ALMANAQUE MINEIRO

“Só e no mais: sem ti, jamais nunca.” João Guimarães Rosa

Sexta-feira, Julho 10, 2009

 

ALMANAQUE MINEIRO


FREGUEZIA DE ROÇAS NOVAS.


Foi creada pelo § 8º do art. 1º da lei provincial n. 209 de 1841. Seus habitantes dedicão-se muito á agricultura e criação. Tem optimos mattos e campos. A sua população orça por 3.684 habitantes que dá 307 votantes e 7 eleitores. Deveo sua origem á antigos e ricos fazendeiros que por sua conta edificárão em 1748 um templo dedicado a N. S. Madre de Deos e que hoje serve de Matriz. Pertenceo antigamente ao districto do Pompeo, donde foi desligado em 1810. Confina á leste com o districto do Bom Jesus do Amparo em distancia de trez e meia leguas; ao oeste com a freguezia da Lapa do termo de Sabará donde dista trez leguas; ao sul com a séde do municipio, villa de Caethé, e pelo norte com a freguezia de Taquarussú.


Foi a origem desta povoação á influencia de fazendeiros antigos, que edificárão um templo, cujo orago é N. S. Madre de Deos, no anno de 1748.


Compôe-se deste só districto, o qual pertenceo ao districto do Pompeo, e em o anno de 1810, separou-se e ficou cabeça do districto. As producções deste districto são: milho, mandioca, canna, criação de gado vaccum, tudo em ponto pequeno sendo mais notavel o frequente transporte de madeiras para a companhia do Morro Velho.


É banhado pelo rio Taquarussú, que nasce na serra de S. João do Morro Grande, e desagua no das Velhas, abaixo de Macaúbas.


Ao norte e nascente é cercado pela serra do Carmo, e ao sul pela serra da Piedade.


A origem da denominação da serra do Carmo, veio de uma fazenda que tem uma capella dedicada a N. S. do Carmo. Tem a igreja principal, e uma principiada.


O commercio é pequeno, e consta de seis negociantes de generos do paiz.


Ha uma escola publica de instrucção primaria.


Divide esta freguezia pelo leste com o districto do Senhor Bom Jesus do Amparo, em distancia de trez e meia leguas; pelo oeste com a freguezia de N. S. da Lapa, em distancia de trez leguas; pelo sul com a freguezia de N. S. do Bom Successo da villa do Caethé, trez leguas; e pelo norte, com a freguezia do SS. Sacramento do Taquarussú.


FREGUEZIA E 6º DISTRICTO DE ROÇAS-NOVAS.


Creada pelo § 8º do art. 1º da lei provincial n. 209 de 1841.


Subdelegado.


Manoel Nogueira da Cunha.


Inspector parochial.


Rev. João de S. Antonio.


Professor de primeiras letras.


Antonio José de Almeida Bastos.


Vigario provisionado.


Manoel José Ferreira.


Negocios.


Generos do paiz.


Candido Antonio.


Anna Baptista.


Francisco Antonio Rodrigues.


D. Candida da Conceição de Jesus.


José Candido Vieira.


Thomaz de Aquino.


José Maria Pereira.


Antonio Vieira Leal.


Ricardo José de Araujo.


Joaquim Borges de Sampaio.


Carolino Rodrigues.


Vicente de Paula Reis.



Fazendeiros que cultivão canna.



Francisco Pereira Pinto.


Francisco Conrado e Comp.


Justino Fernandes Guimarães.


Silverio Coelho de Moraes.



Almanak Mineiro

publicado em Ouro Preto, 1864.

(mantida a ortografia da época)


Terça-feira, Julho 07, 2009

 

SÃO JOÃO DEL REI


 

LUND, O COLETOR DO PASSADO


Em 1843, Lund escreveu longa carta a uma sociedade científica na qual dava conta de uma das suas principais (se não a principal) descobertas realizadas na Lagoa do Sumidouro, localizada no atual município de Pedro Leopoldo. O Córrego Samambaia, que enche a lagoa, secara e ela ficou reduzida a uma poça central. Toda a superfície do fundo da lagoa, de lamaçal escuro, tornara-se chão duro rachado pelo sol a pino.


Lund teve a oportunidade que esperava: poderia explorar o túnel de escoamento, que se tornara galeria seca de gruta. Quando penetrou no sumidouro havia, ainda, uma pequena lagoa interna que mandou esvaziar. Os resultados foram excepcionais. Alguns dos animais que usavam o córrego e a lagoa e que mortos foram arrastados até o sumidouro ficaram presos nas irregularidades do túnel e foram sepultados pelos sedimentos transportados pelas águas que escoavam. Ação lenta e constante a realizada pelas águas. Tempo houve para que isso pudesse acontecer. A descoberta de Lund foi, além de importante, tão surpreendente que poucos acreditaram nela: passou como que despercebida. O túnel que esvaziava a lagoa encerrava um fato à época inacreditável, ou absolutamente revolucionário.


Numerosos esqueletos humanos e fósseis de animais extintos e atuais estavam lado a lado, indicando que os três conjuntos conviveram. Hoje sabemos que isso aconteceu há pouco mais de onze mil anos. Na Europa, onde residia o saber, ninguém deu crédito ao sábio de Lagoa Santa que afirmava ter convivido o homem com a fauna extinta.


Ainda faltavam quinze anos para que Darwin publicasse, em 1859, seu célebre livro a respeito da Teoria da Evolução. A explicação vigente à época e seguida por Lund para explicar as faunas de animais diferentes que ocorriam ao longo dos tempos era a de Cuvier, célebre anatomista e paleontólogo, diretor do Museu de História Natural de Paris. Acreditava que ocorreram, ao longo da História, catástrofes sucessivas que eliminavam a vida na face da Terra. Deus criava, posteriormente, novas formas de vida que substituíam as que se extinguiram. O registro de tipos de vida sucessivos percebia-se nas camadas sedimentares que guardavam fósseis diferentes. A última catástrofe ocorrera com o dilúvio. Pouco antes, o homem fora criado. Sobreviveram à catástrofe ocupantes privilegiados da Arca de Noé, o homem e os animais modernos que foram criados no mesmo tempo que Adão e Eva, sendo que alguns dos quais eram citados como moradores do Paraíso. No esquema catastrofista de Cuvier, o homem e os animais atuais e extintos não poderiam estar associados no mesmo sedimento. Mas, como cientista, e mesmo sendo um fervoroso luterano que acreditava nos ditados bíblicos ao pé da letra, Lund não podia negar a evidência que ele descobrira. A teoria estava equivocada. Na Europa a sua afirmativa a respeito da coexistência do homem com animais extintos era tão nova que não foi levada em consideração.



Cástor Cartelle

Lund, o coletor do passado

em Navegando o Rio das Velhas das Minas aos Gerais

volume 2: Estudos sobre a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas

org. por Eugênio Marcos Andrade Goulart

Projeto Manuelzão – Faculdade de Medicina da UFMG.

Belo Horizonte. 2005.


Segunda-feira, Julho 06, 2009

 

A EXPEDIÇÃO BURTON


ORIENTALISMOS NA BACIA DO VELHAS

Não deixa de causar espécie o fato de que um viajante experimentado como Burton afirme, textualmente, a sua preferência pela bacia do Velhas, mais do que qualquer outra parte do planeta percorrida por ele. O que o teria encantado nesse percurso? Uma sugestão de resposta talvez possa ser encontrada nas similitudes percebidas por Burton entre o entorno daquele rio mineiro e as de diversas áreas asiáticas por ele percorridas. Tais similitudes não nos devem surpreender; o nosso país, isolado por mais de trezentos anos do mundo europeu, entabularia nesse período laços muito íntimos com o mundo luso afro-asiático, com Goa e Macau principalmente. Do caráter antes asiático do que europeu do Brasil Colonial, assim se exprime Gilberto Freyre:

Pois o que parece é que, ao findar do século XVIII e ao principiar o XIX, em nenhuma outra área americana o palanquim, a esteira, a quitanda, o chafariz, o fogo de vista, a telha côncava, o bangüê, a rótula ou gelosia de madeira, o xale e o turbante de mulher, a casa caiada de branco ou pintada de cor viva e em forma de pagode, as pontas de beiral de telhado arrebitadas em cornos de lua, o azulejo, o coqueiro e a mangueira da Índia, a elefantíase dos Árabes, o cuscuz, o alfeolo, o alfenin, o arroz-doce com canela, o chá da China, a cânfora de Bornéu, a muscadeira de Bandu, a fazenda e a louça da China e da Índia, os perfumes do Oriente, haviam se aclimado com o mesmo à-vontade que no Brasil, e formado com os valores indígenas, europeus e de outras procedências o mesmo conjunto simbiótico de natureza e cultura que chegou a formar o nosso País. É como se ecologicamente nosso parentesco fosse antes com o Oriente do que com o Ocidente.

Burton quedou-se agradavelmente surpreso com o espetáculo de uma região e de uma sociedade não só racialmente como culturalmente miscigenada. Os portugueses enxertaram no Brasil não só filhos mestiços como, também, souberam harmonizar em nosso território valores europeus e asiáticos, criando assim o lastro híbrido que sustentou a sua obra colonial. Navegando entre Sabará e a Barra do Guaicuí, Burton observaria que não só a paisagem social como também a ecológica do Rio das Velhas estava varada por aproximações com o mundo português da África e da Ásia. Uma propriedade rural com nome de peixe situada às margens do rio evocou a Burton a seguinte lembrança da África Portuguesa, dizendo ele que (...) grandes blocos de arenito estratificado (lapas) inclinam-se em ângulo agudo na direção do rio e vão formando sombrias cavernas, recessos e pilares até a próxima fazenda do Mandim, — de Mandim ou roncador. A última vez que ouvi falar da música desse peixe foi em São Paulo de Luanda.

A vida animal à beira d’água, apreciada pelo viajante inglês, daria ensejo a que Burton, nitidamente, externasse de soslaio, usando como pretexto o trinado de um pássaro, a sua contida preferência pela sensibilidade portuguesa sobre a anglo-saxônica, naquilo que diz respeito à gestão das coisas americanas:

O ar estava deliciosamente puro e eu me sentei por algum tempo ouvindo a conversa de um velho amigo. “Pst” o assobio “Whippoorwhil”, do caprimulgídeo. Este só começa a cantar pelo crepúsculo, mais ou menos como certas corujas, especialmente o Strix aluco da Europa e seu grito agudo é ouvido por intervalos rio abaixo, a grandes distâncias no Rio São Francisco. Seus hábitos, conforme pudemos observar, são semelhantes aos dos seus irmãos dos Estados Unidos, e muitas vezes vimos de dia aos pares, aninhando-se na areia. O português chama-o joão-corta-pau e é curioso comentar esta teoria onomatopaica: uma raça ouve “Pst-Whip-poor-Will” e outra “joão-corta-pau”. Repetindo mentalmente as palavras, eu conseguia produzir qualquer dos sons, mas a versão latina parece preferível.

Perscrutando a flora do Rio das Velhas com o olhar de um autêntico botânico, e detendo-se na observação de um abandonado pomar, Burton nem por isso, estando envolto em um panorama tão brasileiro, impediria que o seu pensamento divagasse de retorno às velhas paragens da Índia Portuguesa de sua juventude, assimilando a decadência do local por onde passava com as ruínas de um velho tribunal religioso luso em sua capital indiana. Dizia ele que, (...) abaixo de nós, um pouco para a direita, um maciço de laranjeiras, pitas e bananeiras, mostra o local da antiga Contagem das Abóboras, agora mais desolada que a Inquisição de Goa.

Os sobrados, fazendas e outras edificações de porte nas margens do Rio das Velhas lembravam sempre a Burton, espicaçado pelas similaridades arquitetônicas que encontrava, uma transposição de formas senhoriais de morar e habitar mais próximas de populações maometanas ou hindus, do que propriamente ocidentais e européias. De uma residência particular da Bacia, pertencente a um latifundiário, Burton dizia que (...) defronte dela, numa pequena elevação em campo desolado, ficava a casa grande senhorial, com um curioso pórtico verde, como o de Mtoni, perto da cidade de Zanzibar. Depois, transitando em direção ao Convento das Macaúbas, o capitão inglês nos deixou uma detalhada descrição da distribuição de seus espaços de convívio, contando-nos que (...) ligadas e de ambos os lados da igreja ficavam duas alas assobradadas e de taipa caiada, assentadas como o de costume sobre a bela pedra calcária azul. Todas as janelas são avaramente gradeadas e têm gelosias. A referência feita por Burton às gelosias nas janelas remete ao instinto de privacidade muçulmana tão arraigado no Brasil colonial, onde a segregação do sexo feminino, tanto em conventos quanto em lares privados constituía a regra e não a exceção. Ainda durante a sua visita ao recolhimento religioso de Macaúbas, Burton novamente viajou em sentido figurado para a velha cidade de Afonso de Albuquerque, dizendo que lá dentro (...) as galerias são compridas, os quartos grandes e arejados lembraram-me, pela rudeza das grandes traves de madeira, um estabelecimento de Goa que descrevi há perto de vinte anos.


Paulo Roberto Azevedo Varejão e
Alice Conceição Christófaro
A Expedição de Richard Burton
Em Navegando o Rio das Velhas
das minas aos gerais
vol. 2: Estudos sobre a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas
organizado por Eugênio Marcos Andrade Goulart
Instituto Guaicuy-SOS Rio das Velhas / Projeto Manuelzão /
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
Belo Horizonte. 2005.

Domingo, Julho 05, 2009

 

OS VIAJANTES


Decidido a poupar os burros, caminhei para diante. Deparei com um vale minúsculo, onde folhas escuras de mica e formações turfáceas denotavam uma mudança de região. A propósito, notaremos que o Brasil é rico em turfas que nunca foram aproveitadas como combustível. Como a turfa é em geral recente, precisará passar por um certo preparo, especialmente a compressão. O falecido Sr. Ginty, engenheiro civil do Rio de Janeiro, chegou a tirar patente para a exploração dos depósitos de turfa. A 4.000 pés acima do nível do mar, uma simples cabana esburacada protegia uns poucos moradores de beira da estrada do sol ardente e do vento cortante. Uma ladeira conduzia a um declive rápido. O solo era ainda de terra escura, de matéria vegetal em decomposição, restos das florestas extintas formando a turfa. Na chuva transforma-se num pantanal pegajoso, na seca em terreno duro e compacto, que põe à prova as molas garantidas do carro inglês. A meio caminho da descida do morro encontrei um carro de madeira de Northumberland dos meados do século passado. Tinha dez parelhas de bois. Homens armados do aguilhão do costume, com dez pés de comprimento e um enorme esporão na ponta, haviam passado todo o dia espetando, insultando e vergalhando os bois, que caminhavam vagarosos pelas léguas de serra acima.


Em José Roberto a estrada passou a ser seca. Estamos agora numa planície. Os burros novos disparam num galope moderado até Nascimento, bela venda situada em minúscula planura, numa depressão brilhante de grama mais verde, altos coqueiros com folhas ondulantes e os gloriosos ramos malva-rosa da Bougainvillea (B. brasiliensis), que em Minas torna-se uma árvore.


Depois de percorrer oito milhas dos topos da Mantiqueira e a doze milhas de nosso destino, chegamos a Borda do Campo. Nome e localidade semelhante existem perto da cidade de São Paulo. Mas ali o campo começou junto à Serra do Mar, enquanto aqui a Mantiqueira se interpõe entre eles. O cotejo das primeiras impressões é curioso. Em Minas o terreno é mais cortado de fundas cavidades, encostas e barrancos; os capões, ou ilhas de florestas, são de maior importância. Reservo para outro capítulo as diferenças mais especiais.


A estação da seca estava no apogeu, a terra parecia descorada e inerte com a estiagem. Avistamos de longe Barbacena, com seus campanários arranhando a cumeeira de uma serra ao norte, alta e escura, já enrubescendo aos raios oblíquos do sol. A situação lembrava São Paulo à primeira vista, e de novo respirávamos o ar tonificante, frio, claro e leve do planalto, deixando o calor úmido da Mantiqueira. Há grandes fazendas esparsas pela região. Chamou nossa atenção o aspecto das chamadas Campo Verde e Nascimento Novo.


Nossa oitava remonta, em que belos burros brancos aguardavam-nos para o prosseguimento, era Registro Velho. É o primeiro dos três registros pelos quais, nos tempos coloniais, devia passar o infeliz viajante de Minas que vinha ao litoral. A construção é um grande edifício de madeira branca e de estilo rude. A sua antiga função desapareceu. É aproveitado agora para outros fins. Aqui pousam sempre as tropas de ouro das minas anglo-mineiras, evitando as ruas das cidades, em que perdem as ferraduras e gastam dinheiro. O posto, contudo, é execrável. O proprietário, capitão José Rodrigues da Costa, hospeda os viajantes a seu modo, expulsando-os se murmuram contra as altas autoridades. Antes de visitar as várias companhias, espanta o fato de não poderem elas entender-se para organização de um estabelecimento do seu próprio serviço. O capitão, porém, é digno de confiança, ou antes, sendo um homem rico, é muito respeitado.


Há aqui uma fábrica de cigarros famosa de Minas ao Rio. Todos os operários, homens e mulheres, ficam em duas salas e há um cortador para cada meia dúzia de enroladores. Em vez de papel emprega-se a palha de milho, costume herdado diretamente dos aborígines. Après qu’ils ont cueilli le petem (folha de tabaco)”, diz Léry acerca dos Tupinambá, "et par petite poignée, pendre et fais sécher en leurs maisons, ils en prennent quatre ou cinq feuilles qu’ils enveloppent dans une autre grande feuille d’arbre en façon de cornet d’épices; mettant alors le feu par le petit bout et le mettant ainsi allumé dans leur bouche, ils en tirent de cette façon la fumée". O fumo é forte e a pitada de tabaco enrolada numa folha logo torna-se uma massa e precisa ser enrolada uma e duas vezes antes de se comprimir. Um grande rolo pode ser comprado por um shilling, e ainda assim os lucros do estabelecimento são de cerca de £ 160 per mensem. O fumo de rolo no Brasil é bom. Mas este é especialmente agradável.


A nova etapa atravessa o Rio do Registro Velho, afluente do Rio das Mortes. Passamos, pois, agora, para a bacia dos rios Paraná, Paraguai e Prata, ao sul do Brasil. Virando à direita da estrada principal, passamos pela miserável pequena colônia José Ribeiro. Um proprietário assim chamado vendeu o terreno à União e Indústria e esta instalou uma colônia de alemães. A única casa decente era a do diretor. O começo do fim surgiu enfim com um pequeno trecho de um belo e macio macadame feito pela Companhia. Era como se rolássemos sobre uma mesa de bilhar. Corremos animados a galope, recebendo nas faces e nos pés o ar da tarde de pleno inverno.


Era quase noite quando entramos na cidade de Barbacena, que parecia tão viva como uma imensa catacumba. Antes de poder esticar nossas pernas dormentes na hospedaria barbacenense, desembarcamos a velha senhora com seus inúmeros embrulhos, suas escravas e seus moleques. O hospedeiro, Sr. Herculano Ferreira Pais, havia desgraçadamente conhecido dias mais felizes. Demonstrou-o dando-nos com cortesia, infelizmente descabida, não um jantar, mas uma detestável ladainha de desculpas: “a casa não era digna de nós, tão importantes personagens éramos, a cidade estava miseravelmente pobre, o povo era de bárbaros perfeitos”. Seus filhos estavam visivelmente acima de suas funções. Recebiam cada ordem com um protesto tácito e examinaram-nos como seus avós devem ter examinado John Mawe quando em 1809 visitou Barbasinas. Mas afinal veio a comida, e até chegamos a achar bom o horrível vinho espanhol. Os quartos de dormir eram pequenos, as camas não passavam de estreitos catres, o frio estava penetrante e cães de rua uivavam horrorosamente. Apesar de tudo, dormimos o sono dos justos. O dia de viagem na diligência havia sido um peso demasiado para os ombros de uma pessoa e muito esfalfante para o sistema nervoso.



Richard Burton

em Viagem aos Planaltos do Brasil I

tradução de Américo Jacobina Lacombe

Companhia Editora Nacional. São Paulo.

1983.


Sábado, Julho 04, 2009

 

ENTRE RIOS DE MINAS


 

LIVRARIA AMADEU


Este é um livro sobre livrarias, livreiros, livros e amantes de livros. é um livro sobre o comércio de livros, sobre o lugar dos livros na cidade e sobre a cidade nos livros. É um livro sobre os livros em Belo Horizonte, um livro sobre as diversas maneiras de se mar os livros por se amar a cidade. É um livro sobre os amigos eruditos do livro, que a cidade os teve e tem, e sobre os que tornam possíveis esses amores. Assim, é um livro sobre Eduardo Frieiro, sobre Hélio Gravatá, sobre Francisco Iglésias, sobre Henrique Cláudio de Lima Vaz, sobre Ângela Vaz Leão, sobre Maria José Queiroz, grandes leitores e apaixonados pelos livros, por exemplo, mas quer ser, sobretudo, um livro sobre Amadeu Rossi Cocco, que completou neste junho 90 anos, 74 deles dedicados ao trato de livros.


É um livro sobre gerações de escritores e suas livrarias de escolha, suas revistas e seus livros característicos. É um livro sobre livros e sobre o quanto os livros podem convocar a possibilidade do melhor.


Espaço plebeu e erudito, o sebo é das instituições mais generosas da cidade. A Livraria Amadeu é, com seu dono e infatigável trabalhador, um desses lugares onde a cidade realiza-se no melhor de suas possibilidades — o espaço para a leitura que alegra, para o dever da leitura, para a leitura que liberta e demanda a felicidade. Sua livraria, fundada em 1948, é uma instituição significativa de nossa vida cultural, espaço por onde circulam e fertilizam-se, mutuamente, tanto a cultura erudita, a busca permanente do livro indispensável, quanto a demanda humilde dos que buscam, no sebo, o livro didático, ao manual de trabalho, o livro inesquecível, que todos elegemos, o livro que nos remete sempre ao melhor de nós mesmos, seja ele a narrativa de aventura amorosa ou alucinante, seja ele o folhetim rocambolesco, seja ele o fascinante do conto de fadas: as maravilhas de Monteiro Lobato, de Júlio Verne, de Alexandre Dumas, de Michel Zevaco, de Rafael Sabatini, tesouros de uma certa literatura que se confunde com a formação do leitor que os sebos fazem renascer, geração após geração.



João Antonio de Paula

em Livraria Amadeu

os livros e a cidade

col. BH. A cidade de cada um.

Conceito. Belo Horizonte. 2006.


Sexta-feira, Julho 03, 2009

 

NO SERTÃO DOS CONFINS


Nos seus bons tempos, Paulo não admitiria aquilo — mas teve de aceitar, agora, a demão do Gerôncio. O preto passara-lhe os dois braços rijos pela arca do peito, cruzando as mãos num arrocho definitivo, ajudando a fazer força. Pés calcados no reforço transversal que todo canoeiro prático já deixa pronto, inteiriço, na hora de ocar a tora de pau, o negro bufava:

— ‘Güente o galho do seu lado, patrão, que do meu lado eu ‘güento!

O bambu estralava que nem taboca no fogo. O cabo de aço — três fios doze trançados, decerto presente do PE. Sommer ao Gerôncio — parecia laço em cabeça de boi xucro. Zanzava, doido, cortando o rebojo de fora a fora, enfiando-se por baixo da canoa, procurando a água-braba, fugindo, voltando, regirando agora, desatinado...

— Recolha a sua linha, Gerôncio! Me largue! Deixe o bicho sozinho por minha conta. Recolha a linha, senão o peixe se embaraça nela!

Mas o Gerôncio não largava. Conhecia o tamanho daqueles surubins do rebojo e, pelo tinido da linha, adivinhava o animal que o Dr. Paulo havia ferrado.

— Tem perigo não, Dr. Paulo. Ei, linhinha macha! Fica pancrácio, fica, bigodeira de jaùzão! Ixe, Nossa Senhora, bicho feroso este, cruz!

Linha às costas, agora, o peixe esbarrava, velhaco, no centro do rebojo, onde a ventosa da água chupava irresistível como boca de sucuri. A vara envergava, envergava, ringia, estalava.

— ‘Güenta, doutor! Incomode com a canoa, não — isso é brinquedo para ela! Se entrar mais água, eu solto a poita...

Bicho desgraçado! O repuxo era tal que a canoa embicava, popa levantada, a proa apanhando água. Se o peixe se mantivesse empacado daquele jeito, que nem estorvo em boca de bueiro, o remédio era mesmo soltar a poita para aliviar a canoa e ficar rodando com ela por sobre o redemoinho, até que se cansasse e cuidasse de inventar outra moda. O tempo passava, Gerôncio sem se resolver a largar o companheiro, e a canoa pegando cada vez mais água.

— Pode-me largar, Gerôncio. Solte a poita!

Mas não foi preciso: o surubim desembestara, agora num volteio maluco de pião. Lá estava, porém, na argola de arame do cabresto, o girador. A linha de aço se destorcia quando chegava ali, afastando o perigo das crocas. Muito peixe escapo assim, em vara sem girador, a linha arrebentada no melhor da hora...

Tempão lutou o peixe antes de pranchear, entregue. A espaços apontava a cabeça à superfície — toco feioso de pau preto — para, em seguida, remergulhar num último desespero. A vara, porém, empinada, quase a prumo, obrigava-o mais e mais a acercar-se da canoa. Gerôncio deixara, afinal, Paulo gozar sozinho a luta com o surubim já dominado.

— Me apanhe a carabina, Gerôncio. Tome a vara, tome...

O surubim boiou por derradeiro quando boiou bem no centro do rebojo, lá onde as espumas não chegavam. Paulo atirou. Bruto tiro de morteiro que quis ameaçar um ror de iguais respostas nos barrancos — mas que mal deu em tímido pingue-pongue de ecos frouxos, porque molhados e apagados logo pela chuvinha que apertava.


Mário Palmério
em Vila dos Confins
José Olympio. Rio de Janeiro.
2ª edição. 1957.

Quarta-feira, Julho 01, 2009

 

VILA RICA


II O MEIO SOCIAL


1 – POVOAMENTO


A emigração intensa, composta, evidentemente, em sua maioria, de aventureiros de ânimo forte e ambição maior, dificilmente seria controlável por normas de moral ou de direito, enquanto não se estabelecessem os fundamentos sociais e a boa ordem administrativa e judiciária.


Chegam homens das mais diversas procedências e raças: paulistas afeitos à vida rude, experimentados no sertão e na caça do índio, brasileiros do norte, boiadeiros, vadios do litoral, ciganos, judeus e cristãos novos, uns e outros prontos para a guerra e para a desobediência.


De outro lado, seriam pouco acomodados os portugueses que para cá se aventuraram, deixando na terra os mais tímidos e prudentes; calejados, muitos, das lidas do mar, no comércio com o oriente e nas guerras em que se vinha empenhando a metrópole. Juntam-se a estes os negros, em grande número, trazidos à força, prontos à rebeldia, fugindo para os quilombos, embriagando-se nas vendas e, vadios depois, pela falta de trabalho, na decadência das minerações.


Do elemento indígena, não há referências. Libertados da servidão por ordem régia, indolentes por natureza, ferozes alguns e, em geral resistentes aos duros trabalhos das extrações, não seria proveitosa a sua utilização.


Em todo o caso, a população das Minas “cheia de vigor e de força, capaz de grandes cometimentos, pronta ao sacrifício, ciosa da liberdade, inteligente e esforçada”, concentrada em poucos pontos do seu território, aumenta vertiginosamente na primeira metade do Setecentos, despovoando o litoral, e mesmo o reino, e tornando difícil a previsão dos meios adequados à manutenção da ordem pública. Convém salientar a forte tendência urbana dos povoadores das Minas, manifestada mesmo pelos que se entregavam a trabalhos rurais, a maioria não dispensando casas no arraial, ainda que para desfrutá-las apenas nos dias de folga.


Infelizmente, não são conhecidos dados seguros desta população e apenas referências esparsas suprem as lacunas dos censos regulares. Pelo tombamento de 1734, por exemplo, são anotadas em Vila Rica, entre o Passa-Dez e o Pe. Faria 538 casas ou sejam, 4.304 habitantes, à razão de oito por moradia. Esta indicação, porém, deve referir-se apenas à população livre, proprietária dos imóveis recenseados, excluídos os escravos dela dependentes.


Para 1742 Eschwege anota 80.000 homens livres e 186.868 escravos, em toda a capitania, num total de 266.868 habitantes. Já em 1776, este total passa a 319.769; brancos 70.664, mulatos 82.110 e 166.995 pretos. Por este mesmo ano, moram na Comarca de Vila Rica 78.618 pessoas, das quais 12.679 brancas, 16.791 pardas e 49.149 pretas.


Dez anos depois, em 1786, a população da Capitania é de 393,698 habitantes, subindo a 433.049 em 1808, para atingir meio milhão, às vésperas da Independência.


Mais tarde, em 1801, José Vieira Couto atribui a Vila Rica uma população de 20.000 almas que, em 1813, atinge, em toda a Comarca, 72.880, segundo Joaquim Dias Bicalho. Saint-Hilaire, em 1816, avalia a população de Vila Rica, em apenas 8.000 habitantes, distribuídos em 2.000 casas.


Em 1830, na cidade de Ouro Preto contam-se 1.702 fogos ou 13.616 almas e em todo o termo 3.575 fogos, comportando 28.600 moradores.


Os dados disponíveis sobre a população de Vila Rica e da Capitania são, em geral, como os citados, falhos e insuficientes para permitirem conclusões seguras a respeito do seu desenvolvimento demográfico, considerado em áreas e classes definidas. Apenas permitem avaliações sumárias que, pela segunda metade do século XVIII, consignam 400.000 pessoas na Capitania, 70.000 no termo e 25.000 em Vila Rica, totais que decaíram no decorrer da centúria, principalmente quanto à cidade de Ouro Preto que, em 1902, já privada de sua condição de capital da província, só dispunha de 1.553 prédios e 10.000 habitantes.



Sylvio de Vasconcellos

Vila Rica

formação e desenvolvimento – residências

Biblioteca de Divulgação Cultural VI.

Instituto Nacional do Livro.

Rio de Janeiro. 1956.


Quinta-feira, Junho 25, 2009

 

CONGONHAS


 

EM DIAMANTINA, FINAL DO SÉCULO XIX


Sexta-feira, 7 de abril de 1893


Nas quintas-feiras Maria dá Didico para mim e Luisinha o dia inteirinho. Nós trabalhamos, passeamos e fazemos tudo com ele, que já está sentando, e tão engraçadinho que a gente fica até com vontade de mordê-lo. Eu acho que gosto tanto deste menino não é só pela gracinha dele, mas porque penso que o pai e a mãe são doidos. Mas é só longe da gente; perto eles conversam com um modo tão direito que a gente fica até duvidando do que fazem. Rodrigo vai entrando em casa e já começa a briga, e vão brigando até ele sair e ela joga nas costas dele uma coisa qualquer de quebrar.


Tudo quanto tem em casa, de louça ou de barro, ela quebra nas costas dele. Tive muita pena ontem quando ela lhe atirou o pote de água; a água molhou-o todo e o pote foi quebrar-se na rua. Ele nem virou para trás; foi seguindo calado e foi embora todo molhado.


Quando estou lá carregando Didico que ele entra, eu saio correndo. Já vi uma briga e não quero mais ver outra.


Mas Maria Flora é boa; ela nos entrega o menino o dia inteiro e podemos tratá-lo como se fosse nosso filho. Nós duas já combinamos; eu lhe dou o banho de manhã cedo, Luisinha dá de tarde; eu dou mingau de manhã, ela dá o almoço, eu dou a merenda, ela o jantar. De noite nós cantamos com ele para adormecer e o levamos e pomos na caminha.


Hoje, cedinho, Luisinha só esperou que eles abrissem a porta para tirar o menino e fomos para a Chácara; era dia de apanhar café.


Nico e Renato inventaram agora lá um brinquedo que é uma coisa do outro mundo. Eles levaram um couro de boi para a ribanceira, no fundo da Chácara. Um foi puxando o outro no couro até alisar a descida e agora está lisa de um jeito que a gente escorrega que é uma beleza. Ninguém dos grandes ainda descobriu isso, senão já se sabe, acabava num átimo. Nós falamos que vamos apanhar café e levamos a capanga; mas descobrimos furtar o café já apanhado para trazê-lo de novo e vamos para a ribanceira.


Hoje eu vi que não pode haver outro menino tão bonzinho. Eu e Luisinha inventamos levar o pobrezinho para escorregar conosco. Não sei como foi; o menino rolou antes de nós e foi cair num formigueiro. Nós fomos rolando atrás e o couro parou no caminho. Fomos cair as duas também no formigueiro e quase esborrachamos o pobrezinho. Só não o machucamos porque ele chegou numa moita de capim e afundou. Quando pudemos tomar pé e o tiramos, ele estava numa lástima, coitadinho; todo empolado e com as formigas barrigudas agarradas no corpinho dele. Mas o menino é tão bonzinho que até o choro dele é manso. Nós não tínhamos pensado na subida e foi Deus que nos ajudou a subir a ribanceira carregando o menino.


Passamos um dia agoniadas, banhando as empolas com água com sal, com medo que alguém visse e Maria Flora não nos deixasse mais cuidar do Didico. Felizmente de tarde ele já estava sem sinais no corpo.



Helena Morley

em Minha Vida de Menina

Companhia das Letras. São Paulo.

5ª reimpressão. 1999.


Terça-feira, Junho 23, 2009

 

MIGUILIM


Aqueles dias passaram muito bonitos, nem choveu: era só o sol, e o verde, veranico. Pai ficava todo tempo nas roças, trabalhava que nem um negro do cativeiro — era o que Mãe dizia. E era bom para a gente, quando Pai não estava em casa. A Rosa tinha deitado galinhas: a Pintinha-amarela-na-cabeça, com treze ovos, e a Pintadinha com onze — e três eram ovos de perdiz, silpingados de roxo no branco; agora não ia ter perigo de melar e dar piolho nelas, no choco. Também estava chegando ocasião de se fazer presépio, Vovó Izidra mandava vir musgo e barba-de-pau, até o Grivo ia trazer. Vaqueiro Saluz pegou um mico-estrela, se pôs p’ra morar numa cabacinha alevantada na parede atrás da casa. A Chica brincou uma festa de batizar três bonecas de mentira, para Miguilim, o Dito e Tomezinho serem os padrinhos. Depois, os vaqueiros estavam chegando de campear, relatavam: — “Os cachorros deram com um tatu-canastra, tão grande! O tatu-canastra joga pedra e terra, tanta, que ninguém chega atrás. Alguém subisse em riba dele, ele não esbarrava de cavacar...” — “Ô bicho que tem força!” — o vaqueiro Jé aprovava. Disse que alguns não comiam tatu-canastra, porque a carne dele tem gosto de flor. “Mas a carne dos outros tatus dá uma farofa boa!” Miguilim então se ria, de tanta poetagem. O vaqueiro Jé, sem-sabido, perguntou: — “Ei, eu fizer a farofa, Miguilim, tu come? Você tem pena do tatu mais não?” “— Pois tenho, demais! Só que agora eu não estava pensando...” Daí Miguilim ficou com um ódio, por aquilo terem perguntado. E o Dito, em encoberto, contou que o vaqueiro Jé tinha abraçado a Maria Pretinha. Doideiras.

A vaca Sinsã pariu um bezerrinho branco, e a Tapira e a Veluda pariram cada-uma uma bezerrinha, igualzinhas das cores delas duas. Siàrlinda, mulher do vaqueiro Saluz, veio, trouxe requeijão moreno e doce-de-leite que ela fez. Siàrlinda contou estórias. Da Moça e da Bicha-Fera, do Papagaio Dourado que era um Príncipe, do Rei dos Peixes, da Gata Borralheira, do Rei do Mato. Contou estórias de sombração, que eram as melhores, para se estremecer. Miguilim de repente começou a contar estórias tiradas da cabeça dele mesmo; uma do Boi que queria ensinar um segredo ao Vaqueiro, outra do Cachorrinho que em casa nenhuma não deixavam que ele morasse, andava de vereda em vereda, pedindo perdão. Essas estórias pegavam. Mãe disse que Miguilim era muito ladino, despois disse que o Dito também era. Tomezinho desesperou, porque Mãe tinha escapado de falar no nome dele; mas aí Mãe pegou Tomezinho no colo, disse que ele era um fiozinho caído do cabelo de Deus. Miguilim, que bem ouviu, raciocinou apreciando aquilo, por demais. Uma hora ele falou com o Dito — que Mãe às vezes era a pessoa mais ladina de todas.

Tudo era bom, às tardes a gente a cavalo, buscando vacas. Dia-de-domingo, cedinho escuro, no morno das águas, Pai e Luisaltino iam lavar corpo no poço das pedras, menino-homem podia ir junto, carregavam pedaço de sabão de fruta de tingui, que Mãitina tinha cozinhado. Luisaltino cortava pau-de-pita: abraçado com o leve desse, e com as cabaças amarradas, não se afundava, todo o mundo suspendido n’água, se aprendendo a nadar. Naquele poço, corguinho-veredinha, não dava peixe, só fingindo de fazer de conta era que se pescava. Mas Vovó Izidra teve de ir dormir na Vereda do Bugre, para servir de parteira; sem Vovó Izidra a casa ainda ficava mais alegrada. Aí a Rosa levou os meninos todos, variando, se pescou. Só só piabas, e um timburé, feio de formas, com raja, com aquela boquinha esquisita, e um bagre — mole, saposo, arroxeado, parecendo uma posta de carne doente. Mas se pescou; foi muito divertido, a gente brincava de rolar atoa no capim dos verdes. E vai, veio uma notícia meio triste: tinham achado o Patori morto, parece que morreu mesmo de fome, tornadiço vagando por aquelas chapadas.


João Guimarães Rosa
Campo Geral
em Corpo de Baile 1º volume
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

 

OS SENHORES DA SENZALA


Como se vê, a política principiava a deixar de ser privilégio do governo e do Parlamento; o país inteiro envolvia-se com a política. Naturalmente, a produção cultural do período não poderia ficar de fora desse debate. A necessidade de uma arte “participante”, que conduzisse o processo de “conscientização”, colocava-se na ordem do dia. O “novo é o povo”, enfatizavam, por exemplo, os artistas do Centro Popular de Cultura da UNE que, por essa razão, “optaram por ser povo, por ser parte integrante do povo, destacamento de seu exército no front cultural”. Mais que isso, afirmavam: “em nosso pais e em nossa época fora da arte política não há arte popular”. Em que pese a suave candura que perpassava tais análises, o país inegavelmente avançava movido pela ambição de mudanças. Através da opção pelo “popular” e pelo “nacional” — sem dúvida uma “dobradinha” imbatível na época — redescobria-se o Brasil, “nossa paisagem cultural que andava soterrada nos anos medíocres que se seguiram à Semana de Arte Moderna em 1922”. Muitas vezes, essa “redescoberta” era comovente em sua ingenuidade:


“Avante, avante companheiros

Vamos fazer mais filmes

Muitos filmes brasileiros

Fazer cinema não é sopa não

Brasil, meu Brasil

Teu cenário é sem igual

Nós te dedicamos

Rio, Quarenta Graus

Mais um filme nacional”.


Em 1961 JK despede-se de Brasília, confiante no regresso em 65. Afinal, como dizia o compositor Zé Kéti, a letra “k” estava “dando sorte, estava por cima” e enumerava: — “Kennedy, Kruschev e Kubitschek”. Seu sucessor, Jânio Quadros, após um ambíguo e efêmero governo de sete meses, renunciou intempestivamente, colorindo sua esperança de uma solução “gaullista” para o Brasil com os tons inequívocos da farsa: “O Jânio arquitetou um golpe... não podia governar com minoria no Congresso, sentia-se de mãos amarradas. Escreveu então a carta de renúncia... que não era para valer. Vai então entrega a carta ao seu Ministro da Justiça para ele apresentar o documento ao Congresso de tal jeito que ela não pudesse ser submetida aos deputados e por eles julgada em definitivo, no mesmo dia. Depois chamou os ministros militares e disse: “Fechem ou amordacem esse Congresso de borra, me dêem poderes extraordinários senão eu renuncio e vocês terão que engolir o Jango Goulart. Mas como se viu, a coisa não funcionou como ele esperava. O Congresso pegou o pião na unha. Aceitou logo a renúncia e fechou questão. O Jânio ficou no Aeroporto de Cumbica esperando que o povo brasileiro se erguesse e o levasse de volta ao governo, de charola. Não apareceu ninguém. A farsesca renúncia de Jânio apanhou seu vice em Singapura, ao término de uma missão por ele chefiada à República Popular da China. Precavido e conhecedor da política de sua terra, Goulart sofreou o entusiasmo de sua comitiva, que propunha um brinde ao “novo presidente do Brasil”, e, cauteloso, propôs em troca que brindassem “ao imprevisível”. De fato, abria-se uma grave crise sucessória, onde os ministros militares e a União Democrática Nacional — UDN — expressando grupos e áreas de interesses conservador-oposicionistas, ensaiaram um malogrado golpe militar com o objetivo de impedir o retorno e a posse de Goulart; em contrapartida, uma intensa mobilização popular procurou impedir a solução anticonstitucional através da Campanha da Legalidade. A adoção da Emenda Parlamentarista, vista como uma solução “conciliatória”, foi finalmente aceita em Paris por Jango que, cauteloso e desconfiado, “pelas dúvidas, entrou no Brasil pelo Rio Grande”. Por escassos dezesseis meses, o país conviveu com a experiência parlamentarista, sepultada após uma fragorosa derrota no plebiscito de 6 de janeiro de 1963. Ao reassumir os plenos poderes conferidos ao chefe do Executivo, Goulart poderia finalmente, e de acordo com o sopro de mudanças que agitava o país, levar a cabo seu programa de reformas com o qual pretendia marcar a “nova independência do Brasil”.


Não era pouca coisa. A “segunda” independência do Brasil significava independência econômica, autodeterminação e reformas estruturais que, mesmo limitadas, atendessem às reivindicações básicas dos movimentos populares, minorando o quadro das desigualdades sociais do país. O Brasil era um país rico em recursos naturais — “terra verde e imensa, debruçada no céu a convidar os homens à humanidade. Terra verde a prometer futuro..., imenso Brasil, gordo Brasil, sumarento Brasil a jurar um brasileiro salomônico, cristalino, carregado de abraços e sorrisos e calma e paixão e verdade. Um povo a semear verdade e riso” (Armando Costa et alii. O Auto dos 99%. Rio de Janeiro, CPC, março 1962, mimeo.). No entanto, esse “sumarento Brasil” ocultava-se por detrás de um “Brasil seco, mirrado, de costela de fora, de pires na mão” (idem, ibidem), cujo combate era colocado na ordem do dia. A estratégia de luta, no entanto, variava, gerando via de regra polêmicas intermináveis e freqüentemente irreconciliáveis sobre posições que o vocabulário político da época designava como “reformistas”, “moderadas”, “radicais”, “conciliadoras”, “entreguistas” e “ortodoxas”. Seja como for, o sonho da “conscientização” do povo parecia tão próximo e tão real, que artistas, intelectuais, acadêmicos, estudantes, profissionais liberais, entre outros, metamorfosearam-se em políticos e partiram para o que Arnaldo Jabor definiu como uma “doideira conscientizadora”: “...como as esquerdas estavam próximas do Poder, montaram-se mil veículos de conscientização em massa do povo brasileiro. Aviões, caminhões, transformáveis em palco, circos, funâmbulos, etc. saíram pelo país afora numa louquíssima mambembice revolucionária nunca vista na história das esquerdas próximas do Poder. O povo olhava embasbacado aquela multidão de jovens que lhe ensinavam coisas de dedo em riste, lhe faziam equações, empurrões, gritos de estímulo, eia! sus! querendo transformar os operários e camponeses em revoadas de torsos heróicos... Ficou uma herança de generosidade” (Heloísa Buarque de Holanda).



Heloisa Maria Murgel Starling

em Os Senhores das Gerais

Vozes. Petrópolis. 2ª edição.

1986.


 

RIO ACIMA


Quarta-feira, Junho 17, 2009

 

MINAS PATRIARCAL


SÃO JOÃO DEL REI


Por mais que se possa discutir ter sido ou não Tomé Portes del Rei o fundador da futura Vila de São João del Rei, é inegável que a fixação de núcleos povoadores nas áreas próximas ao Rio das Mortes esteja diretamente ligado ao seu estabelecimento na paragem conhecida como Porto da Passagem, decorrendo, portanto, deste povoado a origem de São João del Rei.


Saint-Hilaire indicou que Fernão Dias Pais, em suas passagens pelo “Caminho Geral do Sertão” ou “Caminho Velho”, já teria iniciado a ocupação do Rio das Mortes, não tendo, porém, continuidade esta empreitada. O primeiro núcleo efetivo de povoação colonial da área remete à iniciativa de Tomé Portes del Rei, que, em fins do século XVII, se instalou na região que seria conhecida como “Porto Real da Passagem”, à margem esquerda do Rio das Mortes, com o objetivo de produzir mantimentos a serem vendidos aos passantes em direção às áreas mineradoras.


Em 1702, descobriu-se ouro na região que viria a ser o Arraial Velho de Santo Antônio, posteriormente Freguesia de São José del Rei. Somente após a morte de Tomé Portes del Rei, entre 1704 e 1705, é que foi descoberto ouro no outro lado do rio, onde se formou, a partir de então, o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar. Segundo Waldemar Barbosa, o arraial cresceu com rapidez, “sendo a região onde, ao lado da mineração, mais se incrementou a agricultura, que já existia anteriormente à exploração do ouro”. Foi elevado a Vila de São João del Rei em 1713, tornando-se cabeça da Comarca do Rio das Mortes (As Capitanias e, posteriormente, no período imperial, as Províncias dividiam-se em Comarcas e estas, por sua vez, em Termos, que possuíam uma sede, na qual se localizava a Câmara Municipal. A sede do principal Termo da Comarca era conhecida como “cabeça da Comarca”), que tinha como limites, ao norte, as Comarcas de Vila Rica e Sabará e, ao sul, as Capitanias de São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo Geraldo Guimarães, até 1718 a Câmara de São João del Rei tinha jurisdição sobre toda a Comarca. Com a criação da Vila de São José del Rei, o poder foi dividido. Novos desmembramentos ocorreram em fins do século XVIII, com a criação das Vilas de Barbacena, em 1791, e da Campanha da Princesa, em 1799. Seria enfadonho continuar a citar os sucessivos desmembramentos ocorridos ao longo do século XIX, uma vez que, ainda em começos do oitocentos, a Comarca já se subdividia em oito Termos. Em 1838, São João del Rei adquiriu a categoria de Cidade, indicativo, sem dúvida, de que, apesar dos desmembramentos territoriais, mantinha sua força e projeção política; o que, em grande parte, se explica por suas atividades econômicas.



Silvia Maria Jardim Brügger

em Minas Patriarcal

família e sociedade

(São João del Rei – Séculos XVIII e XIX)

Annablume. São Paulo. 2007.


Segunda-feira, Junho 15, 2009

 

NA ÉPOCA DO GOLPE


Uma frota de vasos de guerra norte-americanos — jactava-se o general Bragança — estava postada no litoral do Espírito Santo, próximo a Vitória, com homens, armas pesadas e munições suficientes para apoiar uma guerra interna contra os “comunistas de Jango” pelo tempo que fosse necessário. A Estrada de Ferro Vitória-Minas, da Companhia Vale do Rio Doce, já havia sido gentilmente cedida para servir de ligação entre Minas e o porto de Vitória. Se necessário, poderiam dividir o país em dois: acima e abaixo da Estrada de Ferro que, por coincidência, seguia a mesma direção do paralelo 31.

— Como na Coréia, lembrava o general... Foi uma pena que não tivesse havido resistência: teria sido divertido...

Depois de algum tempo, o general saiu e o Dr. Fábio convidou-nos a sentar-nos à frente de sua mesa. Disse-nos que, realmente, tinha ordem de prisão contra mim e que, depois de nossa chamada telefônica, andou pensando em onde mandar-me para aguardar os interrogatórios. Dizia que estava com dificuldades, já que tanto o DOPS como a Colônia Penal Magalhães Pinto (anexo da Penitenciária Agrícola de Neves), estavam superlotados.

Estava tentando que me recebessem no Quartel da Aeronáutica em Lagoa Santa, onde já se encontravam vários presos políticos. Enquanto conversávamos, recebeu ligação telefônica em que se autorizava minha internação naquele Parque.

Solicitei-lhe autorização para passar na Prefeitura (era Procurador Municipal), para pegar meu pagamento do mês de março. Dr. Fábio disse que, como me apresentara voluntariamente, poderia ir só. Oficializaria minha apresentação depois.

Respondi-lhe que, a partir daquele instante, considerava-me prisioneiro e queria ser acompanhado por policial, temendo ser reconhecido por algum Bragança’s boy de plantão que, para “mostrar serviço”, poderia submeter-me a violência.

O delegado achou razoável a ponderação, e designando o detetive Pena (conhecido por Peninha) para acompanhar-me, numa viatura do DOPS até a Prefeitura.

Houve alguns momentos de constrangimento, quando amigos meus da Municipalidade vieram cumprimentar-me e eu, temendo que fossem envolvidos na caça às bruxas, fazia-lhes sinal de que estava acompanhado.

Sem maiores problemas, consegui meu pagamento; entreguei-o a meu pai para levar a minha mulher. Fiquei com algum para eventualidades.

Voltamos ao DOPS onde fui identificado e fichado criminalmente.


Antônio Ribeiro Romanelli
em 1964 Minhas Histórias
do Cárcere e do Exílio
Mazza Edições. Belo Horizonte.
1994.

Sexta-feira, Junho 12, 2009

 

EM JUIZ DE FORA, ANOS 40


O PRESENTE


Era o aniversário de casamento de vovô e vovó. Não sei quantos anos faziam. Assisti às suas bodas de diamante (sessenta anos) em São Paulo e depois disso eles ainda ficaram muito tempo casados. Sempre me pareceu que tinham nascido casados.


Vovô estava preocupadíssimo com o presente. Em geral, não se preocupava tanto. Mas naquele ano, tinha ido a São Paulo misteriosamente e ninguém sabia o que era. Tia Inaiá dizia:


— São os remorsos!...


As infidelidades de vovô eram assunto. Na família se comentava rindo, com certa malícia complacente e divertida. Era uma família sem metafísica, onde o pecado não tinha nenhuma significação. Das vidas alheias também pouco se ocupavam. Eu soube no colégio que meu tio Nonô, que era chamado O Príncipe, tinha uma mulher e vovô a tirara dele, “montando casa”. Quando dei um chá para minhas colegas (o que constituía uma concessão por parte de vovó, porque a comunicação daquela família com a gente da cidade era nenhuma; não por desprezo, não, apenas desinteresse), uma das colegas, vendo Mulata, uma criadinha que servia a mesa, disse:


— Essa é que é filha de seu avô.


Vovó, aparentemente, ignorava tudo. Ela não era submissa. Não o desafiava, mas ele a respeitava. Tinha a sua individualidade, suas idéias próprias, falava o que queria, era enérgica com os filhos e os educou à sua maneira. Nunca os vi discutir em público. Uma única vez, os ouvi brigarem dentro do quarto (o meu era pegado). Fiquei tão aflita que saí correndo. Dizem que vovô, na verdade, fazia tudo o que vovó queria. Pode ser. Tinha paixão por flores e ele mandava vir sementes raras, mudas de árvores, de todos os lados. Do portão até a casa, plantou quaresmeiras com acácias intercaladas. Quando floriam, eu sentia que era uma glória se estar vivo. Toda a casa era assim: as flores tinham primazia absoluta. E quando vovó morreu, a grande preocupação de vovô foi plantar uma roseira no túmulo.


Mas a sua sensualidade era forte demais. Sua vitalidade, incontrolável e estava acostumado a tomar o que desejava.


Para festejar o aniversário de casamento, tia Carmem, irmã solteira de vovó, que dirigia a casa, preparou tudo com o maior cuidado. Toda a família tinha se reunido. Eu queria estar bonita. Tia Inaiá me levou para o quarto, colocou duas partes do meu cabelo para trás e pôs um laço de veludo preto. Na mesa enorme, preparada com as melhores louças sobre toalha branca, eu olhava aquele desfile de rostos. Mamãe, linda, estátua grega, perfil perfeito, porte de rainha. Tia Inaiá deslumbrante. Tio Carlos... que beleza! Vovó, olhos negros imensos que desmentiam a sua aparência de suavidade. Aqueles olhos não eram suaves, eram meio abismais. Dos filhos, uma parte tinha herdado os seus olhos, outra os de vovô, verdes-claros. Eu herdei os dela.


Naquela família, ao contrário da de mamãe, os sentimentos eram contidos. Uma aparente frieza em todos os seus gestos. Numa festa daquelas, havia emoção, mas não expansão. Vovô, à sobremesa, tirou do bolso uma caixa comprida e disse:


— Glorinha, isso é para você. Eu mesmo escolhi. A pérola é você, os brilhantes são os filhos.


Numa família sem a menor vocação para a solenidade, era um fato insólito.


Vovó olhou a barrete, linda, longa, perfeita. E disse baixo mas nitidamente:


— Nilo, se você fosse pôr um brilhante para cada filho que teve, não havia brilhante que chegasse!...


Ninguém ouviu. Todo mundo continuou a comer. Tia Inaiá disse que vovô, depois disso, melhorou consideravelmente.



Rachel Jardim

Os Anos 40

José Olympio. Rio de Janeiro.

3ª edição. 1985.


Terça-feira, Junho 09, 2009

 

RAPOSOS


 

A ARQUIDIOCESE DE MARIANA


A Igreja mineira deve uma reparação de justiça a esses heróis esquecidos, por ventura calculadamente desprezados, que foram os padres de outrora, bandeirantes da Fé, cujo ânimo, blindado pela couraça de um valor invulgar, nunca se lhes entibiou em face dos mil e incríveis tropeços que lhes levantava por davante a aspereza de uma terra saída apenas da barbaria, — o fantasma do Padroado enfrentando-os ameaçador a cada passo, — o vício, sob todas as modalidades, avassalando pavorosamente as almas — a torpeza da escravidão...


Injusta em geral a história desse malsinado clero, vergado ainda hoje ao peso de acusações em que todos, mal avisados, mais ou menos temos crido, sem lhes contrapormos as atenuantes que militam, numerosas e bradantes, em seu favor.


Antes de tudo é preciso não confundi-lo com essa aluvião de frades sem Deus e sem lei, que, devorados pela ganância e aturdidos pela sensualidade, desertores do dever, duplamente apóstatas, se derramaram pelas Minas, esquadrinhando-as de canto a canto, desedificando-as ferozmente e fazendo recair a responsabilidade de suas torpezas sobre o clero laborioso e construtor — o primeiro a deplorar, com a Igreja, a ignorância desses demolidores, tão engenhosos que contra eles sempre resultaram impotentes as medidas mais severas da própria Metrópole, em mais de trinta anos de nutrida luta, empenhada em vão em arredá-los de Minas (Inúmeros as avisos, ordens, etc. expedidos aos Governadores, apertando providências contra esses religiosos.).


Pugnam ainda por esse mal-aventurado clero razões outras, ainda não devidamente ponderadas. No completo abandono espiritual em que vivia, longe de seu bispo de quem o trazia apartado, menos que as grandes distâncias, o regime asfixiante do padroado, que controlava sistematicamente todo ato episcopal tendente a corrigir os clérigos pervicazes na indisciplina, desajudado e desamado, é de surpreender não houvera feito esse clero bancarrota total. Ao contrário, atirado ao mundo sem formação espiritual que o mantivesse à altura dos seus compromissos, porque não tivera seminário; sem amor ao estudo que o entretivesse, porque apenas iniciado nas letras; sem estímulos que lhe soerguessem o moral quando por ventura abatido, porque pouco virtuosa a sociedade do seu tempo, ainda assim soube cumprir seu dever e preencher sua missão, legando-nos esta formosa Igreja Mineira, porção de certo mais delicada da Igreja Brasileira.


Os que o acusam se informaram certamente com o Desembargador J. J. Teixeira Coelho, que, em 1780, lavrou tremendo libelo contra os sacerdotes da Capitania: “Os eclesiásticos seculares não têm dado melhor prova de sua conduta; faltam com o pasto espiritual às almas, são ambiciosos, simoníacos, rebeldes em pagar os quintos, etc.”


Estas acusações, porém, devem ter o peso destoutras: “Os povoadores da dita Província (Minas) ou são ou procedem dos europeus que se transportaram a ela excitados pela esperança dos seus interesses. A maior parte deles eram ou réus de delitos ou pessoas que nas suas terras não tinham mais do que aquilo que ganhavam pela enxada ou pelos ofícios vis que exercitavam.


“Estes homens que cá no reino eram a escória do povo e o desprezo dos bons, vendo-se em um país extenso e cheio de liberdade, fazem-se insolentes e querem ser fidalgos.”


[...]


“Aqueles mulatos que se não fazem absolutamente ociosos se empregam no exercício de músicos, os quais são tantos na capitania de Minas que certamente excedem o número dos que há em todo o reino.”


Alguma lhe fizeram, em Minas, a esse Desembargador!


Débil embora, porque não o logramos traçar veemente, fique todavia, nesta página sem vida, o protesto do nosso reconhecimento ao rude clero de outrora, operoso, construtor, de cujas faltas o redimiu totalmente essa grande fé que o animava, e de que nos restam numerosos e imperecíveis monumentos.



Cônego Raymundo Trindade

em Arquidiocese de Marianna – vol. I

Escolas Profissionais do Lyceu Coração de Jesus. São Paulo.

1928.


Domingo, Junho 07, 2009

 

A AVENTURA MARAVILHOSA DE DARCY RIBEIRO


Dei muito trabalho a todas elas, bem sei, prevalecendo-me da importância que me davam como Ribeiro e sobretudo pelo respeito que as professoras tinham por mamãe. Isso agravou-se na terceira e na quarta séries, principalmente na última, em que a professora era a prima Rosalva, que não aceitou as pressões de mamãe para ter paciência comigo.

A danada, para me controlar, inventou de fazer-me sentar ao lado das meninas. Justamente na carteira de Zulmira, a mais endiabrada delas, que me disciplinava com beliscões nas coxas. Foi terrível, tanto a humilhação de me sentar entre as meninas, o que dava gozação de toda a turma, como os beliscões de Zulmira. O suplício durou até que passei a beliscar as coxas dela. Era aquela gritaria, e Rosalva teve que desistir da maldade.

Não totalmente, porque me fez sentar com um aluno grandalhão e meio besta que, conduzido por olhares da professora, me ameaçava de pescoções lá fora e chegou a dar muitos. Livrei-me com pedradas nas pernas dele, toda manhã. O besta já entrava na praça do grupo escondendo as pernas. Levava pedrada na mão porque eu era muito bom de pontaria. Aí fizemos as pazes e eu comecei a persegui-lo com cotoveladas cada vez que alguém peidava na sala. Ele gritava: “Não fui eu, este não fui eu. Juro!”

Pus nele o apelido de Nheco. Até as meninas diziam, para seu desespero. Salvei-o ensinando o bobão a falar: “Nheco vai te comer, sua filha...!”

Rosalva se danou por perder o aliado e, agora, em lugar de um encapetado, tinha dois.

Meus exames finais, escrito e oral, ficaram falados. Lá estava a inspetora escolar, mamãe e outras mães. Ao fim, Rosalva quis me dar nota oito porque eu fora o pior aluno que ela teve em comportamento. A inspetora se zangou: “Não, senhora! Exame é exame, tem nota própria. O menino merece distinção.”

Mamãe sorria.

Nesse ano morreu vovó Mariazinha, de câncer. Lembro-me vagamente do cheiro ruim e dos gemidos de sofrimento dela. Naquele tempo, os médicos, por estupidez, dosavam sovinamente os analgésicos que davam aos doentes. Negar a única alegria de um terminal, que é sua injeção de morfina, é pecado grosso. Vovó tinha a risada mais bela e dobrada que ouvi na vida. Nunca me esquecerei de mamãe e todos os irmãos sentados em cadeiras encostadas na parede, chorando copiosamente. As caras lavadas em lágrimas. Silveira é bom de choro. Eu nem tanto.

Em 1934, entrei para o Ginásio Diocesano, depois da briga no último dia do grupo escolar. O ginásio para onde fui era uma droga, pior que o grupo escolar. Professores relapsos, incompetentes, faltosos, velhos e feios, que não impunham respeito a ninguém. Um deles, gordíssimo, aliás chefe de polícia, que tinha um troço no nariz que o fazia espirrar estrondosamente, explodiu comigo. Para não me matar, arrebentou com um murro a minha carteira. Eu tinha simulado fotografá-lo espirrando com a máquina caixote de um colega. Sem filme, aliás. A ruindade do meu curso ginasial só serviu para que eu fosse em branco para a universidade, numa inocência espantosa. Tamanha que, quando li a História da Filosofia, de Will Durant, me dizia: “Porra, esses gregos eram um barato; Montes Claros não tem ninguém como esse Sócrates”. Estava maravilhado.

A grande aventura desses anos ginasianos foi minha primeira transa efetiva. Ocorreu em Brasília de Minas, onde eu passava as férias, com o tio Otávio. Descobri, não sei como, uma putinha dos caminhoneiros, num rancho à beira da estrada, que dava ou vendia amor. Conversei com ela primeiro, depois voltei com uma moeda de mil-réis. Paguei e me exerci. Saí da cama dela orgulhosíssimo de mim, realizado.

O diabo é que essa primeira foda me custou uma gonorréia, e eu tive que confessar e pedir socorro ao doutor Hermes, que me curou. Grande coisa deste mundo são os antibióticos, que lavaram os homens e mulheres, antigamente tão sujeitos a doenças venéreas. Tendo me iniciado no amor e na gonorréia, que era também um orgulho, afastei-me ainda mais dos guris, que gostavam mesmo era de jogar futebol e fazer ginástica. Alguns eram excelentes na barra fixa, que eu pelejava para usar, mas era incapaz de girar o corpo e arrodeá-la. Assim foi até que o professor Gilson me disse: “Desse jeito não vai. Segure firmemente a barra, fique tranqüilo e, ali parado, pense com força, dando em sua imaginação um giro inteiro na barra. Depois gire.”

Deu certo!


Darcy Ribeiro
em Confissões.
Companhia das Letras. São Paulo.
1997.

Terça-feira, Junho 02, 2009

 

TIRADENTES


Joaquina, a filha de Tiradentes, vivia juntamente com sua mãe, a menor Antônia Maria do Espírito Santo, em Vila Rica, à época da Conjuração, cuja Devassa, em apenso sobre o estado de família dos envolvidos, indica ser criança de tenra idade essa criatura que, embora descendente do Alferes, passou quase que inteiramente esquecida à História. Morava, todavia, em casa diversa da do Alferes, que ficava situada à Rua de São José, atual Rua Tiradentes, e foi arrasada e salgada em seu terreno, como se ordenou na sentença de 19 de abril de 1792, proferida pela Alçada Régia.


A própria Antônia Maria narra, em requerimentos de outubro de 1789, um ao juiz ordinário e outro ao juiz do seqüestro dos bens dos conjurados, o Dr. Pedro José de Araújo Saldanha, sua aproximação ao Alferes e sua conseqüente perda de virgindade, do que resultou a expulsão de um feto e, depois, o nascimento da mencionada Joaquina. Disse que vivia com sua mãe D. Maria Jozefa, viúva de Antônio da Silva Pays, quando Tiradentes a viu e a aliciou “com promessas de casamento” e “lhe roubou a sua pudicície”, do que nasceu um feto e, depois, a menor Joaquina; e, para reparar em parte o haver maculado sua honra, o dito Alferes lhe deu “uma escrava por nome Maria, de nação angola, a qual concebeu e pariu um menino por nome Jerônimo, pardo fusco, ou cabra e agora de próximo outra cria parda por nome Franc.ca...


Também a Tiradentes atribuem a paternidade do soldado João de Almeida Beltrão, que residiu, organizou família e faleceu no então arraial do Indaial, depois Dores do Indaiá (Não se deve, contudo, esquecer de que essa paternidade é contestada pelos que admitem seria esse o registro de batismo do soldado referido (fl. 354, do livro próprio, da Matriz do Pilar, em Ouro Preto): “Aos quinze dias do mês de julho de 1787, nesta igreja matriz de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica do Ouro Preto, batizei e pus os santos óleos a João, filho natural que diz ser do cadete José Pereira de Almeida Beltrão e de Eugênia Joaquina da Silva, solteira; foi padrinho o Tenente Bernardo Pereira Marques, solteiro, todos desta freguesia, de que fiz este assento. O Coadjutor Antônio Ribeiro Azevedo”. O assunto reclama comprovação e análise!). Teria ele, segundo escreveu Assis Rocha, no “Minas Gerais”, entre 12 e 15 de fevereiro de 1923, por mãe Eugênia Maria de Jesus ou Eugênia Joaquina da Silva, outra companheira do Alferes em Ouro Preto e senhora de expressiva beleza e longa existência, pois morreu com 121 anos de idade. Beltrão fora, criança ainda, levado ao Indaial, pouco depois da captura do pai como envolvido na Conjuração, e, ali, recebido como filho de um bacharel em leis.


João de Almeida Beltrão, casando-se com Maria Francisca da Silva, deixou a seguinte descendência, considerada também como sendo a do Alferes:


1 — Anna, cc. José Gomes de Moura, ambos falecidos em Quartel-Geral, no antigo município de Dores do Indaiá. Filhos desse casal: Flávio Gomes de Moura, falecido em Sacramento; e outro de nome e destino ignorados.


2 — José de Almeida Beltrão, cc. Maria Magdalena, falecidos ambos em Uberaba, sem deixar descendência.


3 — Lúcio, falecido aos nove anos de idade, na residência dos pais.


4 — Francelina Fausta Josina, cc. Joaquim dos Santos Caldeira, falecidos em Quartel-Geral, deixando vários filhos.


5 — Carolina Augusta Cesarina, cc. Antonino Alves de Rezende, falecido em Curvelo. Deixaram as filhas Gavina e Carlota Augusta Cesarina. Carolina nasceu em 1819 e faleceu em Uberaba, já muito idosa.


6 — Elisa Lisboa Magdalena do Carmo, solteira, falecida em Morrinhos, Goiás, deixando filhos.


7 — Justino de Almeida Beltrão, cc. Emiliana de tal, falecidos ambos em Morrinhos, Goiás, deixando vários filhos, que, por sua vez, legaram numerosa descendência.


8 — João de Almeida Beltrão Júnior, cc. Maria de tal. Não deixaram filhos.


9 — Belchior de Almeida Beltrão, cc. Maria de tal e, depois de enviuvar-se, com outra Maria. Residiu em Dores do Indaiá e, do último casamento, lhe vieram filhos.


Além disso, Tiradentes fazia, quando em Vila Rica, incursões em casas de tolerância, que não eram poucas ali, porque, para a capital da Capitania, afluíam habitantes das mais diversas paragens e sempre forçados, quando estavam a negócio, a permanecer por alguns ou muitos dias em Vila Rica. Nessa ocasião, acabavam atraídos pelo mulherio sequioso de clientela possuidora de maiores recursos, já que a decadência da mineração fizera a moeda quase que desaparecer do bolso dos vila-riquenhos. Coube ao Cônego Luís Vieira da Silva levar para os autos da Devassa a confirmação desses deslizes do militar e conjurado, deslizes, aliás, já conhecidos na capital. Depondo, afirmou o sacerdote revolucionário que recebera do desembargador intendente Francisco Gregório Pires Monteiro Bandeira o esclarecimento de que “o mesmo Tiradentes andara nesta Villa por casa de várias meretrizes a prometter prêmios para o futuro, quando se formasse nesta terra huma República”.


[...]


Pelo que se conclui, a tese de que a descendência de Tiradentes alcançou gerações, ampliou-se no século XIX e chegou a nossos dias carece, ainda, de comprovação isenta de qualquer dúvida. Não que seja ela impossível. E há até lógica em supô-la realidade. O que se afirma é a ausência de documentação que a comprove de maneira cabal, embora sejam dignos de respeitoso apreço e de louvores os esforços dos que, vencendo dificuldades inúmeras, admitem e proclamam a veracidade da existência, até nosso tempo, de descendentes do Alferes. Não é, por isso, inoportuno proclamar que esses pesquisadores prestam à História de Minas e do Brasil valiosa colaboração, merecedora de novos adeptos.



Oiliam José

em Tiradentes

Itatiaia / Edusp.

Belo Horizonte / São Paulo.

1985.


Domingo, Maio 31, 2009

 

NOVA LIMA


 

OS AUTOS DE DEVASSA


1 — AUTO DE CORPO DE DELITO

2.1 — Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e oitenta e nove, aos quatorze dias do mês de junho do dito ano, nesta Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, e casas de residência do Doutor Desembargador Pedro José Araújo de Saldanha, Ouvidor Geral e Corregedor desta Comarca, onde eu, Escrivão ao diante nomeado, fui vindo, e sendo aí, pelo dito Ministro me foram dadas as seis cartas de denúncia que sucessivamente apresentaram ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Visconde de Barbacena, Governador e Capitão General desta Capitania, de cuja mão as recebeu: o Coronel Joaquim Silvério dos Reis; o Tenente-Coronel Basílio de Brito Malheiro; o Mestre de Campo Inácio Correia, com o seu respectivo Auto de Ratificação e mais declarações; o Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire de Andrada; o Coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes; e o Tenente-Coronel Domingos de Abreu Vieira, com os mais papéis e Auto de Achada às mesmas juntos; que tudo vai por mim rubricado por assim o determinar o dito Ministro; cujas cartas manifestam e denunciam o plano de uma sublevação que se pretendia concitar nesta Capitania, indicando-se juntamente nelas alguns dos cúmplices que intervinham na referida confederação; as quais cartas e mais papéis juntos ficam servindo de corpo de delito, que nas mesmas se fez para a Devassa a que manda proceder o dito Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General pela sua Portaria ao diante junta, datada de doze do corrente mês; do que tudo, para assim constar, mandou ele referido Ministro formar este auto, em que assinou comigo o Bacharel José Caetano César Manitti, Escrivão nomeado que o escrevi e assinei.

Saldanha. — José Caetano César Manitti


Portaria do Visconde de Barbacena ao Des. Pedro José Araújo de Saldanha. Vila Rica, 12-06-1789.

Por ter chegado à minha notícia que algumas pessoas tinham formado nesta Capitania o temerário e abominável projeto de uma sublevação contra a Majestade e legítima Soberania da Rainha nossa Senhora, que Deus guarde, e da sua Real Coroa, conjurando-se entre si, podendo corromper a fidelidade do povo e da tropa, e usando para o mesmo fim de outros perversos e horrorosos meios, ordeno ao Desembargador Ouvidor Geral e Corregedor desta Comarca que, autuadas as denúncias ou representações, cartas e mais papéis que lhe entrego, haja de proceder com toda a circunspecção e segredo possível à investigação e inquirição devassa deste gravíssimo delito sem determinado tempo ou número de testemunhas, escrevendo nela o Doutor José Caetano César Manitti, Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca do Sabará, que na conformidade das ordens de Sua Majestade tenho nomeado para escrivão em todas as diligências, procedimentos e autos judiciais concernentes ao exame deste importante negócio; e confio da fidelidade, inteligência, atividade, e zelo pelo Real serviço, de um e outro Ministro, o completo desempenho dele, procurando conhecer não somente os autores e cúmplices de tão execranda maldade, mas todo o pernicioso sistema e progresso dela, e dando-me parte de tudo para eu ocorrer continuadamente com todo o auxílio e providência que forem necessárias.


Vila Rica, 12 de junho de 1789

(Rubrica do Visconde de Barbacena)


Autos de Devassa da Inconfidência Mineira
volume 1
Câmara dos Deputados / Governo do Estado de
Minas Gerais. Brasília / Belo Horizonte. 1976.

Sábado, Maio 23, 2009

 

O ROMANCEIRO


CENÁRIO


Passei por essas plácidas colinas

e vi das nuvens, silencioso, o gado,

pascer nas solidões esmeraldinas.


Largos rios de corpo sossegado

dormiam sobre a tarde, imensamente,

e eram sonhos sem fim, de cada lado.


Entre nuvens, colinas e torrente,

uma angústia de amor estremecia

a deserta amplidão na minha frente.


Que vento, que cavalo, que bravia

saudade me arrastava a esse deserto,

me obrigava a adorar o que sofria?


Passei por entre as grotas negras, perto

dos arroios fanados, do cascalho

cujo ouro já foi todo descoberto.


As mesmas salas deram-me agasalho

onde a face brilhou de homens antigos,

iluminada por aflito orvalho.


De coração votado a iguais perigos,

vivendo as mesmas dores e esperanças,

a voz ouvi de amigos e inimigos.



Cecília Meireles

em Romanceiro da Inconfidência

Nova Fronteira. Rio de Janeiro.

19ª impressão. 2004.


Quarta-feira, Maio 20, 2009

 

EM BH, NOS ANOS 50


Outra vez, a briga foi com o ator José Aurélio Vieira. Reproduzo aqui a notícia estampada nas páginas do “Diário da Tarde” de dezembro de 1959, na coluna “Arte Confidencial”.

Conto-vos agora, senhores, o terrível caso em que se envolveu o Sr. Giustino Marzano, diretor do Teatro Universitário. Tudo começou com um desentendimento entre o Sr. José Aurélio, do Teatro da Cultura Italiana e o dito Marzano.

Além de desejar interferir no trabalho de José Aurélio durante uma peça da Cultura, Marzano quis impedir que os atores do Teatro Universitário participassem do espetáculo.

José Aurélio não gostou da história e retirou-se do teatro com o apoio do maestro Sérgio Magnani. E a peça acabou não sendo levada.

Mas o acontecimento foi revivido há poucos dias na esquina do Banco da Lavoura. À noite, Marzano e José Aurélio encontraram-se, tendo o primeiro — como é de seu estilo — dirigido palavrões ao jovem entusiasta do Teatro da Cultura Italiana.

José Aurélio, que é rapaz calmo, apesar disto não se conteve e respondeu à altura — revidando o ataque inesperado e grosseiro do diretor do TU. A briga prosseguiu por todo o quarteirão que vai do Banco da Lavoura à Padaria Boschi, chamando até mesmo a atenção das pessoas que andavam pelo centro da cidade. Essas pessoas ficaram particularmente espantadas com os berros dramáticos de um dos que discutiam. Os berros, não é preciso dizer, eram do diretor do Teatro Universitário — que, no momento, virou ator e dos bons.

Depois da montagem do Crime na Catedral nada de bom, ou pelo menos razoável, foi produzido por Marzano. Me lembro, por exemplo, da chatíssima e arrastada montagem de O Apolo de Belac estrelada pelo ator Guido de Almeida, que foi colocado no palco fazendo poses intermináveis, como se estivesse participando daquela velha brincadeira de “estátua”.

Fazendo um parêntese, recordo-me dos sofrimentos pelos quais passou Dame Margot Fonteyn em Belo Horizonte. Ela percorria o Brasil, apresentando-se gratuitamente em benefício das obras sociais de Sarah Kubitschek. Era sua maneira de agradecer o asilo que nossa embaixada deu a seu marido, perseguido político em seu país. Entre outras coisas, foi levada ao teatro para assistir O Apolo de Belac. Duas horas agüentando uma chatice da qual não entendia uma palavra! Outra barbaridade foi ter sido levada ainda cansada, depois da apresentação de Giselle ao Automóvel Clube para um jantar com autoridades e políticos, e ainda assistir a um show de Ivon Cury. Dançar no verdadeiro barracão que era o Francisco Nunes, que nem camarim direito tinha, acompanhada por bailarinos do Ballet da Cidade de São Paulo, que não estavam à sua altura, já foi um sacrifício enfrentado com a classe própria das grandes “dames”. Mas o jantar foi demais. Mesmo assim, ela, finérrima, a tudo suportou com um sorriso nos lábios.

Sabendo como qualquer artista gosta de um “relax” após a apresentação, nós, do grupo de Klauss Vianna, a havíamos convidado para um “petit-comité” que teria lugar na casa de Sigrid Hermany. Tudo muito íntimo e informal, apenas com poucas pessoas ligadas ao “métier”. Foi então que fomos procurados por Murilo Badaró, que nos pedia para abrirmos mão do convite para que ela pudesse comparecer ao Automóvel Clube. Em troca, estávamos também convidados e teríamos uma mesa à nossa disposição. Ingenuamente cedemos. Margot, onde você estiver, nos perdoe. Se hoje o Automóvel Clube é um lugar chatíssimo, cheio de múmias e peruas, na época era pior. A coitada foi colocada no centro de uma mesa comprida, perto do palco da “boite” “Príncipe de Gales” (nada mais gagá!). Ao seu lado, várias autoridades querendo aparecer que — desconfio — nem falavam inglês. No palco, Ivon Cury, com sua ridícula peruca, cantando “O Retrato de Maria”. Quem conhece a música e a interpretação do cantor irá me entender bem. Quem não conhece, agradeça a Deus tanta ventura. A coitada ganhou um pedaço do céu naquela noite. Nós, os integrantes do Ballet Klauss Vianna, fomos colocados em uma mesa convenientemente afastada da “gente bem” da cidade. Ali, lamentávamos profundamente a maldade que fizéramos com uma figura tão admirada. Ela já havia declinado do convite das “autoridades” por estar comprometida conosco. Teria adorado uma reunião alegre e descontraída “entre os seus”. Só pudemos nos aproximar dela para entregar o presente que havíamos comprado, um bonito colar do artista plástico Consolaro, famoso na época.


Lúcia Helena Monteiro Machado
em A Filha da Paciência
na época da geração complemento
BDMG Cultural. Belo Horizonte.
2001.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

 

EM BH COM FRIEIRO, 1942


12 de novembro — Encerradas as aulas na Faculdade. Excelente curso para os alunos da primeira série. Medíocre para os da segunda. Minhas alunas da segunda (são só moças, nesta série) fizeram no ano passado um curso que muito me satisfez. Este ano, porém, nem por isso. E, fato estranho, obstinaram-se em não ler o Don Quijote, talvez por ser a obra cuja leitura, integral e bem feita, eu recomendava como indispensável. As cinco alunas da turma formaram uma verdadeira clique contra Cervantes e a sua obra imortal. Estúpidas? Não. Apenas certa tacanhez de espírito, encontradiça em quem passou por colégios de freiras.

Essas moças ouvem missa todos os dias. Confessam-se e comungam a miúdo. Como alunas de um curso de letras, cometeram um grave pecado: declararam inimizade a Dom Quixote. Isto, sim, é que foi pecado, e deviam correr a confessá-lo a algum padre inteligente que porventura conhecessem.


Cervantes será vingado. Essas moças que se enganaram de vocação, deixando as prendas domésticas por umas vagas letras, ficarão para tias, serão muito breve umas maritornes inaptas para excitar nos homens qualquer apetite de casamento.


13 de novembro Crê-se que as nações unidas esmagarão ainda a Alemanha, como em 1918. E também o Japão. É isso possível? Não me parece. Não existem forças no mundo capazes de deter o ímpeto expansivo desses dois povos pletóricos de vigor.


14 de novembro — O Guilhermino me disse: — “Você tem um terrível inimigo na Imprensa, F.... Cuidado com ele.”

“Ora, essa! Pensei comigo. Não me lembro de ter feito qualquer bem a tal sujeito.”


15 de novembro — Matinée no Glória. Fita de Far West, tirada de uma história do clássico Rex Beach: The Spoilers. Cartaz com Marlene Dietrich, John Wayne (o galã nobre), Randolph Scott (o mau moço), Richard Barthelmess, decaído num papel de terceira ordem e William Farnum, o outrora glorioso e querido William Farnum, numa ponta indigna.


Por que agradam sempre estas histórias de violências, correrias, valentonadas, turbulências de aventureiros e out laws? Porque estimamos, no fundo de nós mesmos, o crime, a desordem e a violência, dir-se-á. Não é isso. É porque somos eternas crianças e por isso amamos a bravura, o desapego à vida, a coragem, a intrepidez — virtudes elementares, capitais, as mais dignas de apreço no homem. A mulher quer-se bonita; o homem, corajoso. Nos filmes americanos (ao menos, nos mais típicos), a mulher bonita e virtuosa acaba sempre casando com o homem corajoso e bom. Dir-se-á que na vida real não acontece assim. Dir-se-á que se a virtude costuma ser premiada, o vício às vezes também o é, e que na realidade a injustiça é mais freqüente que a justiça e a sem-razão mais que a razão. Mas a verdade é que o preconceito do happy end, censurado nos filmes de Hollywood, é tão legítimo como o do bad end, preferido pelos cenaristas.


20 de novembro — Comprei, num sebo, El estupendo Cornudo, de F. Crommelynck, farsa genial que teve um êxito imenso na Europa, há vários anos. A tradução espanhola, que li, é de 1925, edição da Revista de Occidente, que tão boas obras traduziu e lançou. Li Le Cocu Magnifique com espanto e admiração, com alegria de leitor que encontra algo raro e de qualidade verdadeiramente superior.


22 de novembro — No Cine Brasil, A Vida Assim é Melhor, com Charles Laughton, John Hall, Victor Francon e outros. Filme em que entra Laughton é necessariamente bom. O grande artista é a réplica britância do inesquecível Emil Jannings.



Eduardo Frieiro

em Novo Diário

Itatiaia. Belo Horizonte.

1986.


Sábado, Maio 16, 2009

 

BELO HORIZONTE


 

MINAS: CIDADES BARROCAS


Além das citadas, e a mais significativa da cidade, é a Capela de S. Francisco de Assis. Do outro lado do córrego do Lenheiro, goza de posição privilegiada. Dispõe de largo espaço, em suave inclinação, favorável a agenciamento paisagístico, com aléias empalmeiradas e graciosa escadaria para o terraço elevado, protegido por balaustrada em pedra.


O projeto original é de Antônio Francisco Lisboa, parte do qual encontra-se no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Na obra trabalham o projetista e Francisco de Lima Cerqueira. Concomitantemente está sendo construída a capela franciscana de Vila Rica e, do confronto dos dois templos, ressaltam as inquietações de seus autores, a evolução de suas idéias originais, a mútua influência e, provavelmente, a rivalidade das Ordens que as erigem, cada uma delas empenhada em mais brilhantes resultados.


São cilíndricas as torres. Arrematam-nas cúpulas protegidas por varandas, infreqüentes na região. As paredes ondulam em curvas de três centros, elevando a cumeeira da nave em curiosa corcova.


O desenho original da frontaria não corresponde exatamente à execução. Naquele, as janelas de coro apresentam-se como quadro emoldurado, a decoração da sobreporta é complexa e concentrada. As janelas realizadas adotam solução mais arquitetônica, e a composição da portada se apresenta mais clara e expandida. Ao alto incorpora medalhão, não-previsto, da Virgem, com fitas falantes e coroa. No fecho da verga inclui-se a cabeça de Cristo. Nas cartelas centrais, aladas, inscrevem-se as armas de Castela e os símbolos da Ordem.


É de presumir-se o predomínio de Lima Cerqueira na execução da obra. Se em muitos detalhes é visível o trabalho de Antônio Francisco, nos demais prevalece caligrafia diversa, mais contida que desenvolta e mais sóbria que requintada. O frontão, por exemplo, não corresponde ao estilo e projeto de Antônio Francisco. Desenvolve-se afastado das torres, recorta-se em perfis menos caprichosos e se apresenta um tanto pesado em seu singelo comportamento.


O interior da Capela revela, igualmente, trabalho de múltipla autoria. O desenho dos retábulos condiz com a personalidade de Antônio Francisco; a execução lhe é alheia. Entalha apenas alguns pormenores, dentre os quais se destacam os baixos-relevos das portas dos tabernáculos, nos altares de S. Luzia e de S. Bona (?). É também de sua lavra a imagem de S. João Evangelista, cuja postura lembra a do Profeta Habacuc, em Congonhas do Campo.


Lamentavelmente, não são dourados e pintados os retábulos da nave. Dispõem, somente, do prévio engessamento, em branco, que prejudica bastante os efeitos de luz e sombra promovidos pela talha. Em compensação, permite conhecimento dos processos utilizados em seu acabamento.


Além dos detalhes citados, possui ainda a capela rico arcaz de sacristia e excelentes candelabros do mais rico cristal colorido.


Outras capelas e Passos da Paixão completam a arquitetura religiosa local. Não lhe é inferior o conjunto arquitetônico civil. São típicas, nas construções particulares, as beiradas de telhas sobrepostas, conhecidas como beiraseveiras. Formam colméias que rendilham os topos das fachadas, projetando sombras sinuosas sobre a superfície dos muros. Típicos, também, são os relevos em estuque que ornamentam vergas e ombreiras, pilastras e cimalhas, forros e tabeiras. Constituem novidades do século XIX, e conferem às construções fisionomia alegre e vaidosa. Às vezes chegam a lembrar relevos delicados, de cristais, opalines e louças da mesma época, em moda na Europa. Tanto ornam residências modestas como opulentos sobrados da nobreza rural, produzidos pelo café. Muitos destes alcançam três pavimentos. Alguns aproveitam os desvãos dos telhados em camarinhas.


O mais importante sobrado acolhe o Museu Regional. Nele estão preservados conjuntos de móveis locais, imagens, telas e objetos, representativos da civilização sul-mineira. Arquivos, eclesiásticos e civis, completam o acervo do Museu, criado e mantido pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.


Outro edifício que se destaca é o da Prefeitura. Além da boa arquitetura possui excelente biblioteca, na qual se conservam publicações raras do maior interesse.

Em alguns trechos urbanos muitas residências se mantêm intactas em sua vetusta integridade. Em seu conjunto, deixou-se a cidade impulsionar pelo progresso. Iniciativas industriais a ampliam e valorizam. Sobre a fisionomia antiga outra superpõe-se, recriando glórias.



Renée Lefèvre, Sylvio de Vasconcellos

Desenho Lírico das Minas Antigórias

em Minas: Cidades Barrocas.

Cia. Editora Nacional / Editora da Universidade de São Paulo.

São Paulo. 1968.


Sexta-feira, Maio 15, 2009

 

FEIJÃO, ANGU E COUVE


As notícias acerca do ouro e dos diamantes do Brasil corriam mundo e, coloridas pela lenda, fascinavam a imaginação dos estrangeiros. Era aqui o novo Eldorado. Colhia-se muito ouro na vasa dos regatos e achavam-se diamantes, às vezes grandes como ovos de pombo, na água das enxurradas. Acontecia, porém, que o governo português não permitia a entrada de estrangeiros, com o receio de que descobrissem e lhe arrebatassem as riquezas ocultas no interior do país. Foi assim até à chegada do Príncipe Regente, quando se consentiu na entrada de viajantes ingleses, filhos da nação aliada de Portugal. Logo depois se permitiria também, oficialmente, a entrada de viajantes e cientistas de outras nacionalidades. A grande província das minas de ouro e diamantes era a que mais atraía a todos. Do que viram e observaram em suas excursões pelo interior — trabalhos minerais, lavoura, fazendas, usos e costumes, as várias particularidades da vida pública e privada —, deixaram os forasteiros depoimentos valiosos, que constituem hoje o que há de mais interessante na bibliografia brasiliana relativa ao século passado. As impressões dos viajantes, objetivas ou verazes tanta vez, curiosas sempre e não raro também fantasistas e mesmo mentirosas, podem reduzir-se a um mínimo denominador comum: o do espanto que a todos causava o contraste das riquezas naturais e da pobreza humana.

Até os primeiros anos do século da Independência, o quadro da vida nas vilas e povoados de Minas era o mesmo observado no século XVIII. Ruelas tortuosas e ladeirentas não tinham calçamento nem iluminação pública. Só podiam ser transitadas à noite por quem levasse lanterna, ou caso houvesse luar. De dia, atravancavam os logradouros públicos galinhas, vacas, cavalos, porcos e cabras. Rocha Pombo esclarece-nos acerca de alguns costumes da vida na cidade colonial, como por exemplo o que se refere à mesa das famílias remediadas ou mesmo ricas:

“À mesa ordinariamente só se assenta o dono da casa, e quando muito os filhos já casados, e algum hóspede de consideração. Mesmo nos dias de festa, tomam os homens assento a um dos lados da mesa, e as mulheres ao outro, todos em bancos. Quase sempre, come-se com as próprias mãos. Só muito tarde é que se foi introduzindo o uso de talheres. Ainda assim, até depois da Independência, em muitas vilas do interior, nem todas as pessoas sabiam servir-se senão da colher. O mais que de gentil podia fazer o dono da casa a um comensal de distinção era cortar a carne e oferecer-lha assim... mesmo porque na mesa não havia mais de uma faca. Logo depois da fase do ouro, faziam os ricos questão de ter baixelas de preço, mais por luxo do que para uso. O mesmo que comia a sua farinha com as próprias mãos, chegando um hóspede ilustre, fazia descer das prateleiras as porcelanas, os cristais e as pratarias.”

Os documentos escritos do passado falam quase invariavelmente da decadência das Gerais, de potentados cobertos de dívidas, do descontentamento dos mineradores, de indolência, incúria e ruína. D. Rodrigo de Meneses, em 1780, propõe medidas para “vivificar as cadavéricas Minas“ (assim se exprime), em face da situação de pobreza duma Capitania que não era agrícola nem comercial e só vivia da mineração em contínuo descenso. Em outro documento do mesmo ano, a notável Instrução para o Governo da Capitania das Minas Gerais, o desembargador José João Teixeira Coelho fala da pobreza das Minas. Os mineiros, escrevia o desembargador, faltos de cabedais e onerados com muitas dívidas, não podiam abalançar-se a fazer serviços custosos. Contentavam-se, pela maior parte, em serem simples faiscadores. Em alguns sítios de suas terras se ocultavam ricas formações e veeiros de ouro. Para extraí-lo, porém, era preciso realizar vultosos serviços que excediam de muito as suas possibilidades. Agravavam as dificuldades, dizia a Instrução, o mau método de minerar e a falta do braço escravo, escasso e caro.


Eduardo Frieiro
em Feijão, Angu e Couve
ensaio sobre a comida dos mineiros
Centro de Estudos Mineiros. Belo Horizonte.
1966.

Quarta-feira, Maio 13, 2009

 

A SELEÇÃO DE DRUMMOND


MORRO VELHO



cccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccI



Olhando agora para Oeste, o imenso palácio das trevas, escuro em longa perspectiva apresenta-se com um aspecto tremendo; acima de nós parecia haver um céu sem atmosfera. As paredes ou eram negras como superfície polida e úmida, ou se abriam em projeções monstruosas, em parte revelando e em parte escondendo os recessos cavernosos e tenebrosos. Apesar das lâmpadas a noite nos oprimia como um peso e a única medida da distância era uma centelha aqui e ali brilhando como uma estrela isolada. Realmente dantesco era o golfo entre os imensos flancos da montanha que pareciam ir cair a todo o momento. Tudo parecia mudado, até mesmo o timbre de uma voz familiar, o ruído agudo da triste batida do martelo sobre o ferro perfurante e deste na pedra chocava o ouvido, golpes soavam regularmente como marcando o ritmo do canto selvagem do britador. Outros sons conhecidos pareciam estranhamente complicados pelo eco; eram o burburinho da água no caminho subterrâneo, o tinir das pedras de ouro atiradas nos baldes e o ranger da corrente e da caçamba. Através deste inferno passam gnomos e gênios à maneira de fantasmas, figuras meio despidas, embuçadas pela neblina. Aqui homens escuros, brilhando com suor em rosário, suspensos por correntes em posições que pareciam horríveis; ali eram eles balouçados de lugar para lugar como Leotardo; acolá subiam por cordas acima como trogloditas; adiante andavam sobre andaimes, os quais, só de serem olhados de baixo, fariam um temperamento nervoso ficar vertiginoso. Só este espetáculo nos satisfazia amplamente. Era um lugar:


Em que os pensamentos eram muitos

e as palavras eram poucas


mas o seu efeito se conservará em nossa retina mental enquanto nossos cérebros exercerem suas funções.


Ao fim de duas horas deixamos esta caverna catedrálica listada de ouro e passamos incólumes do minério aos gramados. [1868]



Richard F. Burton

em Brasil, Terra & Alma

Minas Gerais

seleção de textos de Carlos Drummond de Andrade

Editora do Autor. Rio de Janeiro.

1967.


Segunda-feira, Maio 11, 2009

 

SETE LAGOAS


 

NAVA


No extremo oposto da sala, outra, iluminando secretaria ainda vazia. No largo espaço entre as duas, uma mesinha encimada por máquina Remington daquelas antigas, umas que pareciam de dois andares, altas, como os fordes de bigode. Aproveitando o silêncio e o deserto, fui me inteirar do resto da repartição. Voltei à sala que tomara para entrar na minha. Nela davam outras portas: a primeira abria numa peça com três mesas dispostas duas ao fundo e uma fronteira, atulhadas de papéis, de mais papéis, de papéis que enchiam os altos duma estante, as cadeiras, empilhando-se mesmo no chão, ao lado das giratórias que deviam ocupar os donos das mesas. Toda a parede do fundo era tomada por mapa gigantesco de Minas Gerais tendo várias localidades marcadas por bandeirinhas cujo cabo era um alfinete longo e grosso. Eram de cores variadas — havia verdes, brancas, vermelhas, amarelas. Ousei entrar os pórticos do “Gabinete do Diretor”. Sua secretária estava aberta e primorosamente arrumada, as borrachas, raspadeiras, vários lápis de cor, as canetas, o tinteirão de cristal, o berço do mata-borrão — dispondo-se com esmero e fazendo uma composição lustrosa e nítida como as coisas e móveis que aparecem nos quadros dos mestres holandeses. Podia entrar na tela de Keiser e servir para a cena de O Burgomestre e os Magistrados Municipais de Amsterdam recebendo o Embaixador da Rainha Maria de Médicis. Abri a portinha no canto: eram a latrina e a pia privativas do Senhor Diretor. Tudo ali reluzia de limpeza e a banca do fundo parecia uma cátedra, um assento curul, uma estala de coro, um trono, uma sédia. Não tinha, em cima, o dossel que procurei mas uma caixa de descarga de que pendia corrente a prumo dotada dum precioso punho de louça colorida. Uma toalha engomada e mais rendada que um paramento de igreja pendia do lado duma pia positivamente batismal. Retornei à saleta, fui andando até à portaria e divisei por batentes abertos o Seu Deolindo no fundo duma sala, conversando com um senhor muito magro, pele do rosto vermelha e dum polimento como se tivesse sido envernizada. Através de óculos grossos e cintilantes dois grandes olhos mansos e bons encontraram os meus. O Seu Deolindo chamou-me. Entre aqui e venha conhecer o Dr. Abílio de Castro, nosso antigo Diretor, um dos esteios desta Casa. Apertei a mão que me era estendida e sentia-a entre meus dedos — firme, decidida e fina e longa como a dum pianista. Reparei melhor no homem, agora um sorriso benevolente na face. Tinha um princípio de calva, cabelos muito crespos grisalhando, era magro, mostrava dentes magníficos, vestia-se sem elegância mas com asseio e decência. Quando ele tornou a sentar-se descansou ambas as mãos sobre um vasto papel quadriculado cheio de dezenares, centenares, milhares de risquinhos de todas as cores do arco-íris. Era sua maneira de tabular as estatísticas sanitárias da pequena parte do Estado onde já tinham chegado uma tênue Saúde Pública e uma rala Profilaxia Rural. À sua frente os lápis apontados, mais finos que agulhas, com que ele fazia aquela policromia de Seurat, de Cross, de Signac. Sua voz era agradável e bem timbrada. Então o senhor é o novo colaborador? Pois eu lhe desejo muitas felicidades no trabalho. Já sei que é estudante de Medicina. Quando tiver intervalo no que vai fazer, se precisar alguma informação ou conselho, entre sempre nessa sala. Ah! Doutor Abílio... muito obrigado! O senhor nem sabe... Parei. Também, eu não podia dizer, diante do Deolindo, do prazer que eu tinha de estar encontrando uma criatura humana — destas de quem nos tornamos amigos à primeira vista, por espontâneas, não estanhadas e impermeabilizadas. Foi o caso. Grande Doutor Abílio! Comecei a bem querer nosso amanuense — pela apresentação. Foi rindo sozinho que voltei para minha sala, para minha mesa, onde tive de repente a desagradável impressão de um retorno ao Internato e de estar privado de saída pelo Quintino. Para desafogar fui respirar a uma das janelas. Elas davam nuns restos de cidade, depois nuns barrancos e trilhas de terra vermelha, num cerrado dentro do qual, muito longe, levantavam-se edificações, muros, puxados pintados de róseo e encimados por torreão passado à mesma tinta. Perguntei ao Deolindo que entrava o que era aquilo. Era o Posto Veterinário. Ah! torre cor-de-rosa... mal sabia eu que um dia ela parecer-me-ia um farol dentro de vastos mares — farol que eu namoraria por tabela. Ah! cor-de-rosa. Rosarrosa rosalando exalando o perfume que impregnou minha mocidade. Lá é que...



Pedro Nava

em Beira-Mar

Memórias 4

Nova Fronteira. Rio de Janeiro.

3ª edição. 1985.


Segunda-feira, Maio 04, 2009

 

UMA HISTÓRIA DE VIDA


O Zezé tinha três anos e meio e não falava nada. Ele punha o dedo para cima e ficava assim: um, um, um, mas não falava uma palavra. Falaram com a Dara para dar para ele carne de papagaio. A Dara combinou com o Chico Torresmo para matar o papagaio. O Chico encontrou foi maritaca e trouxe. O Zezé comeu maritaca, mas não adiantou. Ele tomou água na campainha da igreja, mas não adiantou. Então, a Dara fez uma promessa para São Benedito, santo preto, de ir à missa com ele. Mas eu tinha um empregado preto que tinha o apelido de Fornalha, ele carregava o Zezé nas costas para lá e para cá e o Zezé falava: Eta cavalo bão! Ele aprendeu a falar assim e hoje fala até demais. Também ficou mentiroso. Eu e a Dara fomos com ele na igreja e cumprimos a promessa.


O Chico Torresmo era tropeiro, vendedor de lenha, ficou com esse apelido porque certa vez a Sá Cotinha mandou ele matar um capado. Ela fritou a gordura e guardou os torresmos para fazer sabão. O Chico comeu a metade do torresmo. Quando a filha da Sá Cotinha, a Luíza, perguntou onde estava o sabão a mãe falou que só tinha a metade, pois o Chico comeu a outra metade. O genro da Sá Cotinha caçoou dele falando: “Ah, minha sogra, o Chico já fez o sabão lá nas bananeiras e era só enrolar na palha.” Mas o sabão do Chico era uma barra redonda e comprida. Quando a Sá Cotinha foi ver, era outra coisa diferente. O sabão do Chico fedia igual a uma bosta fedorenta.


Dia 14 de setembro era dia de Bom Jesus em Congonhas. E esta festa era feita em Cipriano e todos os anos o Crispim queria ir. Ele foi neste ano, 1924, e mandou eu e o Antônio ir à roça queimar umas coivaras, monte de cisco. Nós fomos e pusemos fogo nas coivaras. Mas o fogo saltou para o outro lado do brejo, no Rancho do Joaquim Fevereiro que continha uma certa quantidade de milho e de outros objetos de um Zé Português. Tivemos de pagar tudo, mas o Zé Português apresentou uma quantia de 84 mil réis, pois ele tinha tomado dinheiro emprestado para ir a Congonhas. Esse Zé Português falou que se nós não pagássemos ele mataria eu e o Antônio. Nessa época meu pai recebeu uma importância de 1 conto e 500, herdados do meu avô. Quando ele voltou da Mata com o dinheiro, minha mãe mandou ele dar o dinheiro ao Zé Português e ao Joaquim. Ele resolveu tudo em paz, mas do conto e quinhentos só sobrou 250 mil réis.


Pedro Lara
Pedro, uma História de Vida
Belo Horizonte. 1996.

Quinta-feira, Abril 30, 2009

 

BARROCAS FAMÍLIAS


Contudo, excomunhões e repreensões várias era o máximo a que poderia ir seu poder. Por isso muitas vezes os párocos trabalhavam conjugados com os vigários de vara, responsáveis pela administração das comarcas eclesiásticas, subdivisão imediata do Bispado e, esses sim, detentores de um poder de justiça eclesiástica. Suas atribuições, aliás, eram vastas, cuidando das punições contra delitos espirituais até a realização de casamentos e missas. Seu poder judicial em âmbito local seria requisitado sempre que as repreensões e avisos do pároco fossem insuficientes. A importância desses funcionários do clero secular não deve ser subestimada. Era tamanho seu poder, que foram os responsáveis pela execução da expulsão dos padres e frades licenciosos da Capitania de Minas Gerais no início de seu povoamento.


A prostituta Joana Vitória, na vila de Sabará, “pela sua dissolução, foi mandada expulsar dela pelo reverendo Doutor vigário da Vara”. Não obstante seu poder punitivo, esses vigários também enfrentavam a resistência da população. A mulata Mariana, em Nossa Senhora da Conceição do Mato Dentro, que já fora castigada pelo Vigário da Comarca por andar “mal encaminhada” com Manuel Correia, “ainda depois disso continua no seu mau estado”. Esse clero secular, na medida de suas forças, enfrentou e combateu as uniões extraconjugais estabelecidas entre a população.


As uniões consensuais envolviam um número muito grande de pessoas que o poder desse clero estava longe de controlar. O número de funcionários era pequeno para se ocupar, além da assistência espiritual corriqueira, da condenação de uma prática tão generalizada entre as populações. Por outro lado, a impossibilidade de instalação do clero regular na Capitania gerou uma sobrecarga nesse trabalho de assistência exercido pelos seculares aí estabelecidos. Concorrendo para dificultar ainda mais a correção da conduta dos fiéis encontraríamos nas Minas um clero rebelde na aceitação da reforma eclesiástica implantada com base no Sínodo de 1707. Párocos locais, avessos à subordinação em que deveriam permanecer em relação ao poder do Bispo, fugiam de seu controle e administravam livremente os sacramentos, muitos vezes desconsiderando suas normas de regulamentação. O resultado dessa independência ante os bispos, não apenas enterrava o projeto de institucionalização da Igreja, como “abría espacio para la laxitud y la tolerancia ante comportamientos condenadores, pero comunes como el concubinato”.


Ao mesmo tempo, não ajudava na consolidação de uma conduta religiosa a presença de clérigos extremamente indisciplinados. A desmoralização do clero, espalhado pelas vilas mineiras, certamente contribuiu para afastar a população da religiosidade oficial ou pelo menos proporcionou um desgaste entre alguns fiéis menos convictos. Em Vila do Príncipe, o padre Manuel Delgado Duarte “tem em sua casa uma moça branca com o título de sua prima e murmura-se que ele trata com ela ilicitamente (...)”. Outro clérigo, o Reverendo Simão Peixoto — figura que reencontraremos adiante — tempos mais tarde, nessa mesma vila, seria denunciado em uma conflituosa e pública relação com uma preta forra chamada “a Rabu”, com quem costumava brigar no meio da rua e cuja filha teria sido, ainda, deflorada pelo padre. Distante dali o clérigo Francisco Ferreira de Assunção explorava a prostituição de suas três escravas, as negras Ana, Antônia e Juliana. Outros, apóstatas, envolver-se-iam em atividades de contrabando, bebedeiras e banditismo, escapando das ordens de expulsão e prisão que sobre eles recaíam. Assim, como conseguir disciplinar a vida conjugal da população, já fracamente atendida na sua espiritualidade, com exemplos tão destoantes, nascido no interior do próprio corpo de funcionários da Igreja?



Luciano Raposo de Almeida Figueiredo

em Barrocas Famílias

vida familiar em Minas Gerais no século XVIII

Hucitec. São Paulo. 1997.


 

CORDISBURGO


Segunda-feira, Abril 27, 2009

 

AS CARTAS CHILENAS


CARTA 2ª - final


O povo, Doroteu, é como as moscas

que correm ao lugar, aonde sentem

o derramado mel; é similhante

aos corvos e aos abutres, que se ajuntam

nos ermos, onde fede a carne podre.

À vista, pois, dos fatos, que executa

o nosso grande chefe, decisivos

da piedade que finge, a louca gente

de toda a parte corre a ver se encontra

algum pequeno alívio à sombra dele.

Não viste, Doroteu, quando arrebenta

ao pé de alguma ermida a fonte santa,

que a fama logo corre, e todo o povo

concebe que ela cura as graves queixas?

Pois desta sorte entende o néscio vulgo

que o nosso general lugar-tenente,

em todos os delitos e demandas,

pode de absolvição lavrar sentenças.

Não há livre, não há, não há cativo

que ao nosso Santiago não concorra.

Todos buscam ao chefe e todos querem,

para serem bem vistos, revestir-se

do triste privilégio de mendigos.

Um as botas descalça, tira as meias

e põe no duro chão os pés mimosos;

outro despe a casaca mais a veste

e de vários molambos mal se cobre;

este deixa crescer a ruça barba,

com palhas de alhos se defuma aquele;

qual as pernas emplastra e move o corpo

metendo nos sobacos as muletas;

qual ao torto pescoço dependura,

despido, o braço que só cobre o lenço;

uns com bordão apalpam o caminho,

outros, um grande bando lhe apresentam

de sujas moças, a quem chamam filhas.

Já foste, Doroteu, a um convento

de padres franciscanos, quando chegam

as horas de jantar? Passaste, acaso,

por sítio em que morreu mineiro rico,

quando da casa sai pomposo enterro?

Pois eis aqui, amigo, bem pintada

a porta mais a rua deste chefe

nos dias de audiência. Oh! quem pudera

nestes dias meter-se um breve instante,

a ver o que ali vai na grande sala!

Escusavas de ler os entremezes,

em que os sábios poetas introduzem,

por interlocutores, chefes asnos.

Um pede, Doroteu, que lhe dispense

casar com uma irmã da sua amásia;

pede outro que lhe queime o mau processo,

onde está criminoso, por ter feito

cumprir exatamente um seu despacho;

diz este que os herdeiros não lhe entregam

os bens que lhe deixou, em testamento,

um filho de Noé; aquele ralha

contra os mortos juízes, que lhe deram,

por empenhos e peitas, a sentença,

em que toda a fazenda lhe tiraram;

um quer que o devedor lhe pague logo;

outro, para pagar, pertende espera;

todos, enfim, concluem que não podem

demandas conservar, por serem pobres,

e grandes as despesas que se fazem

nas casas dos letrados e cartórios.

Então, o grande chefe, sem demora,

decide os casos todos que lhe ocorrem,

ou sejam de moral, ou de direito,

ou pertençam também à medicina,

sem botar (que ainda é mais) abaixo um livro

da sua sempre virgem livraria.

Lá vai uma sentença revogada,

que já pudera ter cabelos brancos;

lá se manda que entreguem os ausentes

os bens ao sucessor, que não lhes mostra

sentença que lhe julgue a grossa herança.

A muitos, de palavra, se decreta

que em pedir os seus bens não mais prossigam;

a outros se concedem breves horas

para pagarem somas que não devem.

Ah! tu, meu Sancho Pança, tu que foste

da Baratária o chefe, não lavraste

nem uma só sentença tão discreta!

E que queres, amigo, que suceda?

Esperavas, acaso, um bom governo

do nosso Fanfarrão? Tu não o viste

em trajes de casquilho, nessa corte?

E pode, meu amigo, de um peralta

formar-se, de repente, um homem sério?

Carece, Doroteu, qualquer ministro

apertados estudos, mil exames.

E pode ser o chefe onipotente

quem não sabe escrever uma só regra

onde, ao menos, se encontre um nome certo?

Ungiu-se, para rei do povo eleito,

a Saul, o mais santo que Deus via.

Prevaricou Saul, prevaricaram,

no governo dos povos, outros justos.

E há-de bem governar remotas terras

aquele que não deu, em toda a vida,

um exemplo de amor à sã virtude?

As letras, a justiça, a temperança

não são, não são morgados que fizesse

a sábia natureza, para andarem,

por sucessão nos filhos dos fidalgos.

Do cavalo andaluz, é, sim, provável

nascer também um potro de esperança,

que tenha frente aberta, largos peitos,

que tenha alegres olhos e compridos,

que seja, enfim, de mãos e pés calçado;

porém de um bom ginete também pode

um catralvo nascer, nascer um zarco.

Aquele mesmo potro, que tem todos

os formosos sinais que aponta o Rego,

carece, Doroteu, correr em roda

do grande picadeiro muitos meses

para um e outro lado, necessita

que o destro picador lhe ponha a sela

e que, montando nele, pouco a pouco,

o faça obedecer, ao leve toque

do duro cabeção, da branda rédea.

Dos mesmos, Doroteu... Porém já toca

ao almoço a garrida da cadeia:

vou ver se dormir posso, enquanto duram

estes breves instantes de sossego,

que, sem barriga farta e sem descanso,

não se pode escrever tão longa história.



Tomás Antônio Gonzaga

Cartas Chilenas

em Poesias / Cartas Chilenas

edição crítica de M. Rodrigues Lapa

Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro.

1957.


Domingo, Abril 26, 2009

 

A CONSTRUÇÃO DA MINEIRIDADE


GUIMARÃES ROSA — Reconheço, porém, a aura da montanha, e os patamares da montanha, de onde o mineiro enxerga. Porque, antes de mais, o mineiro enxerga. Porque, antes de mais, o mineiro é muito espectador. O mineiro é velhíssimo, é um ser reflexivo, com segundos propósitos e enrolada natureza. É uma gente imaginosa, pois que muito resiste à monotonia. É boa — porque considera este mundo como uma faisqueira, onde todos têm lugar para garimpar. Mas nunca é inocente. O mineiro traz mais individualidade que personalidade. Acha que o importante é ser, e não parecer, não aceitando cavaleiro por arqueiro nem cobrindo os fatos com aparatos. Sabe que “agitar-se não é agir”. Sente que a vida é feita do encoberto e imprevisto, por isso aceita o paradoxo; é um idealista prático, otimista através do pessimismo; tem em alta dose o amor-fati. Bem comido, secularmente, não entra caninamente em disputas. Melhor, mesmo — não disputa. Atencioso, sua filosofia é a da cordialidade universal, sincera; mas, em termos. Gregário, mas necessitando de seu tanto de solidão, e de uma área de surdina, nos contatos verdadeiramente importantes. Desconhece castas. Não tolera tiranias, sabe deslizar para fora delas. Se precisar, briga. Mas, como ouviu e não entendeu a pitonisa, teme as vitórias de Pirro. Tem a memória longa. Não tem audácias visíveis. Ele escorrega para cima. Só quer o essencial, não as cascas. Sempre freqüentado pelo enigma, pica o enigma em pedacinhos, como quando pica seu fumo de rolo, e faz contabilidade da metafísica; gente muito apta ao reino-do-céu. Não acredita que coisa alguma se resolva por um gesto ou por um ato, mas aprendeu que as coisas voltam, que a vida dá muitas voltas, que tudo pode tornar a voltar. Até sem saber o que faz, o mineiro está sempre pegando com Deus. Principalmente, isto: o mineiro não usurpa.


ANÍBAL MACHADO — Se o amor se retrai ante o escândalo, no ódio raramente chega a vinganças. Estas nunca assumem formas fulgurantes como no nordeste, ou espetaculares, como no Rio Grande do Sul. O mineiro se desafronta das injúrias aos bocadinhos e a longo prazo, quando não as deixa morrer por esquecimento. A doçura e a cordialidade, comuns aos brasileiros em geral, são índices de sua afetividade. Muito sóbrios no trato, dão os montanheses a falsa impressão de frieza. Diamantina, com a sua gente comunicativa e alegre, é uma exceção.

Pouco aventureiro e sedentário, sente o mineiro a nostalgia da aventura e das viagens: a toponímia de seus povoados e acidentes geográficos está cheia de sugestões marítimas.

Econômico para não passar vexames e privações (quando a economia não degenera em vício de amealhar dinheiro), reflexivo para evitar surpresas, procura manter-se o mais longe possível de seu mundo irracional e de seu próprio subconsciente. À força de excessiva compreensão, explode esse mundo às vezes, em manifestações desatinadas. Por causa de um incidente ocorrido há anos entre estudantes e um cantor negro americano que agredira o pai de um deles na fila de ônibus, a cidade de Belo Horizonte amanheceu em polvorosa: metralhadoras na rua, comércio fechado por dois ou três dias, e o povo em grupos diferentes a dar vivas a Cristo-Rei, Lenine, Artur Bernardes, o divórcio, etc., na mais imprevista eclosão coletiva de paixões recalcadas.

Passada a crise, o homem de Minas apressa-se em voltar a casa para contar o caso. O momento mais tipicamente mineiro de seu dia, pois é fundamentalmente homem do lar. Como Goethe, prefere a injustiça à desordem. Sabe que com habilidade e paciência, obterá resultados que a violência não consegue. Quase sempre a inteligência crítica está a corrigir-lhe os excessos da paixão.


Fernando Correia Dias
A Mineiridade Vista por Dois Escritores Mineiros
em Mineiridade
Cadernos de Minas 2
Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.
Belo Horizonte. 1986.

Terça-feira, Abril 21, 2009

 

UM CURRAL DEL REI DE BELOS HORIZONTES


Como dissemos, atraído pelo futuro sogro, o Anhangüera II, João Leite da Silva Ortiz, como todos os paulistas que subiram para as Minas, naqueles tempos, vinha aventureiramente à cata de ouro. Tê-lo-ia encontrado abundante nas terras do Cercado, de que se apossou? Eis uma interrogação que está reclamando amplos esclarecimentos, por ser até hoje ponto bastante controvertido.


É certo afirmar a Nobiliarquia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida Pais Leme, que “João Leite da Silva Ortiz estava rico e abastado e bem estabelecido de LAVRAS MINERAIS, com numerosa escravatura, no sítio chamado o Curral d’El-Rei”, isto em 1720. Mais adiante refere-se à brilhante situação que Ortiz alcançara. “NAS SUAS RICAS LAVRAS NO CURRAL D’EL-REY”. E, ainda em outro ponto, declara que Ortiz havia “entablado FÁBRICA DE MINERAIS NO CURRAL D’EL-REY”. Finalmente, acrescenta que este “era quase um nababo em as suas RICAS LAVRAS DE CURRAL D’EL-REY”.


Em que pese a grande autoridade de Pedro Taques, alimentamos fundamentadas dúvidas neste particular da existência de grandes lavras minerais no local em que existiu o arraial e no qual está assentada hoje a capital de Minas.


Efetivamente, segundo a carta de sesmaria concedida a Ortiz pelo Governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, ele “fabricou fazenda em as Minas no distrito do rio das Velhas, em a paragem aonde chamam o Cercado e NA DITA FAZENDA TEVE PLANTAS E CRIAÇÕES DE QUE SEMPRE PAGOU DÍZIMOS E SITUOU GADO VACUM, tudo em utilidade da fazenda real e conveniência dos mineiros”.


São esses os termos da petição que ele próprio fez ao Governador Albuquerque, pedindo as terras que ocupava deste 1701. Onde a menor referência a lavras minerais nessa petição?


Acresce ainda que segundo cartas e ordens régias citadas pelo desembargador José João Teixeira Coelho, em suas Instruções para os Governadores da Capitania de Minas Gerais (Revista do Arq. Públ. Min., 1902, p. 555) as terras da Capitania eram concedidas pela forma seguinte: “Sendo as sesmarias pedidas nas terras ONDE SE ACHAM MINAS OU CAMINHOS PARA ELAS DEVEM SER DE MEIA LÉGUA EM QUADRA; E NO SERTÃO DE TRÊS LÉGUAS”.


Ora, conforme vimos, Ortiz requereu 3 léguas e obteve 2 ½, como está na sua carta de sesmaria; logo, não se tratava de terrenos minerais ou de caminhos para eles e sim de terras de sertão para lavoura e criação, a não ser que o Governador Albuquerque houvesse descumprido, em benefício de um paulista, as leis e ordens régias nesse particular, as quais estavam em pleno vigor.


Além disso, nenhum dos estudos que conhecemos sobre terras minerais do nosso estado faz referências a grandes lavras de Curral d’El-Rei, nos tempos coloniais.


Baseado nestes argumentos, temos razões para crer que Pedro Taques foi mal informado quanto à origem da fortuna de Ortiz. Poderia esta constituir-se e constituiu-se de ouro em pó ou em barras, moeda do tempo. O ouro, porém, não foi por ele extraído e sim adquirido com os produtos da sua fazenda do Cercado.


Reforçando a nossa opinião e as nossas conclusões sobre a não existência de tais lavras, eis o que escreveu o mestre Augusto de Lima na Revista do Brasil, em 1907:


“Não é inverossímil presumir que o iluminado planalto onde pousa a formosa capital mineira foi atingido nos primeiros albores do século 18. A expedição do Borba Gato deixou vestígios em todo o percurso do Rio das Velhas e de seus numerosos tributários. Os ribeirões do Borba, do Gaia, da Prata, dos Arrudas, etc., bem estão perpetuando os nomes e as tradições das primeiras bandeiras que penetraram por este lado de Minas Gerais.


Arruda foi, provavelmente, o primeiro que perlongou, do Rio das Velhas até aqui, o curso do ribeirão que conserva o seu nome.


O incentivo dessa diligência, nem é preciso insistir em o afirmar, era o mesmo que impelira todas essas numerosas bandeiras de portugueses e paulistas para o coração da terra mineira. Não é provável que Arruda encontrasse aqui o que vinha procurando: a formação mineralógica do solo só lhe oferecia vantagens nos contrafortes orientais da serra.


O leito do ribeirão e os de seus numerosos afluentes não ofereciam o rico e excelente cascalho aurífero. Não havia os tabuleiros e gupiaras que, em outros sítios, deparavam descobertos famosos e deslumbrantes.


Em compensação a esse malogro, rasgava-se ao olhar do bandeirante uma das mais grandiosas e belas perspectivas que a natureza pode oferecer.


Não dizem os minguados arquivos locais que resultados para a futura povoação se tirou dessa e de outras excursões.


Com o comércio de gado dos sertões da Bahia, já vamos encontrar uma povoação feita, tendo começado por uma dependência fiscal. O gado era recolhido do curral d’El-Rei, depois contado no registro das Abóboras, que por isso se denominou Contagem.


A topografia excepcionalmente favorecida destas paragens prestava-se para o estabelecimento de uma povoação dada à cultura e à vida pastoril.


Não era, porém, esse o espírito da época, todo inclinado à vida nômade das bandeiras de mineração, de modo que, enquanto Vila Rica, Sabará, Serro frio e outros núcleos coloniais se constituíam em centros populosos e ricos por sua situação em terrenos auríferos de exploração permanente, Curral d’El-Rei, perdendo a posição de empório do comércio do gado sertanejo estacionou em seu desenvolvimento, não oferecendo as faisqueiras de suas imediações lucro que fixasse ao solo uma população como a dos outros lugares referidos.”


Vemos, pois, que foi Arruda quem deu nome ao ribeirão que atravessa a cidade de Belo Horizonte, o que ainda documentaremos em outra parte deste trabalho. E, como o consagrado mestre, acreditamos que em Curral d’El-Rei, em vez de grandes minas, houvesse faisqueiras de ouro de aluvião, trazido pelas águas dos córregos vindos das serras, sendo que a tradição oral nos fala mesmo de boas faisqueiras de ouro, especialmente no Barro Preto. Mas, anão ser essas faisqueiras, só conhecemos referências a uma lavra (isto já em nossos dias), existente no Taquaril, proximidades de Belo Horizonte, explorada por ingleses, aí por volta de 1864, e cujo ouro era extraído do subsolo por processos relativamente modernos. Essa lavra, naturalmente, nem foi explorada nos tempos coloniais, quando se minerava nos córregos, nos morros ou onde quer que houvesse pinta do precioso metal, mas geralmente em catas pouco profundas. Se os mineiros faziam desmontes nos morros por meio de água, ou se abriam catas nos lugares de boa formação ou pinta, jamais exploraram o subsolo profundo, porque não tinham o aparelhamento necessário.


Para provar a existência de grandes lavras minerais em Curral d’El-Rei não sirva, pois, de argumento a vultosa cópia de ouro que Ortiz houvesse adquirido nas Minas, pois, naqueles tempos, como já dissemos, a moeda circulante era o ouro em pó, e, mais tarde, depois de criadas as casas de fundição, o em barras. Conseqüentemente, ele poderia ter reunido a maior fortuna, representada pelo precioso metal, com a venda dos produtos de sua fazenda de lavoura e criação, produtos esses que custavam consideráveis quantias, de vez que naqueles áureos tempos quase toda gente preferia minerar a cuidar de lavoura ou de pecuária. Naturalmente, bem compreendendo a situação da época, Ortiz escolheu os trabalhos que fazenda que lhe prometiam lucros consideráveis e bem mais certos do que os decorrentes de descobrimentos e exploração de ouro.


Demais, as grandes lavras de ouro que existiram na comarca de Sabará, conhecidas desde os tempos coloniais, eram: Raposos, Congonhas (hoje Morro Velho), Glória, Gaia, Gabiroba, Espírito Santo, Dufles, Faria, D. Florisbela, Capão, Papa Farinha, Pissarrão e Taquaril, sendo que, como ficou dito, esta última só foi explorada, não tendo dado bons resultados, em 1864, por processos modernos, desconhecidos nos tempos da fundação do arraial de que nos ocupamos.


Temos, pois, razões bastantes para não aceitar a versão da existência de grandes lavras minerais em Curral d’El-Rei.



Abílio Barreto

Belo Horizonte

memória histórica e descritiva

história antiga

Livraria Rex. Belo Horizonte

2ª edição. 1936.


 

JUIZ DE FORA


 

COROGRAFIA HISTÓRICA


CONSIDERAÇÕES BANDEIRANTES


Há dois bandeirismos concorrentes no território da atual Minas: o de homens de São Paulo, principal Vila da Capitania de Itanhaém, cuja cordial rivalidade a história consigna. O sertão mineiro é freqüentemente referido como “sertão de Taubaté”, porta de entrada para o acesso (via Pinda, Guará e Hepacaré, pelo ale do Paraíba, depois subindo o Passa-Vinte e transpondo a Mantiqueira pelo Passo do Embaú). De São Paulo a Taubaté a distância é de 30 léguas aproximadamente, percorridas (sg. ANTONIL) em 12 dias. De Taubaté ao Rio das Mortes, 45 dias de viagem (cerca de 80 léguas). Pode-se calcular que fossem mais 6 a dez dias para atingir Itaverava, via Carijós Velho (Roças de Garcia Roiz em 1702 por diante), numa distância de 20 léguas. As primeiras bandeiras levariam cerca de 3 meses para o trajeto, saindo de São Paulo, e 2,5 meses saindo de Taubaté. Partiam em abril, consolidada a estação seca (abril a setembro), reservando-se para estacionar durante a estação de chuvas no destino (outubro a março), quando o volume das torrentes e os lamaçais criavam riscos de vida insuperáveis na penetração dos sertões. Faziam seus plantios de milho e hortaliças em setembro, de modo a proceder à colheita nos meses de março e abril do ano seguinte e terem alimentos suficientes para o retorno a Taubaté e São Paulo, se já a preia de escravos índios era suficiente.


Caso contrário, passavam outro ano no sertão. Entre os bandeirantes (e por muitos anos depois), o conceito hidrográfico de bacia era inexistente. A importância de um curso dágua provinha de sua exploração e não do volume dágua em relação aos afluentes. Assim o córrego do Tripuí (nascido no Morro de São Sebastião, em Ouro Preto) deu nome ao ribeirão depois chamado do Funil (e no entretempo, de Nossa Senhora do Bom Sucesso, e de Penhascoso), não sendo, pois, de surpreender a descrição do Rio Doce feita por Cláudio Manuel da Costa: “Rio Doce, que vai fazer barra à Capitania do Espírito Santo e principia a formar-se desde o Córrego do Ouro Preto, recebendo em si imensos ribeiros e rios caudalosos.” Vê-se que não faz conta o moderno conceito hidrográfico e que o Tripuí, afluente do Funil, formador do Ribeirão do Carmo, passara a denominar-se “do Ouro Preto” conjuntamente com o mesmo Funil. Interditado o Sabarabuçu à preia de índios, por ato de Fernão Dias Pais, as bandeiras passam ostensivamente a freqüentar o Sertão do Cuieté, ou da Casa da Casca, isto é, a bacia do Rio Doce. Faziam incursões clandestinas à bacia do Rio das Velhas (Sabarabuçu) que, numa confusão intencional, denominam de Sertão do Caeté, pretendendo situá-lo (para os não iniciados) também na bacia do Rio Doce, quando o Caeté realmente se acha no Rio das Velhas, como o Cuieté no Rio Doce. Para coonestar a preia, paulistas e taubateanos simulam a busca de ouro e metais preciosos, sobretudo quando os azares da sorte os obrigam a procurar socorro em capitanias outras, onde o auxílio, por ordem régia, só era garantido no segundo caso.



Raimundo José da Cunha Matos

Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837)

Vol. 1. Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo.

Belo Horizonte / São Paulo. 1981.


Domingo, Abril 19, 2009

 

O NEGRO E O GARIMPO


Perto de S. João da Chapada, localizavam-se três dos quartéis que a administração dos terrenos diamantinos, na vigência da Real Extração, mandar construir para o alojamento das patrulhas. No sítio onde foi um deles, formou-se um povoado a que aludiremos, para salientar melhor a importância do elemento afro-negro como povoador da região.

Grande foi a afluência de negros livres, escravos e quilombolas para os terrenos ricos em diamantes. Só dos cativos poderemos citar estatísticas aliás não muito completas. Sabe-se que a infeliz circular de 13 de maio de 1891 mandou destruir todos os documentos relativos à escravidão. Essa rêmora torna ainda mais precária qualquer avaliação estatística. Entretanto, nas valiosas Efemérides Mineiras, de J. P. Xavier da Veiga, encontram-se as seguintes informações sobre a população escrava em Minas, em várias épocas:

“Refere-se ao ano de 1776 o primeiro cálculo a que se procedeu sobre a população de Minas Gerais e o único, no período da capitania, firmado em arrolamento mais ou menos regular, nele se discriminando a população por sexos, cores e condições, livre e servil.

“Transladamo-lo literalmente de velho livro histórico manuscrito, que possuímos, e de sua autenticidade dão testemunho positivo e acorde dois cronistas ilustrados, como adiante indicaremos.”

E apresenta uma tábua, na qual, distribuída pelas quatro comarcas em que então se dividia a província, era a seguinte a população, por sexos, cores e condições:

Brancos Homens 41.677 — Mulheres 28.987
Pardos Homens 40.793 — Mulheres 41.317
Pretos Homens 117.171 — Mulheres 49.824

“Monsenhor Pizarro de Araújo — continua o autor citado) — e o desembargador José João Teixeira Coelho — dos dois cronistas a quem há pouco aludimos — reproduzem o mencionado cômputo; o primeiro indicando em globo o total — 319.769 — como se vê à página 257 do vol. IX das Memórias Históricas do Rio de Janeiro e das províncias Anexas; — o segundo (Revista do Instituto Histórico do Brasil em 1852), distribuindo-o pelas quatro comarcas então existentes na capitania, a saber:

Comarca de Vila Rica — 78.618
Comarca do Rio das Velhas — 99.576
Comarca do Rio das Mortes — 82.781
Comarca do Serro Frio — 58.794


“Resta notar-se o que foi advertido nas citadas Memórias Históricas, que não entrou no arrolamento a população de todo o território das Minas Novas de Arassuaí, que, no entanto, desde 1751, pertencia à Capitania Mineira, desmembrado da Bahia. Em 1786, a população da Capitania, constante de um mapa relativo a este ramo e indicado pelo engenheiro Henrique Gerber em sua Memória sobre a Província de Minas, era computada em 394.040 almas. Por cálculos do major Luís Faria da Silva Pinto, aplicáveis ao mesmo ano de 1786, a população seria de 396.286, assim dividida:

Livre 206.286
Escrava 190.000
total 396.286

“O mesmo major Silva Pinto, jogando com documentos deficientes, avaliou a população para o ano de 1805 em 407.004 habitantes, sendo: livre 218.223, e escrava 188.781” (V. Efemérides Mineiras, 3º vol. pág. 193 e segs.).

“Até certo ponto, obteve-se, finalmente, um trabalho oficial... em agosto de 1872, único que, como parte de um serviço que abrangeu todo o Brasil, se efetuou na então província, durante o Império, como o de 1776 foi o único executado na capitania durante o regime colonial.”


Aires da Mata Machado Filho
em O Negro e o Garimpo em Minas Gerais
Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo.
Belo Horizonte. São Paulo.
1985.

Sábado, Abril 18, 2009

 

E NOS VERDES ARRAIAIS


Nem mais nem menos do que a continuação da linha cinética dos acontecimentos de 1955, quando Juscelino Kubitschek, imprudentemente, aceitara Goulart na chapa. As mesmas forças que atuaram fervorosamente a favor de JK, faziam-no exclusivamente a favor de Goulart. JK era a aparência, Goulart a realidade.


Assim como o movimento contra a candidatura de Juscelino Kubitschek, claramente esboçada nas Forças Armadas, não era especificamente contra Juscelino, mas contra seu indesejável parceiro.


De minha chegada em Santa Maria até os primeiros dias de janeiro de 1962, eu não estava acompanhando a situação política. Tão ocupado achava-me com a tarefa de organizar Unidades, que nem sequer ouvia rádio. O único diário da cidade — A Razão — jornal muito mal feito e uma verdadeira pastelaria, era o que eu lia rapidamente pela manhã.


Passava os dois expedientes, de 8 às 12 e de 14 às 17, trabalhando, fora de casa, a qual eu mal suportava, não somente porque a mesma não convidava a permanecer nela muito tempo, como principalmente porque Maria, minha mulher, não tinha chegado ainda e não havia lar.


Achava-me, pois, em estado de sonambulismo relativamente à política, quando recebi um rádio do Gen. Penha Brasil, Comandante do III Exército, solicitando-me alojar o maior número possível de sócios da FARSUL, sigla da Federação das Associações Rurais do Rio Grande do Sul, os quais acorreriam a Santa maria para uma convenção de protesto contra a ameaça de invasão de suas estâncias, comandada pelo próprio Governador.


Respondi que podiam contar com cerca de 400 lugares. De fato, o Regimento Mallet estava com o efetivo reduzido a um Grupo, e dois enormes alojamentos achavam-se vazios. Colchões, travesseiros e lençóis não eram problema e nem cobertor seria necessário, de vez que estávamos em plena estação de calor.


Minhas duas filhas, seus maridos e meus 11 netos estavam hospedados em minha casa. Eu os havia convidado para o natal de 1961.


Depois das festas, dia 5 de janeiro, minha filha Laurita deveria retornar para Montevidéu, onde residia.


Infelizmente seu filho, meu neto, morreu atropelado. Segui para Trinidad, Uruguay, em avião especial, gentilmente concedido pelo Governador Leonel Brizola, por solicitação do Gen. Osvino Ferreira Alves, comandante do I Exército, então em gozo de férias em Santa Maria. O Governador enviou também uma coroa de biscuit, manifestação de solidariedade na desgraça que me atingira.


Ser-lhes-ei gratíssimo, a ambos, pela solidariedade que me deram naquele terrível momento de minha vida.


Regressei por terra a Santa Maria. No mesmo dia, fui receber Brizola no aeroporto. Ele vinha, sem convite, ao que parece, tomar parte na convenção que se realizaria naquela noite.


No jantar que o Gen. Osvino ofereceu ao Governador, fui o único convidado.


Durante as conversas que precederam o jantar naturalmente devido à minha posição em 1961, em defesa da Constituição vigente — defesa confundida, porque a causa era a mesma, com apoio a Goulart — não mantiveram reservas.


Do que ouvi, fiquei cientificado, sem sombra de dúvida, que estava diante de vasta e perigosa conspiração contra o regime.


Poucos dias depois fui a Porto Alegre e pedi a Penha Brasil que convocasse ao QG o Presidente da FARSUL, Dr. Saint Pastous e aos dois mostrei o perigo que o país corria.


Penha Brasil, ao que me lembro, estava, na ocasião, mais ciente do que eu. Daí o apoio que vinha dando à FARSUL. Pedi-lhe licença e fui a s. Paulo, onde tive encontros com Edmundo Monteiro e um grupo de homens importantes da Indústria, convidados pelo Dr. Otto Barcelos, Presidente da Fábrica Nacional de Vagões.


De S. Paulo fui até o Rio, onde falei a respeito com o então Ministro da Guerra do 1º Gabinete Parlamentarista, General João de Segadas Viana.


Regressando a Porto Alegre, auxiliado pelo jornalista Tadeu Onar, que desenvolveu um importante trabalho de articulação durante dois anos, mesmo depois que saí de Santa Maria, tomei contatos com o Presidente da federação das Associações Comerciais, com o Dr. Ildo Meneghetti, candidato ao Governo do Rio Grande, com o Cel. Perachi Barcelos e outros numerosos personagens de importância no Rio Grande do sul.


Ainda em companhia de Tadeu Onar, procurei interessar a Igreja Católica no problema e tive uma audiência com o Arcebispo d. Vicente Scherer. Infelizmente não consegui dele nenhum apoio.


Liguei-me também com o General Acioly Borges, Comandante da 6ª R.M., sediada em Porto Alegre, e com o General Franklin Rodrigues de Morais, Comandante da Infantaria Divisionária da 6ª Região.


Mais tarde, estabeleci contatos com os Generais Álvaro Tavares do Carmo e Cunha Garcia, respectivamente comandantes das 2ª e 3ª Divisões de Cavalaria, e General Mendes Pereira, Comandante da A/D/6 em Cruz Alta.


Nada havia a tentar com a 1ª Divisão de Cavalaria, porque era Comandada pelo meu dileto amigo, General Oromar Osório, inteiramente dedicado ao Presidente e que, por não estar envolvido na conspiração de Brizola, jamais eu conseguiria convencê-lo da verdade.


O trabalho, desenvolvido para ativar as medidas do PSD gaúcho a fim de conseguirmos ganhar a eleição do Dr. Ildo Meneghetti, era importantíssimo. De fato, a vitória de Brizola dificultaria imenso a revolução no Estado.


Era imprescindível colocar o Meneghetti no Governo e isto não parecia nada fácil na conjuntura gaúcha, onde Brizola tinha todo o prestígio e o candidato do PSD não possuía apoio financeiro conveniente.



General Olympio Mourão Filho

em Memórias: A Verdade de um Revolucionário

L&PM Editores. Porto Alegre.

1978.


Terça-feira, Abril 14, 2009

 

ITABIRITO


 

AFONSO ARINOS


Rose era carinhosa e paciente, com aquele minucioso senso do dever, próprio do seu povo.

Levava-me a passear pelas ruas, cujo tom europeu me enchia de renovado encanto. A Europa vivia, então, um dos momentos de sua maior plenitude, da mais requintada civilização.

Nos jardins do Beau-Rivage, à beira do lago, tocavam orquestras de tziganos.

Os enormes, pesados cavalos, atrelados aos altos carros de carga, usavam chapéus de palha, com dois furos de onde emergiam as orelhas. E a burguesia olhava com desconfiança os partidos socialistas, que começavam a exigir para os operários a proteção dispensada aos animais.

O convênio chamado da “moeda latina” atribuía o mesmo valor ao franco francês, ao suíço e à lira italiana.

Certo dia assisti, com Rose, a uma eleição, ou qualquer outra festa cívica da cidade. Era uma festa. Os burgueses do cantão de Vaud, rubicundos e bigodudos, exibiam correntes de ouro sobre os coletes negros, e muitos traziam, nas lapelas, flores de celulóide amarelo, distintivos, talvez, da agremiação em cujos candidatos votavam.

No alto do Signal o lago verde brilhava, entre os pinheiros. Lembro-me de meu pai remando no barquinho. Eu, no banco da popa, enfiava a mão na água fria, cortada pelos patos brancos e olhava para ele, de bigode à Kaiser, chapéu-de-chile, punhos duros, as abas do fraque caídas por detrás do banco, varrendo o chão do barco.

Às vezes meus pais viajavam; “os meninos” estavam internos no colégio, e eu me sentia só, na grande casa, com as três irmãs pequenas, sendo que apenas Amelinha me era companhia.

Meu tio Arinos me mandara de Paris um burro de brinquedo, todo arreado, provido de rodas, no qual eu podia montar. De noite Rose me deitava e, pensando agradar-me, punha o burro junto à cama, a cara impassível bem em cima de mim. De dia o bicho era inofensivo, eu montava-o, puxava-lhe a crina do rabo, ajustava-lhe o freio na boca entreaberta, de madeira vermelha. Mas à noite eu tinha medo dele, embora o pudor me impedisse de confessar isso a Rose. Era apreensivo que eu a via partir, deixando-me à mercê do monstro noturno, do estafermo desconhecido e imóvel, que me fitava na sombra. Na meia escuridão do quarto os seus olhos duros, redondos, de vidro, fixavam-me impiedosamente. Encolhia-me, virava para a parede, e só o cansaço vencia o meu terror. Uma noite gritei, ansiado. A Rose acorreu e eu pedi-lhe água. Não tive ânimo de implorar-lhe que afastasse dali o avantesma incômodo, em que se transformava o meu amigo das horas de sol. A voz tranqüila de Rose valeu como uma presença humana, uma luz nas trevas da minha imaginação.

Foi então que conheci meu tio Arinos, e a sua presença de alegre gigante me maravilhou.

Arinos viera de Paris, juntamente com a esposa, Antonieta Prado, visitar o irmão. Residia havia anos na capital da França e era o enfant gâté da mãe, o orgulho da família. Perdulário, despreocupado, sempre gastava mais do que podia. Em Paris morava num pequeno hotel de bonne adresse na Rua Boccador, perto dos Campos Elísios. Fizera obras custosas no prédio, para adaptar os aposentos que ocupava às suas conveniências. Além do quarto, tinha salas de estar e de jantar próprias, onde recebia os amigos, entre os quais era dos mais íntimos o Príncipe D. Luís de Bragança.

Arinos nunca abandonou as suas convicções monárquicas e parlamentaristas. Amigo pessoal de Rio Branco, não aceitou a sugestão deste para entrar no corpo diplomático. Não sendo político, como o Barão ou como Nabuco, preferiu ficar afastado da República. Isso não o impedia de, em Paris, ser um desinteressado defensor do Brasil, quando se oferecia ocasião. Não eram raras as suas cartas aos jornais franceses, esclarecendo situações ou desfazendo inverdades sobre a nossa pátria. Creio que, uma vez, compareceu a uma missão cultural, na Alemanha, representando o Brasil. Muito francês de coração, ele não simpatizava com os de Além-Reno. Lembro-me dele contando a meu pai a cena, que presenciou, de um sábio alemão, delegado ao tal Congresso, homem de barba branca (“até aqui”, dizia Arinos mostrando a altura do ventre), curvando-se todo, em salamaleques, diante de um jovem ajudante-de-ordens prussiano. “Tive vontade de meter o pé na bunda dos dois”, concluía Arinos, enojado, sentindo ferver-lhe nas veias o velho sangue das autonomias municipais.

Em Lausanne passeei com ele de automóvel pelas estradas, e de lancha, no lago Léman. Arinos desdenhava os navios de carreira e os turistas britânicos com boné de xadrez. Alugava a sua própria lancha e nos levava a costear as margens ilustres, Clarens, Saint-Preux, Vevey, toda a geografia sentimental que, adolescente, vim a reencontrar na Nova Heloísa.


Afonso Arinos de Melo Franco
A Alma do Tempo
memórias
José Olympio. Rio de Janeiro.
1961.

Sábado, Abril 11, 2009

 

A MÚSICA NA MINAS COLONIAL


A ESCRITA MUSICAL


A modernização da grafia musical, promovida por uma tradição editorial que os compositores daquela época não conheceram, dificulta a imediata decodificação por parte de executantes que se formaram no contato exclusivo com as normas atuais da escrita.


Era grande a procura dos serviços de música para as festividades principais do ano, quer religiosas ou cívicas. A constância do sistema de leilões em música foi único no Brasil.


Baseia-se pelo que se apura nas “atas de arrematação”, nas quais aparece sempre o rol de músicos e a especificação dos instrumentos e vozes.


Na escrita predominava a “prática musical”. As partes para os conjuntos, quer instrumentais ou corais, eram escritas diretamente em folhas independentes; “pôr na grade” significava a reunião das partes para ensaios ou execuções programadas. Não se conhecia a escritura em partituras.


A única exceção é uma partitura autógrafa de José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, datada de 1783, intitulada “Tercio”.


O texto representa a oração do terço (rosário) e supõe-se que J. J. E. Lobo de Mesquita escreveu-a com simplicidade, na tentativa de chegar a erudição musical ao povo que fazia a “prática musical”.


Até aos nossos dias é a mais antiga obra escrita em partitura na música mineira do século XVIII, apresentada oficialmente.


Por ocasião do bi-centenário de seu aparecimento (1783-1983), a Funarte editou a obra, apresentando o “fac-simile” da obra “Tercio” em livro da autoria de Maria da Conceição de Rezende. O original pertence ao Museu da Música de Mariana e está registrado no Cartório de Títulos e Documentos dessa cidade.



M. Conceição Rezende

em A Música na História de Minas Colonial

Itatiaia / Instituto Nacional do Livro.

Belo Horizonte. Brasília. 1989.


Sexta-feira, Abril 10, 2009

 

A INCONFIDÊNCIA MINEIRA


“As 100 arrobas de ouro tinham que sair da boca das minas ou da boca dos mineiros” (Diogo de Vasconcelos). Mas, sendo isso impossível, como acabamos de ver, acumularam-se os atrasos, e com eles o pavor do povo.

A nova soberana de Portugal, devemos assinalá-lo, recomendava em 1788, que não se procedesse com rigor a derrama, sem uma averiguação segura de que a pudessem suportar os povos. Se, pois, tivessem os governadores sabido aproveitar esses bons movimentos do coração da rainha, no serviço do povo, muito possível fora que alcançassem o perdão dos impostos atrasados e acumulados. Não o tentaram, porém.

A 20 de fevereiro de 1780, tomou posse da Capitania o novo Governador, D. Rodrigo José de Menezes, mais tarde Conde de Cavaleiros.

D. Rodrigo pôde constatar facilmente a decadência da Capitania, e assinalar ao governo português esse fato, propondo uma série de medidas de grande alcance: liberdade das indústrias, levantando-se diversas proibições existentes; organização de um serviço de correios, que seria um benefício para o povo e uma fonte de renda para o erário; a concessão de empréstimos aos mineiros, a juros de 8 a 9% ao ano; a supressão das casas de fundição e a transferência da casa da moeda para as Minas, porque então poder-se-ia proibir a circulação do ouro em pó, encontrando os mineiros na Fazenda real um comprador seguro do seu ouro; a criação de uma fábrica de ferro, chegando o governador a mandar fundir algumas peças, remetendo-as ao ministro.

Tudo foi em vão. O Governo da Metrópole queria ouro e não reformas. Apenas uma daquelas idéias foi aproveitada: a dos Correios, instalando-se esse serviço a 19 de maio de 1784, já no governo de D. Luís da Cunha Menezes, que tomara posse da Capitania a 10 de outubro de 1783.

Embora não podendo realizar todo o seu programa, conseguira entretanto D. Rodrigo prestar inúmeros benefícios à Capitania. Ele se abalançara a grandes e penosas viagens, como aos sertões dos Arrepiados e do Cuieté, onde, além das fadigas da marcha, havia o perigo da presença dos terríveis botocudos. Rasgara estradas para diversas zonas da Capitania, e se esforçara no povoamento do solo.

Longe de tantos esforços e boa vontade estava o nogo governador, D. Luís da Cunha e Menezes, que não era um home na altura da situação.

Terrível era o fisco. os atrasos na cobrança dos quintos avolumavam-se dia a dia. Numerosos eram os desvios e freqüentes os desfalques.

“Não houve cobrador ou contratista que não acabasse executado” (Diogo de Vasconcelos).

O desembargador Teixeira Coelho, que conheceu a Capitania nos Governos do Conde de Valadares, de Antônio Carlos e D. Antônio de Noronha, que aqui permanceceu 11 anos, viajando e observando, perguntava: “Quando há de cobrar a mesma Senhora (a Rainha) a grande quantia de 1.212:146$176, que se lhe está devendo de contratos na Capitania de Minas?”

Os impostos de importação eram pesados, não se excluindo os artigos de maior necessidade para a lavoura e a mineração.

Com o intuito de retirar o máximo proveito das minas, e também de proteger as indústrias do reino, cometera o governo central o erro imperdoável de reprimir senão proibir de todo o desenvolvimento das industrias, que não a extrativa, para que o povo não se desviasse desta e não desfalcasse a melhor parte das rendas que o erário possuía. Coube ao governador D. Antônio de Noronha a triste iniciativa nesse assunto. Vendo o grande desenvolvimento que ia tomando a indústria manufatureira, receou ele que ficasse prejudicada a mineração e tomou as medidas a que nos temos já referido. O governo português apreciou devidamente essa medida e generalizou-a para outras Capitanias. Mais tarde, a 5 de janeiro de 1785, D. Maria I expediu novo alvará, que só foi revogado por ato de 1º de abril de 1808, proibindo fábricas de tecidos, com exceção de panos grosseiros de algodão para os negros e para enfardar fazendas.

Em conseqüência desse erro, tornou-se notável o encarecimento da vida na Capitania. Os artigos mais indispensáveis à vida custavam elevados preços. Quase todos vinham do Rio. A viagem era longa e as estradas infestadas de salteadores, bastando citar o fantasma apavorante da Mantiqueira, cuja tradição vive ainda na memória do povo. Era natural que o custo das mercadorias transportadas nessas condições fosse exagerado.

O ferro, matéria prima para os instrumentos da lavoura e da mineração, custava três vezes mais na Capitania que no Rio.

O sal pagava de entrada 93,75%, sem falar nas despesas de transporte etc.

As instruções do ministro Martinho de Melo e Castro ao Visconde de Barbacena dão-nos minuciosa notícia desses primores.

O governo português era surdo a toda sorte de reclamações. Ainda no começo do século XIX, Eschwege fazia ver ao governo colonial que o quinto era excessivo e devia ser reduzido a 10%. Mas, em vão, diz o escritor; pensava-se apenas no presente e não no futuro: “mais depressa teria ele aceitado uma proposta para a construção de uma muralha chinesa em torno da região do ouro e do diamante do que adotado o que eu propunha”.


Lúcio José dos Santos
em A Inconfidência Mineira
papel de Tiradentes na Inconfidência Mineira
Escolas Profissionais do Liceu Coração de Jesus.
São Paulo. 1927.

Quarta-feira, Abril 08, 2009

 

TERRAS DO M


Machacalis Machado Madre de Deus de Minas Malacacheta Mamonas Manga Manhuaçu Manhumirim Mantena Mar de Espanha Maravilhas Maria da Fé Mariana Marilac Mário Campos Maripá de Minas Marliéria Marmelópolis Martinho Campos Martins Soares Mata Verde Materlândia Mateus Leme Mathias Lobato Matias Barbosa Matias Cardoso Matipó Mato Verde Matozinhos Matutina Medeiros Medina Mendes Pimentel Mercês Mesquita Minas Novas Minduri Mirabela Miradouro Miraí Miravânia Moeda Moema Monjolos Monsenhor Paulo Montalvânia Monte Alegre de Minas Monte Azul Monte Belo Monte Carmelo Monte Formoso Monte Santo de Minas Monte Sião Montes Claros Montezuma Morada Nova de Minas Morro da Garça Morro do Pilar Munhoz Muriaé Mutum Muzambinho


 

TIRADENTES


 

A POESIA DE MINAS


A CONSCIÊNCIA SUJA


III


Noite-montanha. Noite vazia. Noite indecisa.

Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.


O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.

Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.


Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,

nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?


Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.

Os cabarés estão proibidos aos sem-dinheiro.


Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.

Minas inteira se banha em sono protocolar.


Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.

É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.


Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,

onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,


ao nosso lado, singra tão longe, bóia tão nuvem

em seus transmundos de indagativas constelações?


Luís Vaz perpassa, em vôo grave, no Bar do Ponto:

soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.


Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.

Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.


Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia

esconde o lume do coração. Rápido, Alberto


será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte

alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso


queres saber? Em poço raso vais afundar-te

para que os outros fiquem cientes de tua ausência


e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,

ator em férias. Perdão, te ofendo? Martins de Almeida,


crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.

Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,


fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?

Quantas caretas treinas no espelho para esconderes


a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico

é o menos próprio para gravar o natural.


Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.

Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,


com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,

ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico


não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,

laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?


A noite avança. O último bonde passa chispando

rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?


Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas

nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.



Carlos Drummond de Andrade

em Boitempo

1968-1973-1979.


Segunda-feira, Abril 06, 2009

 

MIGUILIM


Maria Pretinha trazia café para o vaqueiro Saluz. O que sobrava, o Grivo também bebia. Maria Pretinha sabia rir sem rumor nenhum, só aqueles dentes brancos se proseavam. Uma hora ela perguntou pelo vaqueiro Jé. — “Ei, campeando fundo nesse Gerais... Tem muito rancho por aí, pra ele de chuva se esconder!” Mas o vaqueiro Jé tinha levado capanga com paçoca, fome nenhuma não passava. Os cachorros gostavam do sistema do Grivo, vinham para perto, abanando rabo, as patas eles punham no joelho dele. Tomezinho tinha furtado uma boneca da Chica, escondeu por debaixo duma cangalha. A Chica queria bater, Tomezinho corria até lá na chuva. O Gigão corria junto, sabia conversar, com uns latidos mais fortes, de molhar o corpo ele mesmo não se importava. — “Dito, eu vou falar com Pai, pra não deixar esse moço morar aqui com a gente.” “— Fosse eu, não falava.” — “Pois por que, Dito? Você não tem medo de adivinhados?” “— Pai gosta que menino não fale nada desta vida!” Mas Miguilim mesmo não tinha certeza, cada hora tinha menos, cada hora menos. O Dito mais tinha falado: — “Luisaltino não é ruivo. Seo Aristeu não falou? Pai é que é ruivo...” e mesmo Miguilim achava que aquelas palavras de seo Aristeu também podiam ser só parte de uns versos muito antigos, que se cantavam. Agorinha, tinha vontade era de conversar muito com o Dito e o Grivo, juntos, a chuvinha ajudava a gente a conversar. O que ao Grivo ele estava dizendo: que a cachorrinha mais saudosa deste mundo, a cuca Pingo-de-Ouro, era que o Grivo devia de ter conhecido.

Quando o Luisaltino veio de ficada, trouxe um papagaio manso, chamado Papaco-o-Paco, que sabia muitas coisas. Pai não gostava de papagaio; mas parece que desse um não se importou, era um papagaio que se respeitava. Penduraram a alcândora dele perto da cozinha, ele cantava: “Olerê lerê lerá, morena dos olhos tristes, muda esse modo de olhar...” Comia de tudo.

Miguilim agora ia todo dia levar comida na roça, para Pai e Luisaltino. Não pensava em Tio Terez nem nos macacos; mas também ia com as algibeiras cheias de pedras. Luisaltino prometeu dar a ele uma faquinha. Luisaltino agradava muito a todos. Disse que o Papaco-o-Paco era da Chica, mas o Papaco-o-Paco não gostava constante da Chica, nem de pessoa nenhuma, nem dos meninos, nem do gato Sossõe, nem dos cachorros, nem dos papagaios bravos, que sovoavam. Só gostava era da Rosa, estalava beijos para a Rosa, e a Rosa sabia falar boazinha com ele: — “Meu Cravo, tu chocou no meio dos matos, quantos ovinhos tinha em teu ninho? Onça comeu tua mãe? Sucruiú comeu teu pai? Onde é que estão teus irmãozinhos?” E Papaco-o-Paco estalava beijos e recantava: “Estou triste mas não choro. Morena dos olhos tristes, esta vida é caipora...” Cantava, cantava, sofismado, não esbarrava. A Rosa disse que aquela cantiga se chamava “Mariazinha”.

Com taquara e cana-de-flecha, Luisaltino ensinou a fazer gaiolas. O Dito logo aprendeu, fazia muito bem feitinhas, ele tinha jeito nas mãos para aprender. As gaiolas estavam vazias, sanhaço e sabiá do peito vermelho não cantavam presos e o gaturaminho se prendesse morria; mas Luisaltino falou que com visgo e alçapão mais tarde iam pegar passarim de bom cantar: patativo, papa-capim, encontro. Luisaltino conversava sozinho com Mãe. O Dito escutou. — “Miguilim, Luisaltino está conversando com Mãe que ele conhece Tio Terez...” Mas Miguilim desses assuntos desgostava. De certo que ele não achava defeito nenhum em Luisaltino.


João Guimarães Rosa
Campo Geral
em Corpo de Baile 1º volume
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.

Domingo, Abril 05, 2009

 

ENQUANTO ISSO, NO CONE SUL...


AGOSTO, 1961: A RENÚNCIA


Dia do Soldado. Onze horas em Brasília. As cerimônias transcorreram normalmente. Jânio as presidira. Fisionomia inescrutável, entregara condecorações, assistira ao desfile militar, nada deixando transparecer do que arquitetara, já em fase de execução no Alvorada, onde as malas ficaram prontas e com a carta-renúncia entregue a Pedroso Horta, Ministro da Justiça. Prosseguindo, convocara os ministros militares ao Palácio do Planalto.


Instantes após corria o pano. No proscênio, Jânio. Público restrito e selecionado. Dentro em pouco seria todo um povo. Palco, o Brasil.


A comédia iria ter início.


“Senhores Ministros:


Esta reunião se destina a dar-lhes conhecimento de assunto da mais alta gravidade. Acabo de renunciar ao cargo de Presidente da República. Não posso governar com este Congresso. Os senhores organizem uma junta e assumam o poder. O Ministro Pedroso Horta irá entregar a carta que efetiva este ato, às quinze horas, para lhes dar tempo de tomarem as medidas necessárias para acautelar a ordem pública.”


O inesperado da cena os perturbou. E surgiram os apelos: dramático, na voz de Sylvio Heck, da Marinha; incisivo, como é de seu feitio, na palavra de Denys, do Exército. Apenas não ouviu o que esperava e pelo que ansiava. Daí permanecer irredutível. Seu gesto fora maduramente pensado e era irrevogável. Disse: “Daqui passarei pelo Alvorada para apanhar minha bagagem, que já está pronta. De agora em diante é com os senhores.”


E voara para Cumbica, em São Paulo, onde iria aguardar o desfecho da parada. Sua audácia de jogador sempre favorecido por uma sorte incrível levara-o a arriscar tudo de uma só vez. Todas as fichas empilhadas em um único número. Sua habilidade de farsante impelira-o a tentar a grande cena, que acreditava se transformasse em apoteose.


Em seu sonho, um público inumerável, enrouquecido pelos bravos entusiásticos, de pé, em delírio, o ovacionava em consagração definitiva. Iniciava-se uma nova era — a janista — sem prazos, sem limitações. Uma força onipotente e indiscutida. O poder de um só homem, nascido e criado na obscuridade, mas ambicioso, olhos voltados para modelos que desejava ultrapassar, na crença de absurda predestinação. Não entendera que sua escolha fora um protesto coletivo, seu papel o de um instrumento. Daí sua ilusão.


Jânio perdeu, mas, jogador que é, não desiste. O que admira é que, ainda hoje, exista quem o ouça e nele acredite.


Passado o tempo, com a serenidade que a distância permite, já vividos os acontecimentos, ainda nos pasmamos do episódio: um só homem, por sua vontade exclusiva, insensível às conseqüências do tumulto que seu gesto iria desencadear, friamente, com total desprezo pela sorte do país, fazendo o mais execrável jogo que a imaginação possa conceber, lançara o povo brasileiro, que nele depositara sua confiança, na mais terrível contingência de sua História.


Deliberadamente. Calculadamente. Cinicamente.


O pano descera. E o Brasil?


Refeitos da surpresa, os ministros militares procuraram enfrentar a situação. Encontravam-se em Brasília alguns oficiais generais das três corporações, por haverem sido distinguidos com o mais elevado grau da Ordem do Mérito Militar. Chamados ao Planalto para discutir o assunto, ajustaram uma solução. Tinham plena consciência de que Jango representava um risco para os destinos do país, que deveriam evitar, mormente quando a nação, estarrecida, via desfeita a miragem que se formara ante seus olhos. Por outro lado, não se poderiam aventurar na maliciosa sugestão de Jânio — “formem uma junta e assumam o governo”. Naquela emergência seria cobrir de razão o desertor. Decidiram proceder dentro dos preceitos constitucionais que regulam a vacância do cargo, tendo em conta a ausência de Jango, circunstância que lhes daria tempo e permitiria contornar o problema. Ranieri Mazzilli, presidente do Congresso, assumiria o governo. Depois submeteriam ao Congresso um manifesto em que retratariam a conjuntura criada e as previsões do que viria a ocorrer se Jango subisse à Presidência. Confiavam em que os congressistas iriam deliberar visando, exclusivamente, aos interesses superiores do País. Duas eram, entretanto, as concepções que iriam defrontar-se: uma, a militar, que encarava os fatos sob um prisma de idealismo, forjada em uma escola onde a abnegação é a regra, pouco presa às vantagens pessoais, necessitando de quase nada, desejando menos ainda: a outra, imediatamente, abrangendo apenas o horizonte visível, considerando que em política o erro é perder, ambicionando cada vez mais, com esforço sempre menor, julgando desfavoravelmente os que pensam de modo diverso e que os mais benevolentes consideram, apenas, ingênuos. O raciocínio dos primeiros, por demais simplista e fora da realidade, iria conduzi-los a uma luta desigual, não sendo difícil a previsão de quem levaria a melhor. Esqueceram-se, principalmente, de que na idéia dos políticos surgiria, como reação inicial, a desconfiança. Embora verbosos são sempre reticentes. As palavras servem-lhes como meio de ocultar e não de exprimir os pensamentos. Na exposição, que lhes seria encaminhada, buscariam algum desígnio não revelado, nunca uma análise franca e realista.


Depois, haveria o tremendo jogo de interesse. A saída de Jânio, com sua tendência autoritária, mal servida por um cérebro deformado, representava o alijamento da tensão permanente em que viviam. Fora um intruso. Jango era um comensal da mesma mesa. E um fraco. Também, para alguns poucos mais ciosos de suas prerrogativas, o ato dos ministros tinha o sabor desagradável de uma tutela.


Por tudo isso, iria ser recusada a sugestão que afinal lhes foi transmitida — o impedimento de Jango.



Carlos Luís Guedes

em Tinha que Ser Minas

Nova Fronteira. Rio de Janeiro.

1979.


Sábado, Abril 04, 2009

 

SÃO JOÃO DEL REI


 

EM BH, NA DÉCADA DE 20


UM CADERNO DE FEL


Difícil imaginar o que ardeu de veneno com aqueles cadernos, quando se vê o que sobrou para as páginas do Novo Diário, que Eduardo Frieiro começou a escrever em seguida. Publicado postumamente, em 1986, este é um livro tão fascinante quanto cruel. Raríssimas reputações escapam à pena vitriólica do autor, e mesmo essas escassas ilhas de benignidade têm seu tanto de polêmico. Frieiro simpatiza, por exemplo, com dois ditadores — Getúlio Vargas e o argentino Juan Domingo Perón. Considera a imprensa uma “porcaria” e não esconde o seu desprezo, “cada dia maior”, “pelas opiniões de jornalistas e literatos”.


Os jornais, reclama, pagam uma ninharia a seus colaboradores, sendo ainda pior a situação em O Diário (que se anunciava como “o maior jornal católico da América Latina”), onde “só dão indulgências e absolvições”. Mas Frieiro deixa à mostra uma ponta de vaidade quando descobre estar ganhando mais que os confrades. O Estado de Minas acaba de convidá-lo para escrever um rodapé semanal, ganhando duzentos cruzeiros por artigo. “Não é muito, embora seja excepcional na província”, anota o escritor em seu diário. “Em Belo Horizonte, essa remuneração é um record. A Folha de Minas pagou-me, de 1937 a 1940, 50 cruzeiros, e eu era o único colaborador que recebia tanto. A Rádio Inconfidência pagava-me também 50 cruzeiros pelo meu Boletim Literário, ao passo que os outros colaboradores só recebiam 30.”


Frieiro não esconde sua raiva sempre que o prefeito Juscelino Kubitschek convida “literatos de nome” a visitar Belo Horizonte. “Festeja-os, banqueteia-os, afaga-os”, escreve ele. “Alguns — poucos — merecem as homenagens. Outros — a maioria — são uns bundas-sujas, uns literatos de segunda ou terceira zona.” Quando Juscelino promove uma Exposição de Arte Moderna, em 1944, ele registra em seu diário a convicção de que “os artistas e literatos, campeões da arte moderna, são todos comunistas”, e a arte de vanguarda “uma das armas de propaganda dos bolchevizantes das Américas”.


O revolucionário conjunto arquitetônico da Pampulha — o Cassino, a Casa do Baile, o Iate Clube e a igreja de São Francisco de Assis —, que o jovem prefeito estava construindo, não passava de “uma criação típica do capitalismo: obra do vício e, enfim, do capital, que o luxo fomenta e alimenta”. Por muito tempo Frieiro vai deblaterar contra o que chama de “pampulhocracia”. Sem prejuízo da acrimônia, simpatizava com Juscelino, que lhe confiou, já governador, a tarefa de organizar a Biblioteca Pública do Estado. Eram velhos conhecidos e certamente cruzou com ele nos corredores da Imprensa Oficial, onde o jovem médico, formado em 1927 (na mesma turma de Pedro Nava), teve o seu primeiro emprego.


O escritor vê com azedume a existência, no Rio, de “uma igrejinha literária [...] muito presumida e mandona, que tem à sua frente o Aníbal Machado, o José Lins do Rego, a Adalgisa Nery e outros grã-finos de porta de livraria”. Irrita-o tremendamente o fato de Aníbal ser titular de cartório, e estende a implicância a Fernando Sabino quando este, tendo se casado com uma filha do governador Benedicto Valladares, torna-se distribuidor de feitos no Rio de Janeiro. “Fernandinho, o Príncipe Consorte”, alfineta Eduardo Frieiro.


Seu livro de estréia, o romance O Clube dos Grafômanos, de 1927, ridiculariza o modernismo e os modernistas. Uma das personagens, o poeta Pereirinha, apelido de Jesus-Maria-José Pereira da Silva, é fundadora de uma publicação literária, a Moderníssima, que “não passou do terceiro número” — coincidência ou não, exatamente como A Revista de Drummond e sua turma.


Fala-se nuns Poemas Estrambóticos e Rudimentares, “prosa ruim, tipografada em forma de verso” — iniludível referência aos Epigramas Irônicos e Sentimentais de Ronald de Carvalho. Outra personagem do romance, Leiva, sentencia a certa altura: “Como não há uma polícia sanitária das idéias, as nossas letras foram contagiadas através de alguns moços paulistas, ledores de revistas européias de vanguarda”. Apesar das ferroadas, Drummond falou de O Clube dos Grafômanos, num artigo de 1930, como uma “sátira ao modernismo, cheia de malícia e simpatia”.



Humberto Werneck

em O Desatino da Rapaziada

jornalistas e escritores em Minas Gerais

Instituto Moreira Salles / Companhia das Letras.

São Paulo. 1992.


Sexta-feira, Abril 03, 2009

 

FAMÍLIAS GOVERNAMENTAIS


1) SILVA XAVIER — A família Silva Xavier, a que pertenceu Tiradentes, sempre gozou de boa situação social em Minas, ao que mostram extensos registros genealógicos que devemos a Artur de Rezende e ao Cônego Trindade. Joaquim José era tetraneto do capitão Martinho de Oliveira, “homem nobre e dos principais da Vila de Santos”, segundo Silva Leme. Seu avô materno Domingos Xavier Fernandes fora provedor dos quintos reais da Vila de São José del Rei, hoje Tiradentes. Seu pai exerceu em São João del Rei o mandato de vereador. Se não era abastado, dispunha, contudo, de certos recursos e estima social. Dois de seus irmãos ordenaram-se sacerdotes, nesse tempo em que, no dizer de Caio Prado Júnior, os Seminários eram a única oportunidade que as famílias dominantes tinham para a instrução de seus filhos mais dotados de inteligência. À posição social da família, Tiradentes parece ter acrescido ainda uma linhagem mental nada desprezível. Basta lembrar que um de seus primos e coetâneos, filho de sua tia materna Rita, foi o insigne naturalista que na vida monástica se chamou Frei José Mariano da Conceição Veloso. Outro primo e coetâneo seu teve fama de uma dos maiores latinistas de seu tempo: foi o Padre Antônio Rodrigues Dantas, reitor do Seminário de Mariana, professor em Lisboa, autor de várias obras sobre a arte poética e a língua latina. Seu irmão mais novo, José da Silva Santos, teve patente de capitão das milícias, casando-se com uma Goes e Lara, da nobiliarquia paulistana. O atual deputado federal por Minas, figura de evidência política no Estado e no país desde 1930, Sr. Gabriel de Rezende Passos, é tetraneto desse irmão de Tiradentes. Uma irmã do protomártir de nossa Independência, casada com um Ferreira de Souza, de Queluz, deu origem a uma vasta descendência que se ligou aos Rodrigues Chaves, de Lagoa Dourada, aos Rezende, de Prados, aos Magalhães, os quais até hoje controlam a chefia política ou a disputam em vários municípios mineiros. Um dos descendentes dessa irmã de Tiradentes, Major José Rodrigues Chaves, foi o fundador de Formosa, no Goiás, onde teve fábrica de ferro. Outro, Camilo Rodrigues Chaves, tornou-se um dos primeiros habitantes e beneméritos de Campina Verde, no Triângulo. Seu filho aparece na crônica provincial como uma das maiores influências políticas da região. O filho deste, Camilo Chaves, foi deputado e senador durante a 1ª República e chefe da Revolução de 30 no Triângulo Mineiro. O seu filho, Camilo Chaves Júnior, é presidente do PSD em Ituiutaba, onde mantém ativa luta política. Outro sobrinho bisneto de Tiradentes, cel. Lucas Tobias de Magalhães, casou-se com uma Barros de Monte Santo, tornando-se desde o Império e na 1ª República um dos chefes políticos de mais prestígio na região. Seu filho, Valdomiro Magalhães, foi deputado durante toda a República Velha, constituinte de 34 e líder da bancada mineira. Falecendo sem descendentes, a chefia política do município passou aos seus antigos aliados, os Paulino Costa, importantes fazendeiros de café, que vêm sucedendo na direção local.


Cid Rebelo Horta
Famílias Governamentais de Minas Gerais
em Análise & Conjuntura
v. 1, n. 2, maio/agosto – 1986.
Fundação João Pinheiro. Belo Horizonte.

Terça-feira, Março 31, 2009

 

NO CLUBE DA ESQUINA


JULES E JIM


O centro da cidade estava vazio, como sempre ficava aos domingos. Fazia uma fresca manhã de sol, com um céu azul sem nuvens, cuja luminosidade dava às coisas uma nitidez indubitável. A turma do CEC tinha comparecido em peso à pré-estréia do último lançamento de Truffaut, Jules et Jim, ainda sem título em português. O Cine Metrópole era a casa de espetáculos mais luxuosa da cidade. Art Deco, grandes espelhos, veludos pesados. À sua porta conversávamos, divididos em pequenos grupos, os irmãos Tiago e Geraldo Veloso, os dois Ronaldos, o Brandão e o Noronha, Schubert Magalhães, Paulo Leite, Carlos Alberto Prates, Carlos Figueiredo, José Haroldo, Guaracy Rodrigues, os irmãos Gomes Leite, Maurício, Ricardo e Rubens, os irmãos Lara, Sérgio e Mário, Lucas Raposo, Edmar Pereira, Dickson Amaral, eu e Sérvulo Siqueira. Todos havíamos chegado cedo. O assunto era cinema, naturalmente: Cahiers du Cinéma, o reacionarismo de Jean Douchet, o último artigo do Tobiana, as aparições relâmpago de Hitchcock, o tema musical de High Noon, o significado de Rosebud queimando em Xanadu, os claros-escuros de James Wong Howe, a noite-americana, a possível genialidade de Jean Vigo, coisas assim.


— “O cinema é a verdade 24 quadros por segundo” — citou alguém.


— “O plano-seqüência é uma questão de moral” — citou outro.


— “O close-up é uma questão de amor” — recitou outro mais.


— Godard: “Il faut tout mettre dans un film”. Muito boa essa.


— “Um cineasta precisa ter punhos fortes" — arriscou algum outro.


E assim fomos passando o tempo, enquanto dez horas não chegava. Dickson se aproximou de mim. Parecia ainda mais velho sob a crueza dura daquela luz tão clara. Tinha numa das mãos, como sempre, aliás, um maço de Continental e uma caixa de fósforos.


— Tudo bem, Godard? Rapaz, eu estou despaginado. Ontem derrotei um litro de uísque sozinho. E olhe que eu detesto uísque...


Ri.


— É. Está na cara. Ainda mais com essa luz toda.


— Essa luz toda encantou Orson Welles. Você sabia que ele tomou um porre, subiu numa árvore da avenida Afonso Pena e mijou lá de cima, em plena avenida, cinco horas da tarde?


A las cinco en punto de la tarde...


— Desculpe aquele dia no Bucheco. Quando olhei pro lado, cadê você? Já tinha ido. A Marisa quando aparece é assim mesmo.


Lembrei-me da cena do beijo.


— Ela vem?


— Sei lá, ela é doida.


— Se é!


— Ficou completamente de porre aquela noite. Queria de todo jeito. Sou amigo do pai dela, pô. Aliás, ela tem a quem puxar na birita.


Sérvulo apareceu bem a tempo de me salvar, quando já ia me enrolando num mal-estar misturado com indesejável ciúme.


— Vamos entrar, já está na hora.


— E você, não vem? — perguntei a Dickson.


— Encontro vocês lá dentro. Vou esperar a Marisa mais um pouco.


Entrei com Sérvulo e achamos um lugar no balcão. O imenso lustre em forma de pêra apagou suas centenas de pequenas lâmpadas. O som de carrilhões celestiais logo anunciou que a sessão já ia começar. Grossas cortinas vermelhas se abriram, revelando a enorme tela branca e sua claridade magnetizante.


Seguiram-se duas horas de intensa emoção. O filme era simplesmente lindo, inesperada e poeticamente dilacerante. Estava emocionado de verdade. Queria criar também, desejava naquele momento fazer muitos filmes tão lindos quanto esse. Às vezes, vinham-me lágrimas aos olhos. Ao fim da sessão, abalado, não sei por que pensava tão fixamente em meu novo amigo Bituca: “Bituca tem que ver isso”. Tanto que nem prestei atenção às duas viaturas negras, tripuladas por policiais armados, que vigiavam bem de perto aquela movimentação à saída do cinema.


Aí lembrei-me de outra coisa: Marisa não havia aparecido.



Márcio Borges

em Os Sonhos não Envelhecem

histórias do clube da esquina

Geração Editorial. São Paulo.

1996.


Segunda-feira, Março 30, 2009

 

ENTRE RIOS DE MINAS


 

A HISTÓRIA MÍTICA


Outro fato foi a perseguição contra Felisberto, movida pelo ouvidor Bacelar, perseguição derivada do seguinte:


Por ocasião das festas da Semana Santa achava-se em uma das igrejas do Tijuco (a igreja de S. Antônio, hoje Sé Catedral), assistindo ao ofício religioso, a família de Caldeira, achando-se com ela uma moça mineira, muito prendada e formosa, parenta dos Caldeiras. O ouvidor, querendo engraçar-se com a moça, ali mesmo, e à vista de todos, atirou-lhe uma flor ao colo. A moça, como era natural, repeliu aquela liberdade, cheia de indignação. Felisberto, sabendo o que fora feito à sua parenta, tomou a defesa desta, e veio esperar o ouvidor no adro da igreja. Ao sair este, Felisberto pediu-lhe satisfações, exigindo uma explicação. O ouvidor, cheio de si, recusou a explicação. Então Felisberto, em desagravo da honra de sua família, sacou de um punhal e avançou contra o ouvidor, não chegando a feri-lo.


A este respeito correm três versões. A primeira versão diz que não chegou a feri-lo porque o ferro resvalou. A segunda versão diz que diversas pessoas intercederam para apaziguar a contenda, entre as quais o padre da freguesia. A versão mais corrente é a terceira: diz que “na hora em que Felisberto sacou do punhal para ferir o ouvidor, apontou a procissão da Semana Santa, que vinha saindo da igreja; Felisberto (que era muito religioso), ao ver o padre sob o pálio carregando os santos óleos, ficou aterrado de cometer aquele desagravo em tal ocasião: deixou, por isso, cair o braço que empunhava a arma”.


O povo dividiu-se em dois partidos: um, a favor de Caldeira; outro, a favor do Intendente, que se colocara ao lado do ouvidor.


O ouvidor, abusando do cargo que exercia, começou desde esse dia a perseguir Felisberto, mandando ao governador da Capitania, e até a Portugal, cartas e ofícios caluniosos.


Ora, não tendo Caldeira entrado, por causa do roubo já referido e do não pagamento da letra, com a taxa anual devida, — era esse fato excelente pretexto para prendê-lo.


Para isso o governador da Capitania dirigiu-se em pessoa ao Tijuco, levando consigo numeroso regimento de soldados (dragões). Felisberto ignorava que o governador vinha prendê-lo. Dirigiu-se ao seu encontro com as primeiras pessoas do lugar.


No que foi ao seu encontro, o governador deu voz de prisão a Caldeira em nome de El-Rei.


Então Felisberto, com as faces abrasadas de cólera, perguntou, em voz alta, “que crime cometera”.


A resposta foi ver-se cercado pelos dragões e efetivamente preso.


Nesse mesmo dia (31 de agosto de 1753), o ouvidor, seu rancoroso inimigo, mandou fechar, lacrar e selar as portas de sua residência. Antes disso, fez a família de Caldeira evacuar a casa, indo sua senhora e filhas pedir asilo em casa de parentes.


No dia seguinte era Felisberto Caldeira Brant arrancado dos braços de sua mulher e filhos, e levado, com as mãos acorrentadas, à Vila do Príncipe (Serro Frio), escoltado por muitos soldados.


Daí foi remetido para o Rio de Janeiro e embarcado para Lisboa.


No dia seguinte ao de sua prisão, mandou o governador seqüestrar todos os seus bens. Apesar de avaliados de propósito em menos de seu real valor, o seu total montava a 2 milhões de cruzados, soma fabulosa para aqueles tempos, e que dava com muita sobra para pagar o que Felisberto devia. Só no cofre da Intendência foram encontrados 33.773 quilates de diamantes! Apesar de Caldeira ter direito á diferença, a maior, não lhe restituíram nada e ficaram com tudo. Sua mulher e filhos cairiam na miséria, se não fossem socorridos pelos parentes.


Enquanto isso se dava no Tijuco, — em Lisboa era Felisberto caldeira Brant encarcerado na enxovia do Limoeiro. Aí esteve preso por espaço de dois anos. Era então rei de Portugal D. José I, e ministro do reino o Marquês de Pombal. Por mais que Felisberto rogasse a sua soltura, apresentando fiadores idôneos, que garantiriam a execução do resto do contrato, embora alegasse que já havia pago de sobra o que devia, entregando todos os bens, — o rei e o ministro foram surdos a seus justos reclamos.


Parecia que Felisberto estaria condenado a ficar indefinidamente preso, quando uma circunstância inesperada lhe veio facultar a liberdade:


No dia 1º de novembro de 1755 violento terremoto abalou a cidade de Lisboa. Os palácios aí construídos à custo do ouro do Brasil, e dos vexames que oprimiam a Colônia, fizeram-se em ruínas no curto prazo de cinco minutos, ficando reduzidos a um montão de entulho!


A prisão em que Felisberto se achava abriu-se, como por encanto: suas paredes estavam fendidas de meio a meio. Viu-se por esse meio restituído à liberdade!


Pois bem. Esse homem que era inocente, esse homem a quem a Coroa de Portugal devia parte de seus bens seqüestrados, esse homem que estava ansioso por cobrar de novo a liberdade, era a tal ponto respeitador da Lei (fosse embora uma lei injusta e odiosa), que, em vez de fugir, foi apresentar-se ao Marquês de Pombal:


— Senhor. A prisão que me encerrava, abriu-se por efeito do terremoto. Considero-me ainda preso. Digne-se Vossa Mercê ditar-me as suas ordens.


O Marquês de Pombal admirou-se de tanta lealdade. Era incrível que o respeito à lei atingisse aquele ponto!


— O senhor está livre. Pode ir.


Nesse mesmo dia o Marquês de Pombal referiu o ocorrido a João Pereira Ramos, ao Bispo de Coimbra e ao general Godinho, todos brasileiros e residentes em Lisboa. Estes, condoendo-se da sorte de seu patrício, intercederam em seu favor, convencendo o Marquês de Pombal de sua inocência e da trama de intrigas e invejas de que fora vítima. O ministro ordenou então que se procedesse à liquidação de suas contas e ao exame do seqüestro de seus bens. Essa ordem não foi cumprida até hoje.


Felisberto Caldeira Brant, enfermo gravemente dos maus tratos que recebera na prisão, foi tratar-se em Caldas da Rainha. Esperava restabelecer-se para então regressar ao seio de sua amada pátria e de sua família. Mas tão alquebrado se achava por tudo que sofrera, que seus padecimentos em breve se agravaram. E o inditoso brasileiro cerrou os olhos em terra estranha, longe dos seus, pobre e desamparado, — ele, que fora o homem mais rico de toda a Colônia!



Carlos Góis

em Histórias da Terra Mineira

Garnier. Rio de Janeiro.

1994.


Sábado, Março 28, 2009

 

MESTRE AIRES


III

A determinação dos serviços, assim do tempo da seca como do tempo das águas, deve ser fundada sobre o cálculo da quantidade de diamantes que, na conformidade das ordens antecipadas dos Administradores desta cidade, se devem procurar extrair em cada ano, combinada com as necessárias despesas de mineração e com o preço de trezentos e sessenta mil cruzados anuais, que devem particularmente pagar-se no meu Real Erário, do mesmo modo que até agora praticaram os Contratadores.


IV

Assim, no rio Jequitinhonha como nos rios Pardos ou em outro qualquer rio, corgo ou ribeiro, se observará enquanto for possível, método de lavrar rio acima, ou seja no veio da água ou nas suas vertentes, cuja observância sou servido encarregar positivamente ao desembargador Intendente Geral dos Diamantes... E se os Caixas-administradores obrarem alguma cousa em contrário desta minha determinação, me dará conta o sobredito Intendente para eu mandar proceder contra eles com o castigo que merecer suas transgressões.


V

O mesmo Intendente Geral mandará logo descrever em um livro destinado para este efeito, o número dos escravos que se acham no distrito da demarcação das Terras Diamantinas, com os seus nomes, sinais e idades, debaixo do título de cada um dos seus respectivos senhores. E quando alguns desses escravos passarem, por venda ou por outro motivo para outros possuidores, estes serão obrigados a vir manifestar na Intendência o seu novo domínio para dele se fazer assento no referido Livro e se porem por verbas escritas nas margens dos assentos dos antecedentes donos, as sobreditas vendas ou passagens, e isto debaixo das penas estabelecidas contra os escravos que entrarem sem licença.


VI

Depois de haver sido feita a sobredita matrícula, não poderão entrar negros alguns de novo dentro da Demarcação das Terras Diamantinas sem precederem licenças por escrito do Intendente Geral. E ordeno que este as não conceda, sem que as causas delas sejam copulativamente justas e necessárias e que logo imediatamente faça abrir assentos no Livro do Registro dos Escravos que de novo entrarem, e isto debaixo das mesmas penas acima declaradas.


VII

Tendo mostrado a experiência que contra as minhas Leis, Ordens, Bandos a que elas se acham referidas, para proibirem a introdução de negros não matriculados nas Terras Diamantinas e para se castigarem os matriculados que nelas ou cometem descaminhos ou vão mineirar sem licença, se tem inventado muitas e muito nocivas fraudes, sou servido ordenar, declarar, ampliar e restringir as sobreditas Leis, Ordens e Bandos da maneira seguinte:


VIII

Todos os escravos que forem achados dentro da Demarcação das Terras Diamantinas, além daqueles cujos nomes se acharem inscritos no Livro da Matrícula, não só pagarão os seus respectivos donos a tomadia deles a favor de quem os descobrir mas também serão condenados, pela primeira vez, em três anos de galés para nelas servirem irremissivelmente. Pela segunda vez, sendo o escravo do mesmo senhor, além da tomadia servirá nas galés por tempo de dez anos.


IX

Sendo porém os sobreditos escravos achados com diamantes ou em ato de mineração deles, ou ainda com instrumentos de minerar, somente além das tomadias que os sobreditos senhores devem pagar na sobredita forma, serão condenados a galés por tempo de dez anos também irremissíveis.


X

As pessoas residentes no Serro do Frio e Terras Demarcadas que nelas têm casas, roças, lavras, ofícios ou negócios, ordeno que no termo de quinze dias contínuos e contados da publicação deste Regimento, se apresentem ao Intendente Geral. Que este ouvindo os Administradores e o Fiscal depois de haver procedido a um rigoroso exame pelo qual conste que são pessoas ocupadas com boa fé nos sobreditos ministérios lhes conceda licenças por Bilhetes por ele assinados, para se conservarem nos lugares das suas respectivas residências, registrando-se em um separado Livro de Matrícula todos os sobreditos, com a declaração dos seus respectivos empregos e exercícios para assim poder constar a todo o tempo, quais são os que de novo se pretenderam introduzir por modo clandestino. Que as outras pessoas que não puderem se ligitimar na sobredita forma sejam notificadas para saírem das referidas Terras no termo de quinze dias contínuos e contados daqueles em que as notificações lhes foram feitas, debaixo das penas de serem presos e remetidos à sua custa ao Rio de Janeiro para ficarem reclusos nas Cadeias da Relação por tempo de seis meses. Que voltando sem licença ás referidas Terras, sejam presos e remetidos ás mesmas Cadeias, para delas serem transportados ao Reino de Angola por tempo de seis anos. E que a respeito daqueles que se quiserem legitimar para irem se estabelecer de novo no Tijuco, ou qualquer outro dos arraiais vizinhos aos serviços, se examine; Primo — Qual é a justa causa com que foram estabelecer-se nas ditas Terras. Secundo — Quais são seus teres e haveres. Tertio — Qual é o negócio que manejaram, para que pela combinação dos referidos fatos se conclua, ou se vêm com justa causa para se admitirem, ou se contrariamente são traficantes e de tais suspeitos, para serem logo notificados a saírem das referidas Terras debaixo das penas acima declaradas, não sendo achados em culpas que mereçam outro maior castigo.


Aires da Mata Machado Filho
em Arraial do Tijuco Cidade Diamantina
Itatiaia. Editora da Universidade de São Paulo.
Belo Horizonte. São Paulo.
3ª edição. 1980.

Sexta-feira, Março 27, 2009

 

VOZ DE MINAS


Não sou dos que desejam para Minas certo ghandismo, isto é, a conservação das Alterosas como uma espécie de parque nacional do passado, como Huxley imaginou no México, em que uma vida de outros tempos se conservasse, para divertimento dos brasileiros progressistas de outras zonas, que aqui viriam apreciar as ruínas de Ouro Preto ou a semana santa de São João del Rei como relíquias do passado. No discurso de sucessão a Afonso Arinos, Miguel Couto deu a entender que o nosso grande sertanista literário assim considerava a sua província natal e quisera preservá-la do progresso, para um gozo egoístico de grã-fino, que aqui viria, cansado de Paris, retemperar o seu estômago e os seus olhos, com o passado.


Nem era essa a concepção que Arinos tinha da sua província natal, nem a que temos nós outros, que também procuramos defender Minas contra um progressismo precipitado de seus próprios filhos. O que sustentamos é que, na psicologia de Minas, como aliás na de qualquer outra região do Brasil, deve prevalecer a fidelidade aos imperativos de sua própria natureza moral. Ora, o que a história e a observações nos revelam é que o homem mineiro possui muito mais as características do homem eterno que do homem moderno. Não se trata de rejeitar o progresso. Não se trata de qualquer romantismo do passado. Já vimos mesmo que o mineiro é naturalmente anti-romântico. Trata-se de ser fiel à sua própria natureza, em qualquer estágio de progresso. Pode-se ser moderno numa casa de taipa e eterno num arranha-céu. Os acidentes exteriores não alteram a qualidade do temperamento. Esse é que conta. Ora, o mineiro é homem do eterno, encha ou não de arranha-céus as suas cidades. Embora haja, pouco a pouco, uma reação d arquitetura sobre os costumes e destes sobre as qualidades temperamentais, que acabam provocando uma reação sensível — e por vezes decisiva nos mais frágeis dos caracteres — das condições materiais sobre as qualidades morais.


“Que é o homem moderno?” escrevíamos em 1937. “É antes de tudo o que se diz moderno e faz questão de o ser. E de acordo com o conceito que demos de modernidade, será aquele que timbra em ser diferente, repudia e combate por sistema o passado e aceita o presente... A mentalidade moderna é uma mentalidade por natureza temporal”.


Ora, já vimos que o mineiro, ao contrário, considera a categoria do tempo como de segundo plano. Coloca o espaço, por exemplo, acima dela. É mais fiel ao seu lugar que ao seu momento. São as condições de meio mais que as de momento que influem sobre o homem d