fácil acesso (se é que não era sistema político.)”
O Cônego Luís Vieira, um dos Inconfidentes, dissera que o Visconde estava ensaiando para diplomata.
Diplomacia, política ou perversidade, o certo é que o resultado foi mau.
A 15 de março de 1789, comparecia no Palácio de Cachoeira do Campo, o coronel Joaquim Silvério dos Reis, para delatar ao Visconde de Barbacena, o plano da Inconfidência. Sempre desconfiado, exigiu o general que a denúncia lhe fosse apresentada por escrito. E foi o que fez o dito Coronel, em documento datado de Borda do Campo, 11 de abril de 1789, tendo, porém, no alto, uma nota do próprio punho do Visconde de Barbacena, na qual se diz: “Escrita na Cachoeira e entregue pessoalmente no dia dezenove de abril.” Foi o desencadear da tormenta.
Lúcio José dos Santos em A Inconfidência Mineira papel de Tiradentes na Inconfidência Mineira Escolas Profissionais do Liceu Coração de Jesus. São Paulo. 1927.
Mas vem um tempo em que, de vez, vira a virar só tudo de ruim, a gente paga os prazos. Quem disse foi o vaqueiro Saluz, que não se esquecia da estória do Patori, e também perdeu um pé de espora no campeio, e Siàrlinda achou um dinheiro que ele tinha escondido dela em buraco no alto da parede, e ele estava com dois dentes muito doendo sempre, disse que hemorróida era aquilo. Depois o Dito aprovou que o tempo-do-ruim era mesmo verdade, quando no dia-de-domingo tamanduá estraçalhou o cachorro Julim. Notícia tão triste, a gente não acreditava, mas Pai trouxe para se enterrar o Julim morto, dependurado no cavalo, ninguém que via não esbarrava de chorar. Foi na caçada de anta. Pai não querendo contar: o tamanduá-bandeira se abraçou com o Julim, primeiro estapeava com a mão na cara dele, como tamanduá dá sopapos como pessoa. Daí rolaram no chão, aquela unha enorme do tamanduá rasgou a barriga dele, o Julim abraçado sangrado, não desabotoou o abraço — abriu os peitos, ainda furou os olhos. Zerró não pôde ajudar, nem os outros. Pai matou o bandeira, mas teve de pedir a um companheiro caçador que acabasse de matar o Julim, mò de não sofrer. Nem não deviam de ter ido! Não eram cachorros para isso, anteiros eram os de seo Brízido Boi, que caçou também. E nem a anta não mataram; ela pegou o carreiro, furtou o caminho, desbestou zureta chapada a fora, fez sertão, cachorro frouxou, com a anta, que frouxou também; mas não puderam matar. Aquele dia, Pai adoeceu de pena. Depois, Zerró e Seu-Nome percuravam, percuravam, os dois eram irmãos do Julim. Só o Gigão dormia grande, não fazia nada; e os paqueiros juntos, que corriam por ali a quatro, feito meninos sem juízo: Caráter, Catita, Soprado e Floresto.
Marimbondo ferroou Tomezinho, que danou chorou, Vovó Izidra levou Tomezinho na horta, no lugar ofendido espremeu joão-leite, aquele leite azulado, que muito sarava. Mais isso não era coisa nova por si, sempre abelha ou avespa ferroavam algum, e a lagarta tatarana cabeluda, que queima a gente, tatarana-rata, até em galhos de árvore, e toda-a-vida a gente caía, relava os joelhos, escalavrava, dava topada em pedra ou em toco. Pior foi que o Rio-Negro estava do outro lado da cerca, lambendo sal no cocho, e Miguilim quis passar mão, na testa dele, alisar, fazer festas. O touro tinha só todo desentendimento naquela cabeçona preta — deu uma levantada, espancando, Miguilim gritou de dor, parecia que tinham quebrado os ossos da mão dele. Mãe trouxe a mula de cristal, branquinho, aplicou no lugar, aquela friura lisinha do cristal cercava a dor para sarar, não deixava inchaço; mas Miguilim gemia e estava com raiva até dele mesmo. O Dito veio perto, falou que o touro era burro, Miguilim achava que tinha entendido que o Dito queria era mexer — minha-nossenhora! — nem sabia por que era que estava com raiva do Dito: pulou nele, cuspiu, bateu, o Dito bateu também, todo espantado, com raivas — “Cão!” “Cão!” — no chão que rolaram, quem viu primeiro pensava eles dois estivessem brincando.
Quando Miguilim de repente pensou, fechou os olhos: deixava o Dito dar, o Dito podia bater o tanto que quisesse, ele ficava quieto, não podia brigar com o Dito! Mas o Dito não batia. O Dito ia saindo embora, nem insultava, só fungava; decerto pensava que ele Miguilim estava ficando doido. Quem sabe estava? Desabria de vergonha, até susto, medo. Carecia de não chorar, rezar a Deus e cr’em-deus-padre. Não achava coragem pronta para frentear o Dito, pedir perdão — podia que tão ligeiro o Dito não perdoasse. E então Miguilim foi andando — a mão que o Rio-Negro machucou nem não doía mais — e Miguilim veio se sentar no tamborete, que era o de menino de-castigo. A vergonha que sentia era assim como se ele tivesse sobrado de repente ruim leve demais, a modo que todo esvaziado, carecia de esperar muito tempo, quieto, muito sozinho, até o corpo, a cabeça se encher de peso firme outra vez; mais não podia. Aquele castigo dado-por-si decerto era a única coisa que valia.
E assim será sempre. Jamais se ajustarão os pontos de vista entre os homens da caserna e a massa dos profissionais da política. Quando isso acontece, em casos muito restritos, não há dúvida de que um ou outro está em lugar errado.
Ademais, iria intervir um outro fator — o cunhado. Detentor do governo de um grande estado, com as possibilidades e os recursos advindos do cargo e, aparentemente, portador da verdade, iria galvanizar o apetite dos interesseiros, encorajar os tímidos, sugestionar os indecisos, encher de dúvidas os bem-intencionados, fomentar a discórdia e, principalmente, semear a divisão nas Forças Armadas. Apossou-se logo de uma palavra sonora e cuja magia traz em si tanta força e tal sentido que, dificilmente, será possível encontrar meios de combatê-la — “legalidade”. E pela técnica da insistência e da repetição fez vingar a tese de que qualquer decisão contra Jango era contrária à lei, ainda que partida do mais alto escalão representativo do país e, por isso mesmo, com poder e qualidade para agir. Usou, como razão última e decisiva, que pretendiam nada menos que o esbulho da vontade do povo consagrada nas urnas, transformando uma escolha para funções meramente decorativas em ato formal e imperativo, não dando tempo para a percepção de que, em nosso sistema, ninguém encara a Vice-Presidência dentro de um clima de sucessão do Presidente. Tem sido sempre um prêmio de consolação, uma forma de compor interesses, de satisfazer caprichos ou vaidades, sem compromissos. E, o que é pior, para dar aparência de atenção à classe mais numerosa e menos favorecida de nossa população. Um recurso, como a chupeta na boca dos recém-nascidos. Explorou, ao máximo, a índole buliçosa do gaúcho e fez dela o espantalho para dar corpo à ameaça do recurso às armas. Teve êxito. Empolgou a opinião pública e, no setor militar, conseguiu com suas bravatas verbais assustar o comandante do III Exército, General José Machado Lopes. Este, entre as duas alternativas — choque imediato com Brizola para fazer silenciar a rádio, que ele transportara para o palácio do governo, ou adiamento do encontro que sua atitude iria tornar mais que improvável — optou pela segunda. Não mediu as conseqüências e nem sentiu que em suas mãos esteve pendente a sorte do país. Faltou-lhe aquele lampejo, que Deus raramente concede, mas de que usa para definir os eleitos. Procedeu dentro da mediocridade, não compreendendo seu papel ou não tendo ânimo para desempenhá-lo. Talvez receoso de não contar com o apoio da tropa por lhe faltarem as condições imanentes da chefia. Daí ter-se acomodado. Outros o têm feito. Mais tarde, sentindo o erro, entregaria ao Museu Farroupilha a espada de ouro que lhe foi ofertada por não ter sabido usar a de aço que a nação lhe confiara.
Por ocasião dessas ocorrências, encontrava-me em Juiz de Fora, em gozo de férias. Transferido do comando da ID/4 para o do Colégio Militar de Belo Horizonte, não o aceitara. Desde a posse de Jânio e durante seu período de governo, tinha a convicção de que alguma anormalidade ainda indefinida, mas certa, iria sobrevir, e não estava em meu propósito ficar à margem dos acontecimentos e sim em condições de neles influir. Permanecer como espectador seria, sem dúvida, bem mais cômodo e sem riscos, possibilitando uma opção dentro da conveniência. Porém essa atitude não se ajustava às responsabilidades que considero inerentes aos que, no Brasil, atingem o posto de general. Cedo, incutiram em meu pensamento que o soldado não as deve temer. Quando, por minha vez, ensinei, o fiz de maneira diferente. Minha tese foi a de amar as responsabilidades. Em meu entender, nessas três palavras se condensam todas as virtudes militares, principalmente para aqueles que aspiram ser verdadeiramente chefes. De nada adiantam sentimento do dever, disciplina, dedicação, espírito de sacrifício, de camaradagem, abnegação, correção de atitudes, lealdade, bravura, dignidade, coragem, se, na hora precisa, faltar aquela força íntima que nos leva a tudo afrontar, sem outra consideração senão a imposta pela missão a cumprir, assumindo, integralmente, o papel que nos cabe exercer. E isto é possível somente para os que agem com amor e por amor. Nunca para os que temem. Se nos acostumamos à idéia de temer, insensivelmente reconhecemos razões de temor. E haverá sempre uma justificativa de inação, uma transação de consciência, que nos leva a acreditar certa uma atitude de conformismo, com a qual esperamos ser julgados, na ilusão de nos acharmos face a contingências de impossível transposição.
Carlos Luís Guedes em Tinha que Ser Minas Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1979.
Erudito e talentoso, mas igualmente ressentido, Eduardo Frieiro se comprazia em distribuir cutiladas literárias, embutindo em seus romances alusões a gente de carne e osso. Suas histórias à clef não poupavam sequer os amigos, como o jornalista e escritor Moacyr Andrade, colega de redação no Minas Gerais.
Pelos anos 20 ou 30, Moacyr embrenhou-se num caso de amor com uma senhora casada. Quando a história se tornou pública na provinciana capital, o marido, um iugoslavo, foi procurar o jornalista, de quem era conhecido. E foi breve em sua exposição, lembra-se um contemporâneo: pediu ao usurpador que não voltasse a se encontrar com sua mulher — “senão”, preveniu, “mim darr um tiro em você”. A ameaça não impediu que o caso se arrastasse, sem tiroteio, por uns bons anos.
Moacyr, nas águas desse amor, se abria em confidências com Frieiro — sem saber que este, na primeira esquina, registrava tudo em seu caderno de anotações. O jornalista só se deu conta da apropriação de seus segredos amorosos quando, em 1936, chegou às livrarias o romance O Cabo das Tormentas, de Eduardo Frieiro: lá estavam, em letra de fôrma, não apenas passagens como frases inteiras que havia confiado ao amigo.
Os arraiais lítero-mundano-jornalísticos de Belo Horizonte não tiveram o menor trabalho para reconhecer Moacyr Andrade nos traços de Sesino de Souza, cidadão que, na virada dos quarenta anos — o “cabo das tormentas” do título —, se apaixona por Isabel, Belinha, “a que veio ao mundo carregada de eletricidade sexual”. Professora primária, ela é casada com o húngaro Leo Vikar, vinte anos mais velho. Vikar não chega a darr um tiro em Sesino, mas a história, ainda assim, acaba em tragédia, com Belinha se jogando de uma janela.
O romance de Frieiro foi lido, decifrado e comentado com enorme interesse. Mineiramente, ninguém ousou estabelecer por escrito as óbvias correspondências entre ficção e realidade. Quanto a Moacyr Andrade, aparentemente não se agastou com a exposição de sua vida íntima nas páginas de O Cabo das Tormentas. Preferiu rebater com as mesmas armas, enfiando o amigo na trama de um romance, Memórias de um Chauffeur de Praça,publicado em capítulos no Estado de Minas e, muito mais tarde, em 1964, sob a forma de livro.
Ao contrário de Sesino de Souza em O Cabo das Tormentas, o Everardo Loureiro das Memórias é uma personagem secundária. Impossível duvidar de que seja Eduardo Frieiro o “cavalheiro baixo, de terno admiravelmente engomado”, que, nas primeiras páginas do livro, numa redação de jornal, se põe a gritar: “Energúmenos! Energúmenos!” com os revisores, que haviam maculado um texto de sua lavra. Mais adiante, Loureiro/Frieiro investe contra a ignorância no Brasil, país onde todos, à exceção de Machado de Assis, “escrevem pessimamente”; e confessa que ele próprio produz “pouco e raramente, porque não reconhecia em nosso meio leitores capazes” para as suas obras.
Moacyr Andrade, que ficara impressionado com a exatidão com que Frieiro reproduzira suas confidências em O Cabo das Tormentas, passa recibo em seu romance: conta que Everardo Loureiro, tendo ido consultar-se com um especialista em problemas da próstata, acabou ouvindo um relato pormenorizado das aventuras amorosas do médico. “De posse de todo esse material do outro”, lê-se nas Memórias, “o Loureiro abandonou o consultório e publicou a vida do médico inteira em livro. Aproveitou as narrações com a fidelidade de um gravador de som [...] O escritor não alterou, sequer, as palavras que usara o médico em suas fluentes narrações verbais.”
2) REZENDE — Larga descendência da família Silva Xavier liga-se pelos laços do casamento com a família vizinha da região do Rio das Mortes — os Rezende, que teriam dois de seus membros mais antigos envolvidos também nas malhas da Conspiração Mineira: José Rezende Costa, pai e filho. O filho, cumprida a pena do degredo, voltou ao Brasil, sendo constituinte e deputado geral no Império. O pai, que morreu no exílio, provém de um dos principais mineradores e latifundiários da antiga comarca do Rio das Mortes, em Lagoa Dourada, e deixou importante descendência política que no tempo, pelos diferentes laços de casamento, veio-se apelidar Rezende Alvim, Assis Rezende, Rezende Monteiro, Rezende Chaves. Os Rezende Costa, Rezende Alvim, Assis Rezende, Rezende Monteiro estão presentes em todos os acontecimentos políticos do Império e da República, nas assembléias legislativas, na administração municipal, provincial, central, até os nossos dias. A eles vieram acrescentar os Ribeiro de Rezende, os Silva Rezende, os Ferreira de Rezende, pelos casamentos de irmãos do inconfidente Rezende Costa, ligando-se, em seguida, aos Junqueiras, Tostes, Monteiro de Barros, Monteiro Lins, Vieira Silva Pinto. Alguns nomes dessa vasta parentela têm papel de decisivo destaque nos acontecimentos políticos do Estado e do país. Assim, Estevão Ribeiro de Rezende, Marquês de Valença, sobrinho do inconfidente Rezende Costa, vem a ser deputado, senador, ministro do Império, conselheiro de Estado. Seus irmãos exercem cargos políticos nas câmaras municipais, na assembléia da província. Um de seus sobrinhos, Joaquim Leonel de Rezende Alvim, foi dos mais ativos propagandistas da República, constituinte de 91, deputado federal em várias legislaturas republicanas. Há ainda, como sempre houve, desde o Império, elementos da família nas assembléias representativas, nos postos de administração. Nos municípios de sua maior concentração ou de origem, estão eles em firme atividade do comando político, como em Cataguases, Lafaiete, Nova Rezende, Rezende Costa.
Bituca se tornou contrabaixista por uma questão de sobrevivência. Wagner tinha sido taxativo:
— Tem de ser! Ou então não consegue o emprego. Vamos ser eu, você e o Paulinho Braga. Berimbau Trio. Você é o contrabaixista. De “canário” eles estão cheios.
E lá se foi Bituca, que nunca tocara baixo na vida, ser o dito cujo do Berimbau Trio e ganhar uns trocados na boate Berimbau. Inaugurada exatamente na noite do golpe: 31 de março de 64, por Antonio Morais, o Bolão, a casa era especializada em jazz e ficava na sobreloja do Edifício Arcângelo Maletta. O Maletta era o reduto dos notívagos e boêmios de Beagá. Ali funcionavam, espalhados pelos corredores do térreo e da sobreloja, dezenas de bares, restaurantes e inferninhos. Durante o dia apresentava um movimento comercial recatado, digno de suas livrarias e escritórios de representações, lojas de armarinho. Um de seus blocos era residencial, com entrada à parte. À noite, porém, as galerias do edifício eram invadidas por hordas e clãs de artistas, músicos, jornalistas, prostitutas e bêbados de variados escalões que ocupavam todas as mesas disponíveis no local. Quem pisava no Maletta depois das seis tinha uma reputação a zelar. Ou a perder, mais freqüentemente.
Onze horas da noite. Estávamos tomando um ar, era intervalo do set. Pensando bem, aquela era a primeira vez que ficávamos a sós. Bituca tinha saído sozinho e eu tinha vindo atrás.
— Você está diferente hoje — notei.
— Estou mesmo. Estou sentindo um frio na barriga.
— Está passando mal.
— Não é isso. Estou esquisito.
— Está triste.
— Nem alegre nem triste. Esquisito.
— Você tem é que compor. Parar de cantar coisa dos outros. A coisa mais rara do mundo é originalidade. E isso você tem de sobra. Vcê é um compositor. Vai fazer as músicas dos meus filmes.
— Compor é uma coisa muito séria, bicho.
— Mas nós somos jovens e temos obrigação de transformar essa cidade.
Aliás, a juventude tinha obrigação de transformar, não só a cidade, o planeta inteiro; a esperança de um novo tempo não era coisa para ser só cantada em prosa e verso, mas para ser construída com o risco da própria vida; eu falava sem parar, primeiro porque estava ligeiramente bêbado de Pernod e segundo porque tinha cada vez mais certeza das coisas que ia falando. Por exemplo, mesmo ali na minha frente, Bituca. Os arranjos que criava para músicas alheias eram algo inédito, profundamente original e estranho, não se pareciam com nada que alguém pudesse ter ouvido antes. Tinha de tudo ali, Yma Sumac, carro de boi, vento no cafezal, Miles Davis, Tamba Trio, Nelson Gonçalves, hino católico, trilha de faroeste, e ao mesmo tempo não tinha nada, só Bituca e sua voz retinida de taquara não-rachada, animal extraterreno enjaulado a força, e no entanto capaz de doçura de manga, de fruto suculento. Original.
Bituca nem ouvia mais:
— Cuidado com a veinha.
— Hein?
— Vai estourar essa veia de tanto falar.
Só para me irritar.
— Você prestou atenção no que eu disse?
— Você está é de fogo.
— Mas falo a verdade. Se você quiser, você compõe. Olha aqui, bicho. O que é que é isso aqui: “Papa paia...” — cantarolei um pequeno trecho do arranjo vocal que tanto me fascinara certo dia. — O que isso tem a ver com “o morro não tem vez...” — e aí cantei o trecho do samba.
— Nada — respondeu Bituca, começando a sorrir. — Não tem nada a ver.
— Seus arranjos são mais bonitos do que as músicas que você escolhe para arranjar. Encare a realidade, bicho. Você não é um datilógrafo.
— Escriturário — Bituca corrigiu. — Escriturário. E sou um datilógrafo danado de colosso.
— Que seja, pô. Você não é um burocrata que vai passar a vida atrás de uma máquina de escrever nesta cidade horrorosa, é? As pessoas se mobilizando para criar um mundo novo, derrubar as tiranias e você lá obedecendo às ordens do Capitão César...
Márcio Borges em Os Sonhos não Envelhecem histórias do clube da esquina Geração Editorial. São Paulo. 1996.
Em todo o território mineiro é este o sítio de tradições mais horrendas e sinistras, como o próprio nome está indicando.
A traição mais vil e negregada de que há memória na História de Minas, foi a que se praticou nesse sombrio recanto. Muitos anos já são passados, quase dois séculos, mas o nome de Capão da Traição não se apagou, nem nunca se apagará da lembrança dos povos.
Foi o caso que a Capitania de Minas Gerais era nessa época assolada por uma guerra conhecida por Guerra dos Emboabas, — guerra que já vinha de muito tempo, travada pelos filhos do país contra os forâneos, que tinham o apelido de emboabas. Foi-lhes posto esse nome (que em língua indígena quer dizer pinto calçudo), porque os portugueses usavam comumente umas botas de cano alto.
Depois de muitas peripécias, que seria longo enumerar, os nossos, resolvidos a expulsar os forâneos do Rio das Mortes, cercaram o arraial da Ponta do Morro (hoje cidade de Tiradentes). Tiveram, porém, de desistir do cerco, porque contra eles foi mandada uma força muito superior em número.
À vista disso os nossos, depois de levantado o cerco, deliberaram retirar-se, seguindo viagem a caminho de São Paulo.
Em sua retirada aconteceu que um pequeno bando, distanciado de seus companheiros, acertasse de procurar abrigo em soberbo capão de mato, o qual ficava em meio de formosa campina, banhada a poucos passos pelo Rio das Mortes. Esse bando era comandado pelo cabo Gabriel de Góis.