FREGUEZIA DE ROÇAS NOVAS.
Foi creada pelo § 8º do art. 1º da lei provincial n. 209 de 1841. Seus habitantes dedicão-se muito á agricultura e criação. Tem optimos mattos e campos. A sua população orça por 3.684 habitantes que dá 307 votantes e 7 eleitores. Deveo sua origem á antigos e ricos fazendeiros que por sua conta edificárão em 1748 um templo dedicado a N. S. Madre de Deos e que hoje serve de Matriz. Pertenceo antigamente ao districto do Pompeo, donde foi desligado em 1810. Confina á leste com o districto do Bom Jesus do Amparo em distancia de trez e meia leguas; ao oeste com a freguezia da Lapa do termo de Sabará donde dista trez leguas; ao sul com a séde do municipio, villa de Caethé, e pelo norte com a freguezia de Taquarussú.
Foi a origem desta povoação á influencia de fazendeiros antigos, que edificárão um templo, cujo orago é N. S. Madre de Deos, no anno de 1748.
Compôe-se deste só districto, o qual pertenceo ao districto do Pompeo, e em o anno de 1810, separou-se e ficou cabeça do districto. As producções deste districto são: milho, mandioca, canna, criação de gado vaccum, tudo em ponto pequeno sendo mais notavel o frequente transporte de madeiras para a companhia do Morro Velho.
É banhado pelo rio Taquarussú, que nasce na serra de S. João do Morro Grande, e desagua no das Velhas, abaixo de Macaúbas.
Ao norte e nascente é cercado pela serra do Carmo, e ao sul pela serra da Piedade.
A origem da denominação da serra do Carmo, veio de uma fazenda que tem uma capella dedicada a N. S. do Carmo. Tem a igreja principal, e uma principiada.
O commercio é pequeno, e consta de seis negociantes de generos do paiz.
Ha uma escola publica de instrucção primaria.
Divide esta freguezia pelo leste com o districto do Senhor Bom Jesus do Amparo, em distancia de trez e meia leguas; pelo oeste com a freguezia de N. S. da Lapa, em distancia de trez leguas; pelo sul com a freguezia de N. S. do Bom Successo da villa do Caethé, trez leguas; e pelo norte, com a freguezia do SS. Sacramento do Taquarussú.
FREGUEZIA E 6º DISTRICTO DE ROÇAS-NOVAS.
Creada pelo § 8º do art. 1º da lei provincial n. 209 de 1841.
Subdelegado.
Manoel Nogueira da Cunha.
Inspector parochial.
Rev. João de S. Antonio.
Professor de primeiras letras.
Antonio José de Almeida Bastos.
Vigario provisionado.
Manoel José Ferreira.
Negocios.
Generos do paiz.
Candido Antonio.
Anna Baptista.
Francisco Antonio Rodrigues.
D. Candida da Conceição de Jesus.
José Candido Vieira.
Thomaz de Aquino.
José Maria Pereira.
Antonio Vieira Leal.
Ricardo José de Araujo.
Joaquim Borges de Sampaio.
Carolino Rodrigues.
Vicente de Paula Reis.
Fazendeiros que cultivão canna.
Francisco Pereira Pinto.
Francisco Conrado e Comp.
Justino Fernandes Guimarães.
Silverio Coelho de Moraes.
Almanak Mineiro
publicado
(mantida a ortografia da época)
Em 1843, Lund escreveu longa carta a uma sociedade científica na qual dava conta de uma das suas principais (se não a principal) descobertas realizadas na Lagoa do Sumidouro, localizada no atual município de Pedro Leopoldo. O Córrego Samambaia, que enche a lagoa, secara e ela ficou reduzida a uma poça central. Toda a superfície do fundo da lagoa, de lamaçal escuro, tornara-se chão duro rachado pelo sol a pino.
Lund teve a oportunidade que esperava: poderia explorar o túnel de escoamento, que se tornara galeria seca de gruta. Quando penetrou no sumidouro havia, ainda, uma pequena lagoa interna que mandou esvaziar. Os resultados foram excepcionais. Alguns dos animais que usavam o córrego e a lagoa e que mortos foram arrastados até o sumidouro ficaram presos nas irregularidades do túnel e foram sepultados pelos sedimentos transportados pelas águas que escoavam. Ação lenta e constante a realizada pelas águas. Tempo houve para que isso pudesse acontecer. A descoberta de Lund foi, além de importante, tão surpreendente que poucos acreditaram nela: passou como que despercebida. O túnel que esvaziava a lagoa encerrava um fato à época inacreditável, ou absolutamente revolucionário.
Numerosos esqueletos humanos e fósseis de animais extintos e atuais estavam lado a lado, indicando que os três conjuntos conviveram. Hoje sabemos que isso aconteceu há pouco mais de onze mil anos. Na Europa, onde residia o saber, ninguém deu crédito ao sábio de Lagoa Santa que afirmava ter convivido o homem com a fauna extinta.
Ainda faltavam quinze anos para que Darwin publicasse, em 1859, seu célebre livro a respeito da Teoria da Evolução. A explicação vigente à época e seguida por Lund para explicar as faunas de animais diferentes que ocorriam ao longo dos tempos era a de Cuvier, célebre anatomista e paleontólogo, diretor do Museu de História Natural de Paris. Acreditava que ocorreram, ao longo da História, catástrofes sucessivas que eliminavam a vida na face da Terra. Deus criava, posteriormente, novas formas de vida que substituíam as que se extinguiram. O registro de tipos de vida sucessivos percebia-se nas camadas sedimentares que guardavam fósseis diferentes. A última catástrofe ocorrera com o dilúvio. Pouco antes, o homem fora criado. Sobreviveram à catástrofe ocupantes privilegiados da Arca de Noé, o homem e os animais modernos que foram criados no mesmo tempo que Adão e Eva, sendo que alguns dos quais eram citados como moradores do Paraíso. No esquema catastrofista de Cuvier, o homem e os animais atuais e extintos não poderiam estar associados no mesmo sedimento. Mas, como cientista, e mesmo sendo um fervoroso luterano que acreditava nos ditados bíblicos ao pé da letra, Lund não podia negar a evidência que ele descobrira. A teoria estava equivocada. Na Europa a sua afirmativa a respeito da coexistência do homem com animais extintos era tão nova que não foi levada em consideração.
Cástor Cartelle
Lund, o coletor do passado
em Navegando o Rio das Velhas das Minas aos Gerais
volume 2: Estudos sobre a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas
org. por Eugênio Marcos Andrade Goulart
Projeto Manuelzão – Faculdade de Medicina da UFMG.
Belo Horizonte. 2005.
Decidido a poupar os burros, caminhei para diante. Deparei com um vale minúsculo, onde folhas escuras de mica e formações turfáceas denotavam uma mudança de região. A propósito, notaremos que o Brasil é rico em turfas que nunca foram aproveitadas como combustível. Como a turfa é em geral recente, precisará passar por um certo preparo, especialmente a compressão. O falecido Sr. Ginty, engenheiro civil do Rio de Janeiro, chegou a tirar patente para a exploração dos depósitos de turfa. A 4.000 pés acima do nível do mar, uma simples cabana esburacada protegia uns poucos moradores de beira da estrada do sol ardente e do vento cortante. Uma ladeira conduzia a um declive rápido. O solo era ainda de terra escura, de matéria vegetal em decomposição, restos das florestas extintas formando a turfa. Na chuva transforma-se num pantanal pegajoso, na seca em terreno duro e compacto, que põe à prova as molas garantidas do carro inglês. A meio caminho da descida do morro encontrei um carro de madeira de Northumberland dos meados do século passado. Tinha dez parelhas de bois. Homens armados do aguilhão do costume, com dez pés de comprimento e um enorme esporão na ponta, haviam passado todo o dia espetando, insultando e vergalhando os bois, que caminhavam vagarosos pelas léguas de serra acima.
Depois de percorrer oito milhas dos topos da Mantiqueira e a doze milhas de nosso destino, chegamos a Borda do Campo. Nome e localidade semelhante existem perto da cidade de São Paulo. Mas ali o campo começou junto à Serra do Mar, enquanto aqui a Mantiqueira se interpõe entre eles. O cotejo das primeiras impressões é curioso. Em Minas o terreno é mais cortado de fundas cavidades, encostas e barrancos; os capões, ou ilhas de florestas, são de maior importância. Reservo para outro capítulo as diferenças mais especiais.
A estação da seca estava no apogeu, a terra parecia descorada e inerte com a estiagem. Avistamos de longe Barbacena, com seus campanários arranhando a cumeeira de uma serra ao norte, alta e escura, já enrubescendo aos raios oblíquos do sol. A situação lembrava São Paulo à primeira vista, e de novo respirávamos o ar tonificante, frio, claro e leve do planalto, deixando o calor úmido da Mantiqueira. Há grandes fazendas esparsas pela região. Chamou nossa atenção o aspecto das chamadas Campo Verde e Nascimento Novo.
Nossa oitava remonta, em que belos burros brancos aguardavam-nos para o prosseguimento, era Registro Velho. É o primeiro dos três registros pelos quais, nos tempos coloniais, devia passar o infeliz viajante de Minas que vinha ao litoral. A construção é um grande edifício de madeira branca e de estilo rude. A sua antiga função desapareceu. É aproveitado agora para outros fins. Aqui pousam sempre as tropas de ouro das minas anglo-mineiras, evitando as ruas das cidades, em que perdem as ferraduras e gastam dinheiro. O posto, contudo, é execrável. O proprietário, capitão José Rodrigues da Costa, hospeda os viajantes a seu modo, expulsando-os se murmuram contra as altas autoridades. Antes de visitar as várias companhias, espanta o fato de não poderem elas entender-se para organização de um estabelecimento do seu próprio serviço. O capitão, porém, é digno de confiança, ou antes, sendo um homem rico, é muito respeitado.
Há aqui uma fábrica de cigarros famosa de Minas ao Rio. Todos os operários, homens e mulheres, ficam em duas salas e há um cortador para cada meia dúzia de enroladores. Em vez de papel emprega-se a palha de milho, costume herdado diretamente dos aborígines. “Après qu’ils ont cueilli le petem (folha de tabaco)”, diz Léry acerca dos Tupinambá, "et par petite poignée, pendre et fais sécher en leurs maisons, ils en prennent quatre ou cinq feuilles qu’ils enveloppent dans une autre grande feuille d’arbre en façon de cornet d’épices; mettant alors le feu par le petit bout et le mettant ainsi allumé dans leur bouche, ils en tirent de cette façon la fumée". O fumo é forte e a pitada de tabaco enrolada numa folha logo torna-se uma massa e precisa ser enrolada uma e duas vezes antes de se comprimir. Um grande rolo pode ser comprado por um shilling, e ainda assim os lucros do estabelecimento são de cerca de £ 160 per mensem. O fumo de rolo no Brasil é bom. Mas este é especialmente agradável.
A nova etapa atravessa o Rio do Registro Velho, afluente do Rio das Mortes. Passamos, pois, agora, para a bacia dos rios Paraná, Paraguai e Prata, ao sul do Brasil. Virando à direita da estrada principal, passamos pela miserável pequena colônia José Ribeiro. Um proprietário assim chamado vendeu o terreno à União e Indústria e esta instalou uma colônia de alemães. A única casa decente era a do diretor. O começo do fim surgiu enfim com um pequeno trecho de um belo e macio macadame feito pela Companhia. Era como se rolássemos sobre uma mesa de bilhar. Corremos animados a galope, recebendo nas faces e nos pés o ar da tarde de pleno inverno.
Era quase noite quando entramos na cidade de Barbacena, que parecia tão viva como uma imensa catacumba. Antes de poder esticar nossas pernas dormentes na hospedaria barbacenense, desembarcamos a velha senhora com seus inúmeros embrulhos, suas escravas e seus moleques. O hospedeiro, Sr. Herculano Ferreira Pais, havia desgraçadamente conhecido dias mais felizes. Demonstrou-o dando-nos com cortesia, infelizmente descabida, não um jantar, mas uma detestável ladainha de desculpas: “a casa não era digna de nós, tão importantes personagens éramos, a cidade estava miseravelmente pobre, o povo era de bárbaros perfeitos”. Seus filhos estavam visivelmente acima de suas funções. Recebiam cada ordem com um protesto tácito e examinaram-nos como seus avós devem ter examinado John Mawe quando em 1809 visitou Barbasinas. Mas afinal veio a comida, e até chegamos a achar bom o horrível vinho espanhol. Os quartos de dormir eram pequenos, as camas não passavam de estreitos catres, o frio estava penetrante e cães de rua uivavam horrorosamente. Apesar de tudo, dormimos o sono dos justos. O dia de viagem na diligência havia sido um peso demasiado para os ombros de uma pessoa e muito esfalfante para o sistema nervoso.
Richard Burton
em Viagem aos Planaltos do Brasil I
tradução de Américo Jacobina Lacombe
Companhia Editora Nacional. São Paulo.
1983.
Este é um livro sobre livrarias, livreiros, livros e amantes de livros. é um livro sobre o comércio de livros, sobre o lugar dos livros na cidade e sobre a cidade nos livros. É um livro sobre os livros
É um livro sobre gerações de escritores e suas livrarias de escolha, suas revistas e seus livros característicos. É um livro sobre livros e sobre o quanto os livros podem convocar a possibilidade do melhor.
Espaço plebeu e erudito, o sebo é das instituições mais generosas da cidade. A Livraria Amadeu é, com seu dono e infatigável trabalhador, um desses lugares onde a cidade realiza-se no melhor de suas possibilidades — o espaço para a leitura que alegra, para o dever da leitura, para a leitura que liberta e demanda a felicidade. Sua livraria, fundada em 1948, é uma instituição significativa de nossa vida cultural, espaço por onde circulam e fertilizam-se, mutuamente, tanto a cultura erudita, a busca permanente do livro indispensável, quanto a demanda humilde dos que buscam, no sebo, o livro didático, ao manual de trabalho, o livro inesquecível, que todos elegemos, o livro que nos remete sempre ao melhor de nós mesmos, seja ele a narrativa de aventura amorosa ou alucinante, seja ele o folhetim rocambolesco, seja ele o fascinante do conto de fadas: as maravilhas de Monteiro Lobato, de Júlio Verne, de Alexandre Dumas, de Michel Zevaco, de Rafael Sabatini, tesouros de uma certa literatura que se confunde com a formação do leitor que os sebos fazem renascer, geração após geração.
João Antonio de Paula
os livros e a cidade
col. BH. A cidade de cada um.
Conceito. Belo Horizonte. 2006.
II O MEIO SOCIAL
1 – POVOAMENTO
A emigração intensa, composta, evidentemente, em sua maioria, de aventureiros de ânimo forte e ambição maior, dificilmente seria controlável por normas de moral ou de direito, enquanto não se estabelecessem os fundamentos sociais e a boa ordem administrativa e judiciária.
Chegam homens das mais diversas procedências e raças: paulistas afeitos à vida rude, experimentados no sertão e na caça do índio, brasileiros do norte, boiadeiros, vadios do litoral, ciganos, judeus e cristãos novos, uns e outros prontos para a guerra e para a desobediência.
De outro lado, seriam pouco acomodados os portugueses que para cá se aventuraram, deixando na terra os mais tímidos e prudentes; calejados, muitos, das lidas do mar, no comércio com o oriente e nas guerras em que se vinha empenhando a metrópole. Juntam-se a estes os negros, em grande número, trazidos à força, prontos à rebeldia, fugindo para os quilombos, embriagando-se nas vendas e, vadios depois, pela falta de trabalho, na decadência das minerações.
Do elemento indígena, não há referências. Libertados da servidão por ordem régia, indolentes por natureza, ferozes alguns e, em geral resistentes aos duros trabalhos das extrações, não seria proveitosa a sua utilização.
Em todo o caso, a população das Minas “cheia de vigor e de força, capaz de grandes cometimentos, pronta ao sacrifício, ciosa da liberdade, inteligente e esforçada”, concentrada em poucos pontos do seu território, aumenta vertiginosamente na primeira metade do Setecentos, despovoando o litoral, e mesmo o reino, e tornando difícil a previsão dos meios adequados à manutenção da ordem pública. Convém salientar a forte tendência urbana dos povoadores das Minas, manifestada mesmo pelos que se entregavam a trabalhos rurais, a maioria não dispensando casas no arraial, ainda que para desfrutá-las apenas nos dias de folga.
Infelizmente, não são conhecidos dados seguros desta população e apenas referências esparsas suprem as lacunas dos censos regulares. Pelo tombamento de 1734, por exemplo, são anotadas
Para 1742 Eschwege anota 80.000 homens livres e 186.868 escravos, em toda a capitania, num total de 266.868 habitantes. Já em 1776, este total passa a 319.769; brancos 70.664, mulatos 82.110 e 166.995 pretos. Por este mesmo ano, moram na Comarca de Vila Rica 78.618 pessoas, das quais 12.679 brancas, 16.791 pardas e 49.149 pretas.
Dez anos depois, em 1786, a população da Capitania é de 393,698 habitantes, subindo a 433.049 em 1808, para atingir meio milhão, às vésperas da Independência.
Mais tarde, em 1801, José Vieira Couto atribui a Vila Rica uma população de 20.000 almas que, em 1813, atinge, em toda a Comarca, 72.880, segundo Joaquim Dias Bicalho. Saint-Hilaire, em 1816, avalia a população de Vila Rica, em apenas 8.000 habitantes, distribuídos em 2.000 casas.
Em 1830, na cidade de Ouro Preto contam-se 1.702 fogos ou 13.616 almas e em todo o termo 3.575 fogos, comportando 28.600 moradores.
Os dados disponíveis sobre a população de Vila Rica e da Capitania são, em geral, como os citados, falhos e insuficientes para permitirem conclusões seguras a respeito do seu desenvolvimento demográfico, considerado em áreas e classes definidas. Apenas permitem avaliações sumárias que, pela segunda metade do século XVIII, consignam 400.000 pessoas na Capitania, 70.000 no termo e 25.000
Sylvio de Vasconcellos
Vila Rica
formação e desenvolvimento – residências
Biblioteca de Divulgação Cultural VI.
Instituto Nacional do Livro.
Rio de Janeiro. 1956.
Sexta-feira, 7 de abril de 1893
Nas quintas-feiras Maria dá Didico para mim e Luisinha o dia inteirinho. Nós trabalhamos, passeamos e fazemos tudo com ele, que já está sentando, e tão engraçadinho que a gente fica até com vontade de mordê-lo. Eu acho que gosto tanto deste menino não é só pela gracinha dele, mas porque penso que o pai e a mãe são doidos. Mas é só longe da gente; perto eles conversam com um modo tão direito que a gente fica até duvidando do que fazem. Rodrigo vai entrando em casa e já começa a briga, e vão brigando até ele sair e ela joga nas costas dele uma coisa qualquer de quebrar.
Tudo quanto tem em casa, de louça ou de barro, ela quebra nas costas dele. Tive muita pena ontem quando ela lhe atirou o pote de água; a água molhou-o todo e o pote foi quebrar-se na rua. Ele nem virou para trás; foi seguindo calado e foi embora todo molhado.
Quando estou lá carregando Didico que ele entra, eu saio correndo. Já vi uma briga e não quero mais ver outra.
Mas Maria Flora é boa; ela nos entrega o menino o dia inteiro e podemos tratá-lo como se fosse nosso filho. Nós duas já combinamos; eu lhe dou o banho de manhã cedo, Luisinha dá de tarde; eu dou mingau de manhã, ela dá o almoço, eu dou a merenda, ela o jantar. De noite nós cantamos com ele para adormecer e o levamos e pomos na caminha.
Hoje, cedinho, Luisinha só esperou que eles abrissem a porta para tirar o menino e fomos para a Chácara; era dia de apanhar café.
Nico e Renato inventaram agora lá um brinquedo que é uma coisa do outro mundo. Eles levaram um couro de boi para a ribanceira, no fundo da Chácara. Um foi puxando o outro no couro até alisar a descida e agora está lisa de um jeito que a gente escorrega que é uma beleza. Ninguém dos grandes ainda descobriu isso, senão já se sabe, acabava num átimo. Nós falamos que vamos apanhar café e levamos a capanga; mas descobrimos furtar o café já apanhado para trazê-lo de novo e vamos para a ribanceira.
Hoje eu vi que não pode haver outro menino tão bonzinho. Eu e Luisinha inventamos levar o pobrezinho para escorregar conosco. Não sei como foi; o menino rolou antes de nós e foi cair num formigueiro. Nós fomos rolando atrás e o couro parou no caminho. Fomos cair as duas também no formigueiro e quase esborrachamos o pobrezinho. Só não o machucamos porque ele chegou numa moita de capim e afundou. Quando pudemos tomar pé e o tiramos, ele estava numa lástima, coitadinho; todo empolado e com as formigas barrigudas agarradas no corpinho dele. Mas o menino é tão bonzinho que até o choro dele é manso. Nós não tínhamos pensado na subida e foi Deus que nos ajudou a subir a ribanceira carregando o menino.
Passamos um dia agoniadas, banhando as empolas com água com sal, com medo que alguém visse e Maria Flora não nos deixasse mais cuidar do Didico. Felizmente de tarde ele já estava sem sinais no corpo.
Helena Morley
Companhia das Letras. São Paulo.
5ª reimpressão. 1999.
Como se vê, a política principiava a deixar de ser privilégio do governo e do Parlamento; o país inteiro envolvia-se com a política. Naturalmente, a produção cultural do período não poderia ficar de fora desse debate. A necessidade de uma arte “participante”, que conduzisse o processo de “conscientização”, colocava-se na ordem do dia. O “novo é o povo”, enfatizavam, por exemplo, os artistas do Centro Popular de Cultura da UNE que, por essa razão, “optaram por ser povo, por ser parte integrante do povo, destacamento de seu exército no front cultural”. Mais que isso, afirmavam: “em nosso pais e em nossa época fora da arte política não há arte popular”. Em que pese a suave candura que perpassava tais análises, o país inegavelmente avançava movido pela ambição de mudanças. Através da opção pelo “popular” e pelo “nacional” — sem dúvida uma “dobradinha” imbatível na época — redescobria-se o Brasil, “nossa paisagem cultural que andava soterrada nos anos medíocres que se seguiram à Semana de Arte Moderna em 1922”. Muitas vezes, essa “redescoberta” era comovente em sua ingenuidade:
“Avante, avante companheiros
Vamos fazer mais filmes
Muitos filmes brasileiros
Fazer cinema não é sopa não
Brasil, meu Brasil
Teu cenário é sem igual
Nós te dedicamos
Rio, Quarenta Graus
Mais um filme nacional”.
Em 1961 JK despede-se de Brasília, confiante no regresso em 65. Afinal, como dizia o compositor Zé Kéti, a letra “k” estava “dando sorte, estava por cima” e enumerava: — “Kennedy, Kruschev e Kubitschek”. Seu sucessor, Jânio Quadros, após um ambíguo e efêmero governo de sete meses, renunciou intempestivamente, colorindo sua esperança de uma solução “gaullista” para o Brasil com os tons inequívocos da farsa: “O Jânio arquitetou um golpe... não podia governar com minoria no Congresso, sentia-se de mãos amarradas. Escreveu então a carta de renúncia... que não era para valer. Vai então entrega a carta ao seu Ministro da Justiça para ele apresentar o documento ao Congresso de tal jeito que ela não pudesse ser submetida aos deputados e por eles julgada em definitivo, no mesmo dia. Depois chamou os ministros militares e disse: “Fechem ou amordacem esse Congresso de borra, me dêem poderes extraordinários senão eu renuncio e vocês terão que engolir o Jango Goulart. Mas como se viu, a coisa não funcionou como ele esperava. O Congresso pegou o pião na unha. Aceitou logo a renúncia e fechou questão. O Jânio ficou no Aeroporto de Cumbica esperando que o povo brasileiro se erguesse e o levasse de volta ao governo, de charola. Não apareceu ninguém. A farsesca renúncia de Jânio apanhou seu vice em Singapura, ao término de uma missão por ele chefiada à República Popular da China. Precavido e conhecedor da política de sua terra, Goulart sofreou o entusiasmo de sua comitiva, que propunha um brinde ao “novo presidente do Brasil”, e, cauteloso, propôs em troca que brindassem “ao imprevisível”. De fato, abria-se uma grave crise sucessória, onde os ministros militares e a União Democrática Nacional — UDN — expressando grupos e áreas de interesses conservador-oposicionistas, ensaiaram um malogrado golpe militar com o objetivo de impedir o retorno e a posse de Goulart; em contrapartida, uma intensa mobilização popular procurou impedir a solução anticonstitucional através da Campanha da Legalidade. A adoção da Emenda Parlamentarista, vista como uma solução “conciliatória”, foi finalmente aceita em Paris por Jango que, cauteloso e desconfiado, “pelas dúvidas, entrou no Brasil pelo Rio Grande”. Por escassos dezesseis meses, o país conviveu com a experiência parlamentarista, sepultada após uma fragorosa derrota no plebiscito de 6 de janeiro de 1963. Ao reassumir os plenos poderes conferidos ao chefe do Executivo, Goulart poderia finalmente, e de acordo com o sopro de mudanças que agitava o país, levar a cabo seu programa de reformas com o qual pretendia marcar a “nova independência do Brasil”.
Não era pouca coisa. A “segunda” independência do Brasil significava independência econômica, autodeterminação e reformas estruturais que, mesmo limitadas, atendessem às reivindicações básicas dos movimentos populares, minorando o quadro das desigualdades sociais do país. O Brasil era um país rico em recursos naturais — “terra verde e imensa, debruçada no céu a convidar os homens à humanidade. Terra verde a prometer futuro..., imenso Brasil, gordo Brasil, sumarento Brasil a jurar um brasileiro salomônico, cristalino, carregado de abraços e sorrisos e calma e paixão e verdade. Um povo a semear verdade e riso” (Armando Costa et alii. O Auto dos 99%. Rio de Janeiro, CPC, março 1962, mimeo.). No entanto, esse “sumarento Brasil” ocultava-se por detrás de um “Brasil seco, mirrado, de costela de fora, de pires na mão” (idem, ibidem), cujo combate era colocado na ordem do dia. A estratégia de luta, no entanto, variava, gerando via de regra polêmicas intermináveis e freqüentemente irreconciliáveis sobre posições que o vocabulário político da época designava como “reformistas”, “moderadas”, “radicais”, “conciliadoras”, “entreguistas” e “ortodoxas”. Seja como for, o sonho da “conscientização” do povo parecia tão próximo e tão real, que artistas, intelectuais, acadêmicos, estudantes, profissionais liberais, entre outros, metamorfosearam-se em políticos e partiram para o que Arnaldo Jabor definiu como uma “doideira conscientizadora”: “...como as esquerdas estavam próximas do Poder, montaram-se mil veículos de conscientização em massa do povo brasileiro. Aviões, caminhões, transformáveis em palco, circos, funâmbulos, etc. saíram pelo país afora numa louquíssima mambembice revolucionária nunca vista na história das esquerdas próximas do Poder. O povo olhava embasbacado aquela multidão de jovens que lhe ensinavam coisas de dedo em riste, lhe faziam equações, empurrões, gritos de estímulo, eia! sus! querendo transformar os operários e camponeses em revoadas de torsos heróicos... Ficou uma herança de generosidade” (Heloísa Buarque de Holanda).
Heloisa Maria Murgel Starling
Vozes. Petrópolis. 2ª edição.
1986.
SÃO JOÃO DEL REI
Por mais que se possa discutir ter sido ou não Tomé Portes del Rei o fundador da futura Vila de São João del Rei, é inegável que a fixação de núcleos povoadores nas áreas próximas ao Rio das Mortes esteja diretamente ligado ao seu estabelecimento na paragem conhecida como Porto da Passagem, decorrendo, portanto, deste povoado a origem de São João del Rei.
Saint-Hilaire indicou que Fernão Dias Pais, em suas passagens pelo “Caminho Geral do Sertão” ou “Caminho Velho”, já teria iniciado a ocupação do Rio das Mortes, não tendo, porém, continuidade esta empreitada. O primeiro núcleo efetivo de povoação colonial da área remete à iniciativa de Tomé Portes del Rei, que, em fins do século XVII, se instalou na região que seria conhecida como “Porto Real da Passagem”, à margem esquerda do Rio das Mortes, com o objetivo de produzir mantimentos a serem vendidos aos passantes em direção às áreas mineradoras.
Em 1702, descobriu-se ouro na região que viria a ser o Arraial Velho de Santo Antônio, posteriormente Freguesia de São José del Rei. Somente após a morte de Tomé Portes del Rei, entre 1704 e 1705, é que foi descoberto ouro no outro lado do rio, onde se formou, a partir de então, o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar. Segundo Waldemar Barbosa, o arraial cresceu com rapidez, “sendo a região onde, ao lado da mineração, mais se incrementou a agricultura, que já existia anteriormente à exploração do ouro”. Foi elevado a Vila de São João del Rei em 1713, tornando-se cabeça da Comarca do Rio das Mortes (As Capitanias e, posteriormente, no período imperial, as Províncias dividiam-se em Comarcas e estas, por sua vez, em Termos, que possuíam uma sede, na qual se localizava a Câmara Municipal. A sede do principal Termo da Comarca era conhecida como “cabeça da Comarca”), que tinha como limites, ao norte, as Comarcas de Vila Rica e Sabará e, ao sul, as Capitanias de São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo Geraldo Guimarães, até 1718 a Câmara de São João del Rei tinha jurisdição sobre toda a Comarca. Com a criação da Vila de São José del Rei, o poder foi dividido. Novos desmembramentos ocorreram em fins do século XVIII, com a criação das Vilas de Barbacena, em 1791, e da Campanha da Princesa, em 1799. Seria enfadonho continuar a citar os sucessivos desmembramentos ocorridos ao longo do século XIX, uma vez que, ainda em começos do oitocentos, a Comarca já se subdividia
Silvia Maria Jardim Brügger
família e sociedade
(São João del Rei – Séculos XVIII e XIX)
Annablume. São Paulo. 2007.
O PRESENTE
Era o aniversário de casamento de vovô e vovó. Não sei quantos anos faziam. Assisti às suas bodas de diamante (sessenta anos)
Vovô estava preocupadíssimo com o presente. Em geral, não se preocupava tanto. Mas naquele ano, tinha ido a São Paulo misteriosamente e ninguém sabia o que era. Tia Inaiá dizia:
— São os remorsos!...
As infidelidades de vovô eram assunto. Na família se comentava rindo, com certa malícia complacente e divertida. Era uma família sem metafísica, onde o pecado não tinha nenhuma significação. Das vidas alheias também pouco se ocupavam. Eu soube no colégio que meu tio Nonô, que era chamado O Príncipe, tinha uma mulher e vovô a tirara dele, “montando casa”. Quando dei um chá para minhas colegas (o que constituía uma concessão por parte de vovó, porque a comunicação daquela família com a gente da cidade era nenhuma; não por desprezo, não, apenas desinteresse), uma das colegas, vendo Mulata, uma criadinha que servia a mesa, disse:
— Essa é que é filha de seu avô.
Vovó, aparentemente, ignorava tudo. Ela não era submissa. Não o desafiava, mas ele a respeitava. Tinha a sua individualidade, suas idéias próprias, falava o que queria, era enérgica com os filhos e os educou à sua maneira. Nunca os vi discutir
Mas a sua sensualidade era forte demais. Sua vitalidade, incontrolável e estava acostumado a tomar o que desejava.
Para festejar o aniversário de casamento, tia Carmem, irmã solteira de vovó, que dirigia a casa, preparou tudo com o maior cuidado. Toda a família tinha se reunido. Eu queria estar bonita. Tia Inaiá me levou para o quarto, colocou duas partes do meu cabelo para trás e pôs um laço de veludo preto. Na mesa enorme, preparada com as melhores louças sobre toalha branca, eu olhava aquele desfile de rostos. Mamãe, linda, estátua grega, perfil perfeito, porte de rainha. Tia Inaiá deslumbrante. Tio Carlos... que beleza! Vovó, olhos negros imensos que desmentiam a sua aparência de suavidade. Aqueles olhos não eram suaves, eram meio abismais. Dos filhos, uma parte tinha herdado os seus olhos, outra os de vovô, verdes-claros. Eu herdei os dela.
Naquela família, ao contrário da de mamãe, os sentimentos eram contidos. Uma aparente frieza em todos os seus gestos. Numa festa daquelas, havia emoção, mas não expansão. Vovô, à sobremesa, tirou do bolso uma caixa comprida e disse:
— Glorinha, isso é para você. Eu mesmo escolhi. A pérola é você, os brilhantes são os filhos.
Numa família sem a menor vocação para a solenidade, era um fato insólito.
Vovó olhou a barrete, linda, longa, perfeita. E disse baixo mas nitidamente:
— Nilo, se você fosse pôr um brilhante para cada filho que teve, não havia brilhante que chegasse!...
Ninguém ouviu. Todo mundo continuou a comer. Tia Inaiá disse que vovô, depois disso, melhorou consideravelmente.
Rachel Jardim
Os Anos 40
José Olympio. Rio de Janeiro.
3ª edição. 1985.
A Igreja mineira deve uma reparação de justiça a esses heróis esquecidos, por ventura calculadamente desprezados, que foram os padres de outrora, bandeirantes da Fé, cujo ânimo, blindado pela couraça de um valor invulgar, nunca se lhes entibiou em face dos mil e incríveis tropeços que lhes levantava por davante a aspereza de uma terra saída apenas da barbaria, — o fantasma do Padroado enfrentando-os ameaçador a cada passo, — o vício, sob todas as modalidades, avassalando pavorosamente as almas — a torpeza da escravidão...
Injusta em geral a história desse malsinado clero, vergado ainda hoje ao peso de acusações em que todos, mal avisados, mais ou menos temos crido, sem lhes contrapormos as atenuantes que militam, numerosas e bradantes, em seu favor.
Antes de tudo é preciso não confundi-lo com essa aluvião de frades sem Deus e sem lei, que, devorados pela ganância e aturdidos pela sensualidade, desertores do dever, duplamente apóstatas, se derramaram pelas Minas, esquadrinhando-as de canto a canto, desedificando-as ferozmente e fazendo recair a responsabilidade de suas torpezas sobre o clero laborioso e construtor — o primeiro a deplorar, com a Igreja, a ignorância desses demolidores, tão engenhosos que contra eles sempre resultaram impotentes as medidas mais severas da própria Metrópole, em mais de trinta anos de nutrida luta, empenhada em vão em arredá-los de Minas (Inúmeros as avisos, ordens, etc. expedidos aos Governadores, apertando providências contra esses religiosos.).
Pugnam ainda por esse mal-aventurado clero razões outras, ainda não devidamente ponderadas. No completo abandono espiritual em que vivia, longe de seu bispo de quem o trazia apartado, menos que as grandes distâncias, o regime asfixiante do padroado, que controlava sistematicamente todo ato episcopal tendente a corrigir os clérigos pervicazes na indisciplina, desajudado e desamado, é de surpreender não houvera feito esse clero bancarrota total. Ao contrário, atirado ao mundo sem formação espiritual que o mantivesse à altura dos seus compromissos, porque não tivera seminário; sem amor ao estudo que o entretivesse, porque apenas iniciado nas letras; sem estímulos que lhe soerguessem o moral quando por ventura abatido, porque pouco virtuosa a sociedade do seu tempo, ainda assim soube cumprir seu dever e preencher sua missão, legando-nos esta formosa Igreja Mineira, porção de certo mais delicada da Igreja Brasileira.
Os que o acusam se informaram certamente com o Desembargador J. J. Teixeira Coelho, que, em 1780, lavrou tremendo libelo contra os sacerdotes da Capitania: “Os eclesiásticos seculares não têm dado melhor prova de sua conduta; faltam com o pasto espiritual às almas, são ambiciosos, simoníacos, rebeldes em pagar os quintos, etc.”
Estas acusações, porém, devem ter o peso destoutras: “Os povoadores da dita Província (Minas) ou são ou procedem dos europeus que se transportaram a ela excitados pela esperança dos seus interesses. A maior parte deles eram ou réus de delitos ou pessoas que nas suas terras não tinham mais do que aquilo que ganhavam pela enxada ou pelos ofícios vis que exercitavam.
“Estes homens que cá no reino eram a escória do povo e o desprezo dos bons, vendo-se em um país extenso e cheio de liberdade, fazem-se insolentes e querem ser fidalgos.”
[...]
“Aqueles mulatos que se não fazem absolutamente ociosos se empregam no exercício de músicos, os quais são tantos na capitania de Minas que certamente excedem o número dos que há em todo o reino.”
Alguma lhe fizeram, em Minas, a esse Desembargador!
Débil embora, porque não o logramos traçar veemente, fique todavia, nesta página sem vida, o protesto do nosso reconhecimento ao rude clero de outrora, operoso, construtor, de cujas faltas o redimiu totalmente essa grande fé que o animava, e de que nos restam numerosos e imperecíveis monumentos.
Cônego Raymundo Trindade
em Arquidiocese de Marianna – vol. I
Escolas Profissionais do Lyceu Coração de Jesus. São Paulo.
1928.
Joaquina, a filha de Tiradentes, vivia juntamente com sua mãe, a menor Antônia Maria do Espírito Santo,
A própria Antônia Maria narra, em requerimentos de outubro de 1789, um ao juiz ordinário e outro ao juiz do seqüestro dos bens dos conjurados, o Dr. Pedro José de Araújo Saldanha, sua aproximação ao Alferes e sua conseqüente perda de virgindade, do que resultou a expulsão de um feto e, depois, o nascimento da mencionada Joaquina. Disse que vivia com sua mãe D. Maria Jozefa, viúva de Antônio da Silva Pays, quando Tiradentes a viu e a aliciou “com promessas de casamento” e “lhe roubou a sua pudicície”, do que nasceu um feto e, depois, a menor Joaquina; e, para reparar em parte o haver maculado sua honra, o dito Alferes lhe deu “uma escrava por nome Maria, de nação angola, a qual concebeu e pariu um menino por nome Jerônimo, pardo fusco, ou cabra e agora de próximo outra cria parda por nome Franc.ca...
Também a Tiradentes atribuem a paternidade do soldado João de Almeida Beltrão, que residiu, organizou família e faleceu no então arraial do Indaial, depois Dores do Indaiá (Não se deve, contudo, esquecer de que essa paternidade é contestada pelos que admitem seria esse o registro de batismo do soldado referido (fl. 354, do livro próprio, da Matriz do Pilar,
João de Almeida Beltrão, casando-se com Maria Francisca da Silva, deixou a seguinte descendência, considerada também como sendo a do Alferes:
1 — Anna, cc. José Gomes de Moura, ambos falecidos em Quartel-Geral, no antigo município de Dores do Indaiá. Filhos desse casal: Flávio Gomes de Moura, falecido em Sacramento; e outro de nome e destino ignorados.
2 — José de Almeida Beltrão, cc. Maria Magdalena, falecidos ambos em Uberaba, sem deixar descendência.
3 — Lúcio, falecido aos nove anos de idade, na residência dos pais.
4 — Francelina Fausta Josina, cc. Joaquim dos Santos Caldeira, falecidos em Quartel-Geral, deixando vários filhos.
5 — Carolina Augusta Cesarina, cc. Antonino Alves de Rezende, falecido
6 — Elisa Lisboa Magdalena do Carmo, solteira, falecida em Morrinhos, Goiás, deixando filhos.
7 — Justino de Almeida Beltrão, cc. Emiliana de tal, falecidos ambos em Morrinhos, Goiás, deixando vários filhos, que, por sua vez, legaram numerosa descendência.
8 — João de Almeida Beltrão Júnior, cc. Maria de tal. Não deixaram filhos.
9 — Belchior de Almeida Beltrão, cc. Maria de tal e, depois de enviuvar-se, com outra Maria. Residiu em Dores do Indaiá e, do último casamento, lhe vieram filhos.
Além disso, Tiradentes fazia, quando
[...]
Pelo que se conclui, a tese de que a descendência de Tiradentes alcançou gerações, ampliou-se no século XIX e chegou a nossos dias carece, ainda, de comprovação isenta de qualquer dúvida. Não que seja ela impossível. E há até lógica em supô-la realidade. O que se afirma é a ausência de documentação que a comprove de maneira cabal, embora sejam dignos de respeitoso apreço e de louvores os esforços dos que, vencendo dificuldades inúmeras, admitem e proclamam a veracidade da existência, até nosso tempo, de descendentes do Alferes. Não é, por isso, inoportuno proclamar que esses pesquisadores prestam à História de Minas e do Brasil valiosa colaboração, merecedora de novos adeptos.
Oiliam José
em Tiradentes
Itatiaia / Edusp.
Belo Horizonte / São Paulo.
1985.
CENÁRIO
Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado,
pascer nas solidões esmeraldinas.
Largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
e eram sonhos sem fim, de cada lado.
Entre nuvens, colinas e torrente,
uma angústia de amor estremecia
a deserta amplidão na minha frente.
Que vento, que cavalo, que bravia
saudade me arrastava a esse deserto,
me obrigava a adorar o que sofria?
Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.
As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.
De coração votado a iguais perigos,
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos.
Cecília Meireles
em Romanceiro da Inconfidência
Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
19ª impressão. 2004.
12 de novembro — Encerradas as aulas na Faculdade. Excelente curso para os alunos da primeira série. Medíocre para os da segunda. Minhas alunas da segunda (são só moças, nesta série) fizeram no ano passado um curso que muito me satisfez. Este ano, porém, nem por isso. E, fato estranho, obstinaram-se em não ler o Don Quijote, talvez por ser a obra cuja leitura, integral e bem feita, eu recomendava como indispensável. As cinco alunas da turma formaram uma verdadeira clique contra Cervantes e a sua obra imortal. Estúpidas? Não. Apenas certa tacanhez de espírito, encontradiça em quem passou por colégios de freiras.
Essas moças ouvem missa todos os dias. Confessam-se e comungam a miúdo. Como alunas de um curso de letras, cometeram um grave pecado: declararam inimizade a Dom Quixote. Isto, sim, é que foi pecado, e deviam correr a confessá-lo a algum padre inteligente que porventura conhecessem.
Cervantes será vingado. Essas moças que se enganaram de vocação, deixando as prendas domésticas por umas vagas letras, ficarão para tias, serão muito breve umas maritornes inaptas para excitar nos homens qualquer apetite de casamento.
13 de novembro — Crê-se que as nações unidas esmagarão ainda a Alemanha, como em 1918. E também o Japão. É isso possível? Não me parece. Não existem forças no mundo capazes de deter o ímpeto expansivo desses dois povos pletóricos de vigor.
14 de novembro — O Guilhermino me disse: — “Você tem um terrível inimigo na Imprensa, F.... Cuidado com ele.”
“Ora, essa! Pensei comigo. Não me lembro de ter feito qualquer bem a tal sujeito.”
15 de novembro — Matinée no Glória. Fita de Far West, tirada de uma história do clássico Rex Beach: The Spoilers. Cartaz com Marlene Dietrich, John Wayne (o galã nobre), Randolph Scott (o mau moço), Richard Barthelmess, decaído num papel de terceira ordem e William Farnum, o outrora glorioso e querido William Farnum, numa ponta indigna.
Por que agradam sempre estas histórias de violências, correrias, valentonadas, turbulências de aventureiros e out laws? Porque estimamos, no fundo de nós mesmos, o crime, a desordem e a violência, dir-se-á. Não é isso. É porque somos eternas crianças e por isso amamos a bravura, o desapego à vida, a coragem, a intrepidez — virtudes elementares, capitais, as mais dignas de apreço no homem. A mulher quer-se bonita; o homem, corajoso. Nos filmes americanos (ao menos, nos mais típicos), a mulher bonita e virtuosa acaba sempre casando com o homem corajoso e bom. Dir-se-á que na vida real não acontece assim. Dir-se-á que se a virtude costuma ser premiada, o vício às vezes também o é, e que na realidade a injustiça é mais freqüente que a justiça e a sem-razão mais que a razão. Mas a verdade é que o preconceito do happy end, censurado nos filmes de Hollywood, é tão legítimo como o do bad end, preferido pelos cenaristas.
20 de novembro — Comprei, num sebo, El estupendo Cornudo, de F. Crommelynck, farsa genial que teve um êxito imenso na Europa, há vários anos. A tradução espanhola, que li, é de 1925, edição da Revista de Occidente, que tão boas obras traduziu e lançou. Li Le Cocu Magnifique com espanto e admiração, com alegria de leitor que encontra algo raro e de qualidade verdadeiramente superior.
22 de novembro — No Cine Brasil, A Vida Assim é Melhor, com Charles Laughton, John Hall, Victor Francon e outros. Filme em que entra Laughton é necessariamente bom. O grande artista é a réplica britância do inesquecível Emil Jannings.
Eduardo Frieiro
Itatiaia. Belo Horizonte.
1986.
Além das citadas, e a mais significativa da cidade, é a Capela de S. Francisco de Assis. Do outro lado do córrego do Lenheiro, goza de posição privilegiada. Dispõe de largo espaço, em suave inclinação, favorável a agenciamento paisagístico, com aléias empalmeiradas e graciosa escadaria para o terraço elevado, protegido por balaustrada em pedra.
O projeto original é de Antônio Francisco Lisboa, parte do qual encontra-se no Museu da Inconfidência,
São cilíndricas as torres. Arrematam-nas cúpulas protegidas por varandas, infreqüentes na região. As paredes ondulam em curvas de três centros, elevando a cumeeira da nave em curiosa corcova.
O desenho original da frontaria não corresponde exatamente à execução. Naquele, as janelas de coro apresentam-se como quadro emoldurado, a decoração da sobreporta é complexa e concentrada. As janelas realizadas adotam solução mais arquitetônica, e a composição da portada se apresenta mais clara e expandida. Ao alto incorpora medalhão, não-previsto, da Virgem, com fitas falantes e coroa. No fecho da verga inclui-se a cabeça de Cristo. Nas cartelas centrais, aladas, inscrevem-se as armas de Castela e os símbolos da Ordem.
É de presumir-se o predomínio de Lima Cerqueira na execução da obra. Se em muitos detalhes é visível o trabalho de Antônio Francisco, nos demais prevalece caligrafia diversa, mais contida que desenvolta e mais sóbria que requintada. O frontão, por exemplo, não corresponde ao estilo e projeto de Antônio Francisco. Desenvolve-se afastado das torres, recorta-se em perfis menos caprichosos e se apresenta um tanto pesado em seu singelo comportamento.
O interior da Capela revela, igualmente, trabalho de múltipla autoria. O desenho dos retábulos condiz com a personalidade de Antônio Francisco; a execução lhe é alheia. Entalha apenas alguns pormenores, dentre os quais se destacam os baixos-relevos das portas dos tabernáculos, nos altares de S. Luzia e de S. Bona (?). É também de sua lavra a imagem de S. João Evangelista, cuja postura lembra a do Profeta Habacuc, em Congonhas do Campo.
Lamentavelmente, não são dourados e pintados os retábulos da nave. Dispõem, somente, do prévio engessamento, em branco, que prejudica bastante os efeitos de luz e sombra promovidos pela talha. Em compensação, permite conhecimento dos processos utilizados em seu acabamento.
Além dos detalhes citados, possui ainda a capela rico arcaz de sacristia e excelentes candelabros do mais rico cristal colorido.
Outras capelas e Passos da Paixão completam a arquitetura religiosa local. Não lhe é inferior o conjunto arquitetônico civil. São típicas, nas construções particulares, as beiradas de telhas sobrepostas, conhecidas como beiraseveiras. Formam colméias que rendilham os topos das fachadas, projetando sombras sinuosas sobre a superfície dos muros. Típicos, também, são os relevos em estuque que ornamentam vergas e ombreiras, pilastras e cimalhas, forros e tabeiras. Constituem novidades do século XIX, e conferem às construções fisionomia alegre e vaidosa. Às vezes chegam a lembrar relevos delicados, de cristais, opalines e louças da mesma época, em moda na Europa. Tanto ornam residências modestas como opulentos sobrados da nobreza rural, produzidos pelo café. Muitos destes alcançam três pavimentos. Alguns aproveitam os desvãos dos telhados em camarinhas.
O mais importante sobrado acolhe o Museu Regional. Nele estão preservados conjuntos de móveis locais, imagens, telas e objetos, representativos da civilização sul-mineira. Arquivos, eclesiásticos e civis, completam o acervo do Museu, criado e mantido pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Outro edifício que se destaca é o da Prefeitura. Além da boa arquitetura possui excelente biblioteca, na qual se conservam publicações raras do maior interesse.
Em alguns trechos urbanos muitas residências se mantêm intactas em sua vetusta integridade. Em seu conjunto, deixou-se a cidade impulsionar pelo progresso. Iniciativas industriais a ampliam e valorizam. Sobre a fisionomia antiga outra superpõe-se, recriando glórias.
Renée Lefèvre, Sylvio de Vasconcellos
Desenho Lírico das Minas Antigórias
em Minas: Cidades Barrocas.
Cia. Editora Nacional / Editora da Universidade de São Paulo.
São Paulo. 1968.
MORRO VELHO
cccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccI
Olhando agora para Oeste, o imenso palácio das trevas, escuro em longa perspectiva apresenta-se com um aspecto tremendo; acima de nós parecia haver um céu sem atmosfera. As paredes ou eram negras como superfície polida e úmida, ou se abriam em projeções monstruosas, em parte revelando e em parte escondendo os recessos cavernosos e tenebrosos. Apesar das lâmpadas a noite nos oprimia como um peso e a única medida da distância era uma centelha aqui e ali brilhando como uma estrela isolada. Realmente dantesco era o golfo entre os imensos flancos da montanha que pareciam ir cair a todo o momento. Tudo parecia mudado, até mesmo o timbre de uma voz familiar, o ruído agudo da triste batida do martelo sobre o ferro perfurante e deste na pedra chocava o ouvido, golpes soavam regularmente como marcando o ritmo do canto selvagem do britador. Outros sons conhecidos pareciam estranhamente complicados pelo eco; eram o burburinho da água no caminho subterrâneo, o tinir das pedras de ouro atiradas nos baldes e o ranger da corrente e da caçamba. Através deste inferno passam gnomos e gênios à maneira de fantasmas, figuras meio despidas, embuçadas pela neblina. Aqui homens escuros, brilhando com suor em rosário, suspensos por correntes em posições que pareciam horríveis; ali eram eles balouçados de lugar para lugar como Leotardo; acolá subiam por cordas acima como trogloditas; adiante andavam sobre andaimes, os quais, só de serem olhados de baixo, fariam um temperamento nervoso ficar vertiginoso. Só este espetáculo nos satisfazia amplamente. Era um lugar:
Em que os pensamentos eram muitos
e as palavras eram poucas
mas o seu efeito se conservará em nossa retina mental enquanto nossos cérebros exercerem suas funções.
Ao fim de duas horas deixamos esta caverna catedrálica listada de ouro e passamos incólumes do minério aos gramados. [1868]
Richard F. Burton
em Brasil, Terra & Alma
Minas Gerais
seleção de textos de Carlos Drummond de Andrade
Editora do Autor. Rio de Janeiro.
1967.
No extremo oposto da sala, outra, iluminando secretaria ainda vazia. No largo espaço entre as duas, uma mesinha encimada por máquina Remington daquelas antigas, umas que pareciam de dois andares, altas, como os fordes de bigode. Aproveitando o silêncio e o deserto, fui me inteirar do resto da repartição. Voltei à sala que tomara para entrar na minha. Nela davam outras portas: a primeira abria numa peça com três mesas dispostas duas ao fundo e uma fronteira, atulhadas de papéis, de mais papéis, de papéis que enchiam os altos duma estante, as cadeiras, empilhando-se mesmo no chão, ao lado das giratórias que deviam ocupar os donos das mesas. Toda a parede do fundo era tomada por mapa gigantesco de Minas Gerais tendo várias localidades marcadas por bandeirinhas cujo cabo era um alfinete longo e grosso. Eram de cores variadas — havia verdes, brancas, vermelhas, amarelas. Ousei entrar os pórticos do “Gabinete do Diretor”. Sua secretária estava aberta e primorosamente arrumada, as borrachas, raspadeiras, vários lápis de cor, as canetas, o tinteirão de cristal, o berço do mata-borrão — dispondo-se com esmero e fazendo uma composição lustrosa e nítida como as coisas e móveis que aparecem nos quadros dos mestres holandeses. Podia entrar na tela de Keiser e servir para a cena de O Burgomestre e os Magistrados Municipais de Amsterdam recebendo o Embaixador da Rainha Maria de Médicis. Abri a portinha no canto: eram a latrina e a pia privativas do Senhor Diretor. Tudo ali reluzia de limpeza e a banca do fundo parecia uma cátedra, um assento curul, uma estala de coro, um trono, uma sédia. Não tinha, em cima, o dossel que procurei mas uma caixa de descarga de que pendia corrente a prumo dotada dum precioso punho de louça colorida. Uma toalha engomada e mais rendada que um paramento de igreja pendia do lado duma pia positivamente batismal. Retornei à saleta, fui andando até à portaria e divisei por batentes abertos o Seu Deolindo no fundo duma sala, conversando com um senhor muito magro, pele do rosto vermelha e dum polimento como se tivesse sido envernizada. Através de óculos grossos e cintilantes dois grandes olhos mansos e bons encontraram os meus. O Seu Deolindo chamou-me. Entre aqui e venha conhecer o Dr. Abílio de Castro, nosso antigo Diretor, um dos esteios desta Casa. Apertei a mão que me era estendida e sentia-a entre meus dedos — firme, decidida e fina e longa como a dum pianista. Reparei melhor no homem, agora um sorriso benevolente na face. Tinha um princípio de calva, cabelos muito crespos grisalhando, era magro, mostrava dentes magníficos, vestia-se sem elegância mas com asseio e decência. Quando ele tornou a sentar-se descansou ambas as mãos sobre um vasto papel quadriculado cheio de dezenares, centenares, milhares de risquinhos de todas as cores do arco-íris. Era sua maneira de tabular as estatísticas sanitárias da pequena parte do Estado onde já tinham chegado uma tênue Saúde Pública e uma rala Profilaxia Rural. À sua frente os lápis apontados, mais finos que agulhas, com que ele fazia aquela policromia de Seurat, de Cross, de Signac. Sua voz era agradável e bem timbrada. Então o senhor é o novo colaborador? Pois eu lhe desejo muitas felicidades no trabalho. Já sei que é estudante de Medicina. Quando tiver intervalo no que vai fazer, se precisar alguma informação ou conselho, entre sempre nessa sala. Ah! Doutor Abílio... muito obrigado! O senhor nem sabe... Parei. Também, eu não podia dizer, diante do Deolindo, do prazer que eu tinha de estar encontrando uma criatura humana — destas de quem nos tornamos amigos à primeira vista, por espontâneas, não estanhadas e impermeabilizadas. Foi o caso. Grande Doutor Abílio! Comecei a bem querer nosso amanuense — pela apresentação. Foi rindo sozinho que voltei para minha sala, para minha mesa, onde tive de repente a desagradável impressão de um retorno ao Internato e de estar privado de saída pelo Quintino. Para desafogar fui respirar a uma das janelas. Elas davam nuns restos de cidade, depois nuns barrancos e trilhas de terra vermelha, num cerrado dentro do qual, muito longe, levantavam-se edificações, muros, puxados pintados de róseo e encimados por torreão passado à mesma tinta. Perguntei ao Deolindo que entrava o que era aquilo. Era o Posto Veterinário. Ah! torre cor-de-rosa... mal sabia eu que um dia ela parecer-me-ia um farol dentro de vastos mares — farol que eu namoraria por tabela. Ah! cor-de-rosa. Rosarrosa rosalando exalando o perfume que impregnou minha mocidade. Lá é que...
Pedro Nava
em Beira-Mar
Memórias 4
Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
3ª edição. 1985.
Contudo, excomunhões e repreensões várias era o máximo a que poderia ir seu poder. Por isso muitas vezes os párocos trabalhavam conjugados com os vigários de vara, responsáveis pela administração das comarcas eclesiásticas, subdivisão imediata do Bispado e, esses sim, detentores de um poder de justiça eclesiástica. Suas atribuições, aliás, eram vastas, cuidando das punições contra delitos espirituais até a realização de casamentos e missas. Seu poder judicial em âmbito local seria requisitado sempre que as repreensões e avisos do pároco fossem insuficientes. A importância desses funcionários do clero secular não deve ser subestimada. Era tamanho seu poder, que foram os responsáveis pela execução da expulsão dos padres e frades licenciosos da Capitania de Minas Gerais no início de seu povoamento.
A prostituta Joana Vitória, na vila de Sabará, “pela sua dissolução, foi mandada expulsar dela pelo reverendo Doutor vigário da Vara”. Não obstante seu poder punitivo, esses vigários também enfrentavam a resistência da população. A mulata Mariana,
As uniões consensuais envolviam um número muito grande de pessoas que o poder desse clero estava longe de controlar. O número de funcionários era pequeno para se ocupar, além da assistência espiritual corriqueira, da condenação de uma prática tão generalizada entre as populações. Por outro lado, a impossibilidade de instalação do clero regular na Capitania gerou uma sobrecarga nesse trabalho de assistência exercido pelos seculares aí estabelecidos. Concorrendo para dificultar ainda mais a correção da conduta dos fiéis encontraríamos nas Minas um clero rebelde na aceitação da reforma eclesiástica implantada com base no Sínodo de 1707. Párocos locais, avessos à subordinação em que deveriam permanecer em relação ao poder do Bispo, fugiam de seu controle e administravam livremente os sacramentos, muitos vezes desconsiderando suas normas de regulamentação. O resultado dessa independência ante os bispos, não apenas enterrava o projeto de institucionalização da Igreja, como “abría espacio para la laxitud y la tolerancia ante comportamientos condenadores, pero comunes como el concubinato”.
Ao mesmo tempo, não ajudava na consolidação de uma conduta religiosa a presença de clérigos extremamente indisciplinados. A desmoralização do clero, espalhado pelas vilas mineiras, certamente contribuiu para afastar a população da religiosidade oficial ou pelo menos proporcionou um desgaste entre alguns fiéis menos convictos. Em Vila do Príncipe, o padre Manuel Delgado Duarte “tem em sua casa uma moça branca com o título de sua prima e murmura-se que ele trata com ela ilicitamente (...)”. Outro clérigo, o Reverendo Simão Peixoto — figura que reencontraremos adiante — tempos mais tarde, nessa mesma vila, seria denunciado em uma conflituosa e pública relação com uma preta forra chamada “a Rabu”, com quem costumava brigar no meio da rua e cuja filha teria sido, ainda, deflorada pelo padre. Distante dali o clérigo Francisco Ferreira de Assunção explorava a prostituição de suas três escravas, as negras Ana, Antônia e Juliana. Outros, apóstatas, envolver-se-iam em atividades de contrabando, bebedeiras e banditismo, escapando das ordens de expulsão e prisão que sobre eles recaíam. Assim, como conseguir disciplinar a vida conjugal da população, já fracamente atendida na sua espiritualidade, com exemplos tão destoantes, nascido no interior do próprio corpo de funcionários da Igreja?
Luciano Raposo de Almeida Figueiredo
vida familiar
Hucitec. São Paulo. 1997.
CARTA 2ª - final
O povo, Doroteu, é como as moscas
que correm ao lugar, aonde sentem
o derramado mel; é similhante
aos corvos e aos abutres, que se ajuntam
nos ermos, onde fede a carne podre.
À vista, pois, dos fatos, que executa
o nosso grande chefe, decisivos
da piedade que finge, a louca gente
de toda a parte corre a ver se encontra
algum pequeno alívio à sombra dele.
Não viste, Doroteu, quando arrebenta
ao pé de alguma ermida a fonte santa,
que a fama logo corre, e todo o povo
concebe que ela cura as graves queixas?
Pois desta sorte entende o néscio vulgo
que o nosso general lugar-tenente,
em todos os delitos e demandas,
pode de absolvição lavrar sentenças.
Não há livre, não há, não há cativo
que ao nosso Santiago não concorra.
Todos buscam ao chefe e todos querem,
para serem bem vistos, revestir-se
do triste privilégio de mendigos.
Um as botas descalça, tira as meias
e põe no duro chão os pés mimosos;
outro despe a casaca mais a veste
e de vários molambos mal se cobre;
este deixa crescer a ruça barba,
com palhas de alhos se defuma aquele;
qual as pernas emplastra e move o corpo
metendo nos sobacos as muletas;
qual ao torto pescoço dependura,
despido, o braço que só cobre o lenço;
uns com bordão apalpam o caminho,
outros, um grande bando lhe apresentam
de sujas moças, a quem chamam filhas.
Já foste, Doroteu, a um convento
de padres franciscanos, quando chegam
as horas de jantar? Passaste, acaso,
por sítio em que morreu mineiro rico,
quando da casa sai pomposo enterro?
Pois eis aqui, amigo, bem pintada
a porta mais a rua deste chefe
nos dias de audiência. Oh! quem pudera
nestes dias meter-se um breve instante,
a ver o que ali vai na grande sala!
Escusavas de ler os entremezes,
em que os sábios poetas introduzem,
por interlocutores, chefes asnos.
Um pede, Doroteu, que lhe dispense
casar com uma irmã da sua amásia;
pede outro que lhe queime o mau processo,
onde está criminoso, por ter feito
cumprir exatamente um seu despacho;
diz este que os herdeiros não lhe entregam
os bens que lhe deixou, em testamento,
um filho de Noé; aquele ralha
contra os mortos juízes, que lhe deram,
por empenhos e peitas, a sentença,
em que toda a fazenda lhe tiraram;
um quer que o devedor lhe pague logo;
outro, para pagar, pertende espera;
todos, enfim, concluem que não podem
demandas conservar, por serem pobres,
e grandes as despesas que se fazem
nas casas dos letrados e cartórios.
Então, o grande chefe, sem demora,
decide os casos todos que lhe ocorrem,
ou sejam de moral, ou de direito,
ou pertençam também à medicina,
sem botar (que ainda é mais) abaixo um livro
da sua sempre virgem livraria.
Lá vai uma sentença revogada,
que já pudera ter cabelos brancos;
lá se manda que entreguem os ausentes
os bens ao sucessor, que não lhes mostra
sentença que lhe julgue a grossa herança.
A muitos, de palavra, se decreta
que em pedir os seus bens não mais prossigam;
a outros se concedem breves horas
para pagarem somas que não devem.
Ah! tu, meu Sancho Pança, tu que foste
da Baratária o chefe, não lavraste
nem uma só sentença tão discreta!
E que queres, amigo, que suceda?
Esperavas, acaso, um bom governo
do nosso Fanfarrão? Tu não o viste
em trajes de casquilho, nessa corte?
E pode, meu amigo, de um peralta
formar-se, de repente, um homem sério?
Carece, Doroteu, qualquer ministro
apertados estudos, mil exames.
E pode ser o chefe onipotente
quem não sabe escrever uma só regra
onde, ao menos, se encontre um nome certo?
Ungiu-se, para rei do povo eleito,
a Saul, o mais santo que Deus via.
Prevaricou Saul, prevaricaram,
no governo dos povos, outros justos.
E há-de bem governar remotas terras
aquele que não deu, em toda a vida,
um exemplo de amor à sã virtude?
As letras, a justiça, a temperança
não são, não são morgados que fizesse
a sábia natureza, para andarem,
por sucessão nos filhos dos fidalgos.
Do cavalo andaluz, é, sim, provável
nascer também um potro de esperança,
que tenha frente aberta, largos peitos,
que tenha alegres olhos e compridos,
que seja, enfim, de mãos e pés calçado;
porém de um bom ginete também pode
um catralvo nascer, nascer um zarco.
Aquele mesmo potro, que tem todos
os formosos sinais que aponta o Rego,
carece, Doroteu, correr em roda
do grande picadeiro muitos meses
para um e outro lado, necessita
que o destro picador lhe ponha a sela
e que, montando nele, pouco a pouco,
o faça obedecer, ao leve toque
do duro cabeção, da branda rédea.
Dos mesmos, Doroteu... Porém já toca
ao almoço a garrida da cadeia:
vou ver se dormir posso, enquanto duram
estes breves instantes de sossego,
que, sem barriga farta e sem descanso,
não se pode escrever tão longa história.
Tomás Antônio Gonzaga
Cartas Chilenas
em Poesias / Cartas Chilenas
edição crítica de M. Rodrigues Lapa
Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro.
1957.
Como dissemos, atraído pelo futuro sogro, o Anhangüera II, João Leite da Silva Ortiz, como todos os paulistas que subiram para as Minas, naqueles tempos, vinha aventureiramente à cata de ouro. Tê-lo-ia encontrado abundante nas terras do Cercado, de que se apossou? Eis uma interrogação que está reclamando amplos esclarecimentos, por ser até hoje ponto bastante controvertido.
É certo afirmar a Nobiliarquia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida Pais Leme, que “João Leite da Silva Ortiz estava rico e abastado e bem estabelecido de LAVRAS MINERAIS, com numerosa escravatura, no sítio chamado o Curral d’El-Rei”, isto em 1720. Mais adiante refere-se à brilhante situação que Ortiz alcançara. “NAS SUAS RICAS LAVRAS NO CURRAL D’EL-REY”. E, ainda em outro ponto, declara que Ortiz havia “entablado FÁBRICA DE MINERAIS NO CURRAL D’EL-REY”. Finalmente, acrescenta que este “era quase um nababo em as suas RICAS LAVRAS DE CURRAL D’EL-REY”.
Em que pese a grande autoridade de Pedro Taques, alimentamos fundamentadas dúvidas neste particular da existência de grandes lavras minerais no local em que existiu o arraial e no qual está assentada hoje a capital de Minas.
Efetivamente, segundo a carta de sesmaria concedida a Ortiz pelo Governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, ele “fabricou fazenda
São esses os termos da petição que ele próprio fez ao Governador Albuquerque, pedindo as terras que ocupava deste 1701. Onde a menor referência a lavras minerais nessa petição?
Acresce ainda que segundo cartas e ordens régias citadas pelo desembargador José João Teixeira Coelho,
Ora, conforme vimos, Ortiz requereu 3 léguas e obteve 2 ½, como está na sua carta de sesmaria; logo, não se tratava de terrenos minerais ou de caminhos para eles e sim de terras de sertão para lavoura e criação, a não ser que o Governador Albuquerque houvesse descumprido, em benefício de um paulista, as leis e ordens régias nesse particular, as quais estavam em pleno vigor.
Além disso, nenhum dos estudos que conhecemos sobre terras minerais do nosso estado faz referências a grandes lavras de Curral d’El-Rei, nos tempos coloniais.
Baseado nestes argumentos, temos razões para crer que Pedro Taques foi mal informado quanto à origem da fortuna de Ortiz. Poderia esta constituir-se e constituiu-se de ouro em pó ou em barras, moeda do tempo. O ouro, porém, não foi por ele extraído e sim adquirido com os produtos da sua fazenda do Cercado.
Reforçando a nossa opinião e as nossas conclusões sobre a não existência de tais lavras, eis o que escreveu o mestre Augusto de Lima na Revista do Brasil, em 1907:
“Não é inverossímil presumir que o iluminado planalto onde pousa a formosa capital mineira foi atingido nos primeiros albores do século 18. A expedição do Borba Gato deixou vestígios em todo o percurso do Rio das Velhas e de seus numerosos tributários. Os ribeirões do Borba, do Gaia, da Prata, dos Arrudas, etc., bem estão perpetuando os nomes e as tradições das primeiras bandeiras que penetraram por este lado de Minas Gerais.
Arruda foi, provavelmente, o primeiro que perlongou, do Rio das Velhas até aqui, o curso do ribeirão que conserva o seu nome.
O incentivo dessa diligência, nem é preciso insistir em o afirmar, era o mesmo que impelira todas essas numerosas bandeiras de portugueses e paulistas para o coração da terra mineira. Não é provável que Arruda encontrasse aqui o que vinha procurando: a formação mineralógica do solo só lhe oferecia vantagens nos contrafortes orientais da serra.
O leito do ribeirão e os de seus numerosos afluentes não ofereciam o rico e excelente cascalho aurífero. Não havia os tabuleiros e gupiaras que, em outros sítios, deparavam descobertos famosos e deslumbrantes.
Em compensação a esse malogro, rasgava-se ao olhar do bandeirante uma das mais grandiosas e belas perspectivas que a natureza pode oferecer.
Não dizem os minguados arquivos locais que resultados para a futura povoação se tirou dessa e de outras excursões.
Com o comércio de gado dos sertões da Bahia, já vamos encontrar uma povoação feita, tendo começado por uma dependência fiscal. O gado era recolhido do curral d’El-Rei, depois contado no registro das Abóboras, que por isso se denominou Contagem.
A topografia excepcionalmente favorecida destas paragens prestava-se para o estabelecimento de uma povoação dada à cultura e à vida pastoril.
Não era, porém, esse o espírito da época, todo inclinado à vida nômade das bandeiras de mineração, de modo que, enquanto Vila Rica, Sabará, Serro frio e outros núcleos coloniais se constituíam em centros populosos e ricos por sua situação em terrenos auríferos de exploração permanente, Curral d’El-Rei, perdendo a posição de empório do comércio do gado sertanejo estacionou em seu desenvolvimento, não oferecendo as faisqueiras de suas imediações lucro que fixasse ao solo uma população como a dos outros lugares referidos.”
Vemos, pois, que foi Arruda quem deu nome ao ribeirão que atravessa a cidade de Belo Horizonte, o que ainda documentaremos em outra parte deste trabalho. E, como o consagrado mestre, acreditamos que em Curral d’El-Rei, em vez de grandes minas, houvesse faisqueiras de ouro de aluvião, trazido pelas águas dos córregos vindos das serras, sendo que a tradição oral nos fala mesmo de boas faisqueiras de ouro, especialmente no Barro Preto. Mas, anão ser essas faisqueiras, só conhecemos referências a uma lavra (isto já em nossos dias), existente no Taquaril, proximidades de Belo Horizonte, explorada por ingleses, aí por volta de 1864, e cujo ouro era extraído do subsolo por processos relativamente modernos. Essa lavra, naturalmente, nem foi explorada nos tempos coloniais, quando se minerava nos córregos, nos morros ou onde quer que houvesse pinta do precioso metal, mas geralmente em catas pouco profundas. Se os mineiros faziam desmontes nos morros por meio de água, ou se abriam catas nos lugares de boa formação ou pinta, jamais exploraram o subsolo profundo, porque não tinham o aparelhamento necessário.
Para provar a existência de grandes lavras minerais em Curral d’El-Rei não sirva, pois, de argumento a vultosa cópia de ouro que Ortiz houvesse adquirido nas Minas, pois, naqueles tempos, como já dissemos, a moeda circulante era o ouro em pó, e, mais tarde, depois de criadas as casas de fundição, o
Demais, as grandes lavras de ouro que existiram na comarca de Sabará, conhecidas desde os tempos coloniais, eram: Raposos, Congonhas (hoje Morro Velho), Glória, Gaia, Gabiroba, Espírito Santo, Dufles, Faria, D. Florisbela, Capão, Papa Farinha, Pissarrão e Taquaril, sendo que, como ficou dito, esta última só foi explorada, não tendo dado bons resultados, em 1864, por processos modernos, desconhecidos nos tempos da fundação do arraial de que nos ocupamos.
Temos, pois, razões bastantes para não aceitar a versão da existência de grandes lavras minerais em Curral d’El-Rei.
Abílio Barreto
Belo Horizonte
memória histórica e descritiva
história antiga
Livraria Rex. Belo Horizonte
2ª edição. 1936.
CONSIDERAÇÕES BANDEIRANTES
Há dois bandeirismos concorrentes no território da atual Minas: o de homens de São Paulo, principal Vila da Capitania de Itanhaém, cuja cordial rivalidade a história consigna. O sertão mineiro é freqüentemente referido como “sertão de Taubaté”, porta de entrada para o acesso (via Pinda, Guará e Hepacaré, pelo ale do Paraíba, depois subindo o Passa-Vinte e transpondo a Mantiqueira pelo Passo do Embaú). De São Paulo a Taubaté a distância é de 30 léguas aproximadamente, percorridas (sg. ANTONIL) em 12 dias. De Taubaté ao Rio das Mortes, 45 dias de viagem (cerca de 80 léguas). Pode-se calcular que fossem mais 6 a dez dias para atingir Itaverava, via Carijós Velho (Roças de Garcia Roiz em 1702 por diante), numa distância de 20 léguas. As primeiras bandeiras levariam cerca de 3 meses para o trajeto, saindo de São Paulo, e 2,5 meses saindo de Taubaté. Partiam em abril, consolidada a estação seca (abril a setembro), reservando-se para estacionar durante a estação de chuvas no destino (outubro a março), quando o volume das torrentes e os lamaçais criavam riscos de vida insuperáveis na penetração dos sertões. Faziam seus plantios de milho e hortaliças em setembro, de modo a proceder à colheita nos meses de março e abril do ano seguinte e terem alimentos suficientes para o retorno a Taubaté e São Paulo, se já a preia de escravos índios era suficiente.
Caso contrário, passavam outro ano no sertão. Entre os bandeirantes (e por muitos anos depois), o conceito hidrográfico de bacia era inexistente. A importância de um curso dágua provinha de sua exploração e não do volume dágua em relação aos afluentes. Assim o córrego do Tripuí (nascido no Morro de São Sebastião,
Raimundo José da Cunha Matos
Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837)
Vol. 1. Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo.
Belo Horizonte / São Paulo. 1981.
Nem mais nem menos do que a continuação da linha cinética dos acontecimentos de 1955, quando Juscelino Kubitschek, imprudentemente, aceitara Goulart na chapa. As mesmas forças que atuaram fervorosamente a favor de JK, faziam-no exclusivamente a favor de Goulart. JK era a aparência, Goulart a realidade.
Assim como o movimento contra a candidatura de Juscelino Kubitschek, claramente esboçada nas Forças Armadas, não era especificamente contra Juscelino, mas contra seu indesejável parceiro.
De minha chegada
Passava os dois expedientes, de 8 às 12 e de 14 às 17, trabalhando, fora de casa, a qual eu mal suportava, não somente porque a mesma não convidava a permanecer nela muito tempo, como principalmente porque Maria, minha mulher, não tinha chegado ainda e não havia lar.
Achava-me, pois, em estado de sonambulismo relativamente à política, quando recebi um rádio do Gen. Penha Brasil, Comandante do III Exército, solicitando-me alojar o maior número possível de sócios da FARSUL, sigla da Federação das Associações Rurais do Rio Grande do Sul, os quais acorreriam a Santa maria para uma convenção de protesto contra a ameaça de invasão de suas estâncias, comandada pelo próprio Governador.
Respondi que podiam contar com cerca de 400 lugares. De fato, o Regimento Mallet estava com o efetivo reduzido a um Grupo, e dois enormes alojamentos achavam-se vazios. Colchões, travesseiros e lençóis não eram problema e nem cobertor seria necessário, de vez que estávamos em plena estação de calor.
Minhas duas filhas, seus maridos e meus 11 netos estavam hospedados em minha casa. Eu os havia convidado para o natal de 1961.
Depois das festas, dia 5 de janeiro, minha filha Laurita deveria retornar para Montevidéu, onde residia.
Infelizmente seu filho, meu neto, morreu atropelado. Segui para Trinidad, Uruguay, em avião especial, gentilmente concedido pelo Governador Leonel Brizola, por solicitação do Gen. Osvino Ferreira Alves, comandante do I Exército, então em gozo de férias
Ser-lhes-ei gratíssimo, a ambos, pela solidariedade que me deram naquele terrível momento de minha vida.
Regressei por terra a Santa Maria. No mesmo dia, fui receber Brizola no aeroporto. Ele vinha, sem convite, ao que parece, tomar parte na convenção que se realizaria naquela noite.
No jantar que o Gen. Osvino ofereceu ao Governador, fui o único convidado.
Durante as conversas que precederam o jantar naturalmente devido à minha posição em 1961, em defesa da Constituição vigente — defesa confundida, porque a causa era a mesma, com apoio a Goulart — não mantiveram reservas.
Do que ouvi, fiquei cientificado, sem sombra de dúvida, que estava diante de vasta e perigosa conspiração contra o regime.
Poucos dias depois fui a Porto Alegre e pedi a Penha Brasil que convocasse ao QG o Presidente da FARSUL, Dr. Saint Pastous e aos dois mostrei o perigo que o país corria.
Penha Brasil, ao que me lembro, estava, na ocasião, mais ciente do que eu. Daí o apoio que vinha dando à FARSUL. Pedi-lhe licença e fui a s. Paulo, onde tive encontros com Edmundo Monteiro e um grupo de homens importantes da Indústria, convidados pelo Dr. Otto Barcelos, Presidente da Fábrica Nacional de Vagões.
De S. Paulo fui até o Rio, onde falei a respeito com o então Ministro da Guerra do 1º Gabinete Parlamentarista, General João de Segadas Viana.
Regressando a Porto Alegre, auxiliado pelo jornalista Tadeu Onar, que desenvolveu um importante trabalho de articulação durante dois anos, mesmo depois que saí de Santa Maria, tomei contatos com o Presidente da federação das Associações Comerciais, com o Dr. Ildo Meneghetti, candidato ao Governo do Rio Grande, com o Cel. Perachi Barcelos e outros numerosos personagens de importância no Rio Grande do sul.
Ainda em companhia de Tadeu Onar, procurei interessar a Igreja Católica no problema e tive uma audiência com o Arcebispo d. Vicente Scherer. Infelizmente não consegui dele nenhum apoio.
Liguei-me também com o General Acioly Borges, Comandante da 6ª R.M., sediada
Mais tarde, estabeleci contatos com os Generais Álvaro Tavares do Carmo e Cunha Garcia, respectivamente comandantes das 2ª e 3ª Divisões de Cavalaria, e General Mendes Pereira, Comandante da A/D/6
Nada havia a tentar com a 1ª Divisão de Cavalaria, porque era Comandada pelo meu dileto amigo, General Oromar Osório, inteiramente dedicado ao Presidente e que, por não estar envolvido na conspiração de Brizola, jamais eu conseguiria convencê-lo da verdade.
O trabalho, desenvolvido para ativar as medidas do PSD gaúcho a fim de conseguirmos ganhar a eleição do Dr. Ildo Meneghetti, era importantíssimo. De fato, a vitória de Brizola dificultaria imenso a revolução no Estado.
Era imprescindível colocar o Meneghetti no Governo e isto não parecia nada fácil na conjuntura gaúcha, onde Brizola tinha todo o prestígio e o candidato do PSD não possuía apoio financeiro conveniente.
General Olympio Mourão Filho
em Memórias: A Verdade de um Revolucionário
L&PM Editores. Porto Alegre.
1978.
A ESCRITA MUSICAL
A modernização da grafia musical, promovida por uma tradição editorial que os compositores daquela época não conheceram, dificulta a imediata decodificação por parte de executantes que se formaram no contato exclusivo com as normas atuais da escrita.
Era grande a procura dos serviços de música para as festividades principais do ano, quer religiosas ou cívicas. A constância do sistema de leilões em música foi único no Brasil.
Baseia-se pelo que se apura nas “atas de arrematação”, nas quais aparece sempre o rol de músicos e a especificação dos instrumentos e vozes.
Na escrita predominava a “prática musical”. As partes para os conjuntos, quer instrumentais ou corais, eram escritas diretamente em folhas independentes; “pôr na grade” significava a reunião das partes para ensaios ou execuções programadas. Não se conhecia a escritura em partituras.
A única exceção é uma partitura autógrafa de José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, datada de 1783, intitulada “Tercio”.
O texto representa a oração do terço (rosário) e supõe-se que J. J. E. Lobo de Mesquita escreveu-a com simplicidade, na tentativa de chegar a erudição musical ao povo que fazia a “prática musical”.
Até aos nossos dias é a mais antiga obra escrita em partitura na música mineira do século XVIII, apresentada oficialmente.
Por ocasião do bi-centenário de seu aparecimento (1783-1983), a Funarte editou a obra, apresentando o “fac-simile” da obra “Tercio” em livro da autoria de Maria da Conceição de Rezende. O original pertence ao Museu da Música de Mariana e está registrado no Cartório de Títulos e Documentos dessa cidade.
M. Conceição Rezende
Itatiaia / Instituto Nacional do Livro.
Belo Horizonte. Brasília. 1989.
Machacalis Machado Madre de Deus de Minas Malacacheta Mamonas Manga Manhuaçu Manhumirim Mantena Mar de Espanha Maravilhas Maria da Fé Mariana Marilac Mário Campos Maripá de Minas Marliéria Marmelópolis Martinho Campos Martins Soares Mata Verde Materlândia Mateus Leme Mathias Lobato Matias Barbosa Matias Cardoso Matipó Mato Verde Matozinhos Matutina Medeiros Medina Mendes Pimentel Mercês Mesquita Minas Novas Minduri Mirabela Miradouro Miraí Miravânia Moeda Moema Monjolos Monsenhor Paulo Montalvânia Monte Alegre de Minas Monte Azul Monte Belo Monte Carmelo Monte Formoso Monte Santo de Minas Monte Sião Montes Claros Montezuma Morada Nova de Minas Morro da Garça Morro do Pilar Munhoz Muriaé Mutum Muzambinho
A CONSCIÊNCIA SUJA
III
Noite-montanha. Noite vazia. Noite indecisa.
Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.
Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.
Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,
nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?
Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.
Os cabarés estão proibidos aos sem-dinheiro.
Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.
Minas inteira se banha em sono protocolar.
Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.
É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.
Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,
onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,
ao nosso lado, singra tão longe, bóia tão nuvem
em seus transmundos de indagativas constelações?
Luís Vaz perpassa, em vôo grave, no Bar do Ponto:
soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.
Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.
Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.
Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia
esconde o lume do coração. Rápido, Alberto
será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte
alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso
queres saber? Em poço raso vais afundar-te
para que os outros fiquem cientes de tua ausência
e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,
ator
crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.
Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,
fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?
Quantas caretas treinas no espelho para esconderes
a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico
é o menos próprio para gravar o natural.
Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.
Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,
com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,
ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico
não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,
laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?
A noite avança. O último bonde passa chispando
rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?
Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas
nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.
Carlos Drummond de Andrade
em Boitempo
1968-1973-1979.
AGOSTO, 1961: A RENÚNCIA
Dia do Soldado. Onze horas
Instantes após corria o pano. No proscênio, Jânio. Público restrito e selecionado. Dentro em pouco seria todo um povo. Palco, o Brasil.
A comédia iria ter início.
“Senhores Ministros:
Esta reunião se destina a dar-lhes conhecimento de assunto da mais alta gravidade. Acabo de renunciar ao cargo de Presidente da República. Não posso governar com este Congresso. Os senhores organizem uma junta e assumam o poder. O Ministro Pedroso Horta irá entregar a carta que efetiva este ato, às quinze horas, para lhes dar tempo de tomarem as medidas necessárias para acautelar a ordem pública.”
O inesperado da cena os perturbou. E surgiram os apelos: dramático, na voz de Sylvio Heck, da Marinha; incisivo, como é de seu feitio, na palavra de Denys, do Exército. Apenas não ouviu o que esperava e pelo que ansiava. Daí permanecer irredutível. Seu gesto fora maduramente pensado e era irrevogável. Disse: “Daqui passarei pelo Alvorada para apanhar minha bagagem, que já está pronta. De agora em diante é com os senhores.”
E voara para Cumbica,
Em seu sonho, um público inumerável, enrouquecido pelos bravos entusiásticos, de pé, em delírio, o ovacionava em consagração definitiva. Iniciava-se uma nova era — a janista — sem prazos, sem limitações. Uma força onipotente e indiscutida. O poder de um só homem, nascido e criado na obscuridade, mas ambicioso, olhos voltados para modelos que desejava ultrapassar, na crença de absurda predestinação. Não entendera que sua escolha fora um protesto coletivo, seu papel o de um instrumento. Daí sua ilusão.
Jânio perdeu, mas, jogador que é, não desiste. O que admira é que, ainda hoje, exista quem o ouça e nele acredite.
Passado o tempo, com a serenidade que a distância permite, já vividos os acontecimentos, ainda nos pasmamos do episódio: um só homem, por sua vontade exclusiva, insensível às conseqüências do tumulto que seu gesto iria desencadear, friamente, com total desprezo pela sorte do país, fazendo o mais execrável jogo que a imaginação possa conceber, lançara o povo brasileiro, que nele depositara sua confiança, na mais terrível contingência de sua História.
Deliberadamente. Calculadamente. Cinicamente.
O pano descera. E o Brasil?
Refeitos da surpresa, os ministros militares procuraram enfrentar a situação. Encontravam-se em Brasília alguns oficiais generais das três corporações, por haverem sido distinguidos com o mais elevado grau da Ordem do Mérito Militar. Chamados ao Planalto para discutir o assunto, ajustaram uma solução. Tinham plena consciência de que Jango representava um risco para os destinos do país, que deveriam evitar, mormente quando a nação, estarrecida, via desfeita a miragem que se formara ante seus olhos. Por outro lado, não se poderiam aventurar na maliciosa sugestão de Jânio — “formem uma junta e assumam o governo”. Naquela emergência seria cobrir de razão o desertor. Decidiram proceder dentro dos preceitos constitucionais que regulam a vacância do cargo, tendo em conta a ausência de Jango, circunstância que lhes daria tempo e permitiria contornar o problema. Ranieri Mazzilli, presidente do Congresso, assumiria o governo. Depois submeteriam ao Congresso um manifesto em que retratariam a conjuntura criada e as previsões do que viria a ocorrer se Jango subisse à Presidência. Confiavam em que os congressistas iriam deliberar visando, exclusivamente, aos interesses superiores do País. Duas eram, entretanto, as concepções que iriam defrontar-se: uma, a militar, que encarava os fatos sob um prisma de idealismo, forjada em uma escola onde a abnegação é a regra, pouco presa às vantagens pessoais, necessitando de quase nada, desejando menos ainda: a outra, imediatamente, abrangendo apenas o horizonte visível, considerando que em política o erro é perder, ambicionando cada vez mais, com esforço sempre menor, julgando desfavoravelmente os que pensam de modo diverso e que os mais benevolentes consideram, apenas, ingênuos. O raciocínio dos primeiros, por demais simplista e fora da realidade, iria conduzi-los a uma luta desigual, não sendo difícil a previsão de quem levaria a melhor. Esqueceram-se, principalmente, de que na idéia dos políticos surgiria, como reação inicial, a desconfiança. Embora verbosos são sempre reticentes. As palavras servem-lhes como meio de ocultar e não de exprimir os pensamentos. Na exposição, que lhes seria encaminhada, buscariam algum desígnio não revelado, nunca uma análise franca e realista.
Depois, haveria o tremendo jogo de interesse. A saída de Jânio, com sua tendência autoritária, mal servida por um cérebro deformado, representava o alijamento da tensão permanente em que viviam. Fora um intruso. Jango era um comensal da mesma mesa. E um fraco. Também, para alguns poucos mais ciosos de suas prerrogativas, o ato dos ministros tinha o sabor desagradável de uma tutela.
Por tudo isso, iria ser recusada a sugestão que afinal lhes foi transmitida — o impedimento de Jango.
Carlos Luís Guedes
em Tinha que Ser Minas
Nova Fronteira. Rio de Janeiro.
1979.
UM CADERNO DE FEL
Difícil imaginar o que ardeu de veneno com aqueles cadernos, quando se vê o que sobrou para as páginas do Novo Diário, que Eduardo Frieiro começou a escrever
Os jornais, reclama, pagam uma ninharia a seus colaboradores, sendo ainda pior a situação
Frieiro não esconde sua raiva sempre que o prefeito Juscelino Kubitschek convida “literatos de nome” a visitar Belo Horizonte. “Festeja-os, banqueteia-os, afaga-os”, escreve ele. “Alguns — poucos — merecem as homenagens. Outros — a maioria — são uns bundas-sujas, uns literatos de segunda ou terceira zona.” Quando Juscelino promove uma Exposição de Arte Moderna, em 1944, ele registra em seu diário a convicção de que “os artistas e literatos, campeões da arte moderna, são todos comunistas”, e a arte de vanguarda “uma das armas de propaganda dos bolchevizantes das Américas”.
O revolucionário conjunto arquitetônico da Pampulha — o Cassino, a Casa do Baile, o Iate Clube e a igreja de São Francisco de Assis —, que o jovem prefeito estava construindo, não passava de “uma criação típica do capitalismo: obra do vício e, enfim, do capital, que o luxo fomenta e alimenta”. Por muito tempo Frieiro vai deblaterar contra o que chama de “pampulhocracia”. Sem prejuízo da acrimônia, simpatizava com Juscelino, que lhe confiou, já governador, a tarefa de organizar a Biblioteca Pública do Estado. Eram velhos conhecidos e certamente cruzou com ele nos corredores da Imprensa Oficial, onde o jovem médico, formado em 1927 (na mesma turma de Pedro Nava), teve o seu primeiro emprego.
O escritor vê com azedume a existência, no Rio, de “uma igrejinha literária [...] muito presumida e mandona, que tem à sua frente o Aníbal Machado, o José Lins do Rego, a Adalgisa Nery e outros grã-finos de porta de livraria”. Irrita-o tremendamente o fato de Aníbal ser titular de cartório, e estende a implicância a Fernando Sabino quando este, tendo se casado com uma filha do governador Benedicto Valladares, torna-se distribuidor de feitos no Rio de Janeiro. “Fernandinho, o Príncipe Consorte”, alfineta Eduardo Frieiro.
Seu livro de estréia, o romance O Clube dos Grafômanos, de 1927, ridiculariza o modernismo e os modernistas. Uma das personagens, o poeta Pereirinha, apelido de Jesus-Maria-José Pereira da Silva, é fundadora de uma publicação literária, a Moderníssima, que “não passou do terceiro número” — coincidência ou não, exatamente como A Revista de Drummond e sua turma.
Fala-se nuns Poemas Estrambóticos e Rudimentares, “prosa ruim, tipografada em forma de verso” — iniludível referência aos Epigramas Irônicos e Sentimentais de Ronald de Carvalho. Outra personagem do romance, Leiva, sentencia a certa altura: “Como não há uma polícia sanitária das idéias, as nossas letras foram contagiadas através de alguns moços paulistas, ledores de revistas européias de vanguarda”. Apesar das ferroadas, Drummond falou de O Clube dos Grafômanos, num artigo de 1930, como uma “sátira ao modernismo, cheia de malícia e simpatia”.
Humberto Werneck
jornalistas e escritores
Instituto Moreira Salles / Companhia das Letras.
São Paulo. 1992.
JULES E JIM
O centro da cidade estava vazio, como sempre ficava aos domingos. Fazia uma fresca manhã de sol, com um céu azul sem nuvens, cuja luminosidade dava às coisas uma nitidez indubitável. A turma do CEC tinha comparecido em peso à pré-estréia do último lançamento de Truffaut, Jules et Jim, ainda sem título
— “O cinema é a verdade 24 quadros por segundo” — citou alguém.
— “O plano-seqüência é uma questão de moral” — citou outro.
— “O close-up é uma questão de amor” — recitou outro mais.
— Godard: “Il faut tout mettre dans un film”. Muito boa essa.
— “Um cineasta precisa ter punhos fortes" — arriscou algum outro.
E assim fomos passando o tempo, enquanto dez horas não chegava. Dickson se aproximou de mim. Parecia ainda mais velho sob a crueza dura daquela luz tão clara. Tinha numa das mãos, como sempre, aliás, um maço de Continental e uma caixa de fósforos.
— Tudo bem, Godard? Rapaz, eu estou despaginado. Ontem derrotei um litro de uísque sozinho. E olhe que eu detesto uísque...
Ri.
— É. Está na cara. Ainda mais com essa luz toda.
— Essa luz toda encantou Orson Welles. Você sabia que ele tomou um porre, subiu numa árvore da avenida Afonso Pena e mijou lá de cima, em plena avenida, cinco horas da tarde?
— A las cinco en punto de la tarde...
— Desculpe aquele dia no Bucheco. Quando olhei pro lado, cadê você? Já tinha ido. A Marisa quando aparece é assim mesmo.
Lembrei-me da cena do beijo.
— Ela vem?
— Sei lá, ela é doida.
— Se é!
— Ficou completamente de porre aquela noite. Queria de todo jeito. Sou amigo do pai dela, pô. Aliás, ela tem a quem puxar na birita.
Sérvulo apareceu bem a tempo de me salvar, quando já ia me enrolando num mal-estar misturado com indesejável ciúme.
— Vamos entrar, já está na hora.
— E você, não vem? — perguntei a Dickson.
— Encontro vocês lá dentro. Vou esperar a Marisa mais um pouco.
Entrei com Sérvulo e achamos um lugar no balcão. O imenso lustre em forma de pêra apagou suas centenas de pequenas lâmpadas. O som de carrilhões celestiais logo anunciou que a sessão já ia começar. Grossas cortinas vermelhas se abriram, revelando a enorme tela branca e sua claridade magnetizante.
Seguiram-se duas horas de intensa emoção. O filme era simplesmente lindo, inesperada e poeticamente dilacerante. Estava emocionado de verdade. Queria criar também, desejava naquele momento fazer muitos filmes tão lindos quanto esse. Às vezes, vinham-me lágrimas aos olhos. Ao fim da sessão, abalado, não sei por que pensava tão fixamente em meu novo amigo Bituca: “Bituca tem que ver isso”. Tanto que nem prestei atenção às duas viaturas negras, tripuladas por policiais armados, que vigiavam bem de perto aquela movimentação à saída do cinema.
Aí lembrei-me de outra coisa: Marisa não havia aparecido.
Márcio Borges
histórias do clube da esquina
Geração Editorial. São Paulo.
1996.
Outro fato foi a perseguição contra Felisberto, movida pelo ouvidor Bacelar, perseguição derivada do seguinte:
Por ocasião das festas da Semana Santa achava-se em uma das igrejas do Tijuco (a igreja de S. Antônio, hoje Sé Catedral), assistindo ao ofício religioso, a família de Caldeira, achando-se com ela uma moça mineira, muito prendada e formosa, parenta dos Caldeiras. O ouvidor, querendo engraçar-se com a moça, ali mesmo, e à vista de todos, atirou-lhe uma flor ao colo. A moça, como era natural, repeliu aquela liberdade, cheia de indignação. Felisberto, sabendo o que fora feito à sua parenta, tomou a defesa desta, e veio esperar o ouvidor no adro da igreja. Ao sair este, Felisberto pediu-lhe satisfações, exigindo uma explicação. O ouvidor, cheio de si, recusou a explicação. Então Felisberto, em desagravo da honra de sua família, sacou de um punhal e avançou contra o ouvidor, não chegando a feri-lo.
A este respeito correm três versões. A primeira versão diz que não chegou a feri-lo porque o ferro resvalou. A segunda versão diz que diversas pessoas intercederam para apaziguar a contenda, entre as quais o padre da freguesia. A versão mais corrente é a terceira: diz que “na hora
O povo dividiu-se em dois partidos: um, a favor de Caldeira; outro, a favor do Intendente, que se colocara ao lado do ouvidor.
O ouvidor, abusando do cargo que exercia, começou desde esse dia a perseguir Felisberto, mandando ao governador da Capitania, e até a Portugal, cartas e ofícios caluniosos.
Ora, não tendo Caldeira entrado, por causa do roubo já referido e do não pagamento da letra, com a taxa anual devida, — era esse fato excelente pretexto para prendê-lo.
Para isso o governador da Capitania dirigiu-se em pessoa ao Tijuco, levando consigo numeroso regimento de soldados (dragões). Felisberto ignorava que o governador vinha prendê-lo. Dirigiu-se ao seu encontro com as primeiras pessoas do lugar.
No que foi ao seu encontro, o governador deu voz de prisão a Caldeira em nome de El-Rei.
Então Felisberto, com as faces abrasadas de cólera, perguntou, em voz alta, “que crime cometera”.
A resposta foi ver-se cercado pelos dragões e efetivamente preso.
Nesse mesmo dia (31 de agosto de 1753), o ouvidor, seu rancoroso inimigo, mandou fechar, lacrar e selar as portas de sua residência. Antes disso, fez a família de Caldeira evacuar a casa, indo sua senhora e filhas pedir asilo em casa de parentes.
No dia seguinte era Felisberto Caldeira Brant arrancado dos braços de sua mulher e filhos, e levado, com as mãos acorrentadas, à Vila do Príncipe (Serro Frio), escoltado por muitos soldados.
Daí foi remetido para o Rio de Janeiro e embarcado para Lisboa.
No dia seguinte ao de sua prisão, mandou o governador seqüestrar todos os seus bens. Apesar de avaliados de propósito em menos de seu real valor, o seu total montava a 2 milhões de cruzados, soma fabulosa para aqueles tempos, e que dava com muita sobra para pagar o que Felisberto devia. Só no cofre da Intendência foram encontrados 33.773 quilates de diamantes! Apesar de Caldeira ter direito á diferença, a maior, não lhe restituíram nada e ficaram com tudo. Sua mulher e filhos cairiam na miséria, se não fossem socorridos pelos parentes.
Enquanto isso se dava no Tijuco, — em Lisboa era Felisberto caldeira Brant encarcerado na enxovia do Limoeiro. Aí esteve preso por espaço de dois anos. Era então rei de Portugal D. José I, e ministro do reino o Marquês de Pombal. Por mais que Felisberto rogasse a sua soltura, apresentando fiadores idôneos, que garantiriam a execução do resto do contrato, embora alegasse que já havia pago de sobra o que devia, entregando todos os bens, — o rei e o ministro foram surdos a seus justos reclamos.
Parecia que Felisberto estaria condenado a ficar indefinidamente preso, quando uma circunstância inesperada lhe veio facultar a liberdade:
No dia 1º de novembro de 1755 violento terremoto abalou a cidade de Lisboa. Os palácios aí construídos à custo do ouro do Brasil, e dos vexames que oprimiam a Colônia, fizeram-se em ruínas no curto prazo de cinco minutos, ficando reduzidos a um montão de entulho!
A prisão
Pois bem. Esse homem que era inocente, esse homem a quem a Coroa de Portugal devia parte de seus bens seqüestrados, esse homem que estava ansioso por cobrar de novo a liberdade, era a tal ponto respeitador da Lei (fosse embora uma lei injusta e odiosa), que, em vez de fugir, foi apresentar-se ao Marquês de Pombal:
— Senhor. A prisão que me encerrava, abriu-se por efeito do terremoto. Considero-me ainda preso. Digne-se Vossa Mercê ditar-me as suas ordens.
O Marquês de Pombal admirou-se de tanta lealdade. Era incrível que o respeito à lei atingisse aquele ponto!
— O senhor está livre. Pode ir.
Nesse mesmo dia o Marquês de Pombal referiu o ocorrido a João Pereira Ramos, ao Bispo de Coimbra e ao general Godinho, todos brasileiros e residentes
Felisberto Caldeira Brant, enfermo gravemente dos maus tratos que recebera na prisão, foi tratar-se em Caldas da Rainha. Esperava restabelecer-se para então regressar ao seio de sua amada pátria e de sua família. Mas tão alquebrado se achava por tudo que sofrera, que seus padecimentos em breve se agravaram. E o inditoso brasileiro cerrou os olhos em terra estranha, longe dos seus, pobre e desamparado, — ele, que fora o homem mais rico de toda a Colônia!
Carlos Góis
em Histórias da Terra Mineira
Garnier. Rio de Janeiro.
1994.
Não sou dos que desejam para Minas certo ghandismo, isto é, a conservação das Alterosas como uma espécie de parque nacional do passado, como Huxley imaginou no México, em que uma vida de outros tempos se conservasse, para divertimento dos brasileiros progressistas de outras zonas, que aqui viriam apreciar as ruínas de Ouro Preto ou a semana santa de São João del Rei como relíquias do passado. No discurso de sucessão a Afonso Arinos, Miguel Couto deu a entender que o nosso grande sertanista literário assim considerava a sua província natal e quisera preservá-la do progresso, para um gozo egoístico de grã-fino, que aqui viria, cansado de Paris, retemperar o seu estômago e os seus olhos, com o passado.
Nem era essa a concepção que Arinos tinha da sua província natal, nem a que temos nós outros, que também procuramos defender Minas contra um progressismo precipitado de seus próprios filhos. O que sustentamos é que, na psicologia de Minas, como aliás na de qualquer outra região do Brasil, deve prevalecer a fidelidade aos imperativos de sua própria natureza moral. Ora, o que a história e a observações nos revelam é que o homem mineiro possui muito mais as características do homem eterno que do homem moderno. Não se trata de rejeitar o progresso. Não se trata de qualquer romantismo do passado. Já vimos mesmo que o mineiro é naturalmente anti-romântico. Trata-se de ser fiel à sua própria natureza, em qualquer estágio de progresso. Pode-se ser moderno numa casa de taipa e eterno num arranha-céu. Os acidentes exteriores não alteram a qualidade do temperamento. Esse é que conta. Ora, o mineiro é homem do eterno, encha ou não de arranha-céus as suas cidades. Embora haja, pouco a pouco, uma reação d arquitetura sobre os costumes e destes sobre as qualidades temperamentais, que acabam provocando uma reação sensível — e por vezes decisiva nos mais frágeis dos caracteres — das condições materiais sobre as qualidades morais.
“Que é o homem moderno?” escrevíamos em 1937. “É antes de tudo o que se diz moderno e faz questão de o ser. E de acordo com o conceito que demos de modernidade, será aquele que timbra em ser diferente, repudia e combate por sistema o passado e aceita o presente... A mentalidade moderna é uma mentalidade por natureza temporal”.
Ora, já vimos que o mineiro, ao contrário, considera a categoria do tempo como de segundo plano. Coloca o espaço, por exemplo, acima dela. É mais fiel ao seu lugar que ao seu momento. São as condições de meio mais que as de momento que influem sobre o homem d